P.E.C. Nº 234: Rali «Casino Solverde», 1997
Há três aspetos essenciais para
um bom Rali: carros potentes, pilotos de qualidade e troços exigentes em termos
de condução.
Em 1997, um ótimo exemplo da reunião de tais predicados podia-se
encontrar no saudoso Rali Solverde, colocado na estrada pelo Estrela e Vigorosa
Sport e disputado nas classificativas desenhadas no eixo Arouca/Vale de Cambra.
A prova, antepenúltima etapa do campeonato de Ralis daquele ano, assumia um
caráter decisivo nas contas do título.
Peres, motivadíssimo, procurava no
Solverde um bom resultado com vista ao quarto título consecutivo, igualando
dessa forma o feito de Carlos Bica.
Por seu lado Adruzilo, já completamente
moldado ao saudoso 306 Maxi da Peugeot Portugal, guiava como nunca para coroar os
seus atributos com um primeiro título de campeão absoluto.
Havia, porém, muito
mais.
Nas hostes da Renault coexistia a tempestade e a bonança, que é como quem diz, Macedo e
Azeredo nos empolgantes Mégane Maxi.
Da Madeira vinha Américo Campos para fazer
evoluir um segundo 306 nos troços continentais.
Miguel Campos prometia o
habitual espetáculo com o seu Evo de grupo ‘N’.
Francisco Costa sentava-se num exemplar dos sempre arrebatadores Clio Kit Car ex-oficiais.
Pedro Meireles, a dar os
primeiros passos na modalidade, munia-se de um bem preparado Golf GTi para se
apresentar à partida da prova do E.V.S.
No agrupamento de produção havia muitos e
bons carros, dos Ford aos Subaru, dos Mitsubishi ao Toyota de Paulo Freire,
entre diversos outros.
O interessantíssimo troféu Seat era construído
por gente tão insuspeita quanto Pedro Leal, Vítor Pascoal, José Pedro Fontes
(a ensaiar os primeiros passos na modalidade), Vítor Lopes, Rodrigo
Ferreira ou Luís Ramalho.
Se tudo o que citámos não fosse por si só
suficiente, relembrar ainda que no C.N.R ao tempo evoluíam projetos de relevo
como os levados a cabo por José Araújo no Nissan Micra 16v, ou Armando Oliveira
num bem preparado Citroen ZX.
Com a base de operações situada na cidade
de Espinho em função dos interesses comerciais do principal patrocinador da
prova, a caravana infletia depois ao interior do país para disputar catorze provas
especiais de classificação, muito concentradas entre si, num total de 126,20
quilómetros cronometrados.
Rezam as crónicas que o Rali Solverde disputado há
16 anos seria fértil em peripécias desde início até final.
Incólume à hecatombe
de desistências que tomaria de assalto os principais adversários, Adruzilo
Lopes carimbaria em Vale de Cambra o primeiro de três títulos nacionais, num
Rali que parecia desenhado à medida das suas ambições e das caraterísticas do
saudoso bólide que pilotava como ninguém.
A prova, não obstante um contratempo
na ligação até à primeira especial que atrasaria irremediavelmente a caravana,
iniciar-se-ia sob o signo do equilíbrio, com ‘Zilo’ e Peres a concluírem
‘Agras’ empatados, e McCedo (como o AutoSport de forma tão certeira e
bem-humorada escreveu recentemente) empatado com Azeredo logo atrás, a escassos dois
segundos.
Na classificativa seguinte, ‘Santo António’, o piloto do Ford Escort
WRC a andar absolutamente nos limites veria o automóvel pegar fogo (imagens da
viatura já na oficina podem-se encontrar neste trabalho, não tendo sido
possível apurarmos as causas do incêndio), praticamente entregando de
mão beijada o cetro de campeão ao homem de Regilde.
Mas o Rali ainda estava no
início.
Anulado ‘Santo António’ pelo facto de diversos concorrentes terem
parado para auxiliar nos trabalhos de combate ao fogo do Ford azul e amarelo, a
especial seguinte, disputada nas magníficas estradas da Serra da Freita,
levaria a nova interrupção no normal fluir do Rali, desta feita na sequência de
um violentíssimo acidente do Renault Clio n.º 26 tripulado por Jorge Rodrigues
e Miguel Ramalho.
Até ao final da segunda secção, Adruzilo Lopes asseguraria uma
curta vantagem sobre o sempre esforçado José Carlos Macedo, não obstante se ter
visto a braços com uma súbita perda de rendimento no motor do 306 Maxi, no
decurso do troço de 'Macieira de Cambra'.
A hora de almoço seria profícua para os
comandados de Carlos Barros.
Debelados os problemas mecânicos do automóvel, a
parte da tarde não seria mais que a expressão de um domínio quase avassalador
da dupla Lopes/Lisboa, ampliando decisivamente a vantagem sobre os pilotos dos
Renault Mégane Maxi.
Quando as posições do pódio se presumiam estabilizadas, na
última especial da prova (‘Função 2’), ‘Nini’ Macedo cometeria um pequeno
excesso, suficiente, porém, para arrancar uma das rodas do bólide da marca do
losango, levando o bracarense à desistência.
Desta forma, Adruzilo Lopes e Luís
Lisboa chegavam virtualmente aquele que seria o primeiro de três títulos
nacionais absolutos, e a equipa Peugeot Portugal dava início a um longo ciclo
vitorioso nos Ralis portugueses até 2009, só interrompido pelo bicampeonato de
Pedro Matos Chaves/Sérgio Paiva, conseguido em 1999 e 2000, e o tetra de Armindo Araújo e Miguel Ramalho obtido entre 2003 e 2006.
À chegada a Espinho, Lopes obteria a quinta
vitória absoluta da carreira (no seu pecúlio estão registados para já vinte e
um triunfos), relegando para os lugares mais baixos do pódio Pedro Azeredo e
Américo Campos.
Miguel Campos, quarto na classificação geral e primeiro do
agrupamento de produção, começava a dar mostras do enorme talento e determinação
que seriam o seu cartão-de-visita nos anos seguintes.
Como atrás
desenvolvemos, o participado troféu colocado na estrada pelo importador
nacional da Seat com base nos irrequietos Ibiza, veria Pedro Leal ser o vencedor
incontestado da competição neste Rali Solverde (triunfando em todas as
especiais), espalhando categoria a granel em cada curva dos doze troços da
prova, secundado por Vítor Pascoal, Rodrigo Ferreira, Manuel Rolo e Armando Parente, por esta ordem.
Nos
clássicos, Fernando Silva imporia a potência do seu Porsche 911 nos troços ao
redor da Serra da Freita para chegar ao quarto título na categoria, na frente
de Rui Azevedo aos comandos do Ford Escort RS 2000 e de Francisco Couceiro tripulando
o Opel 1904 SR, que na fase final do Rali levaria a melhor sobre Jorge Areia em
carro idêntico, pela escassa margem de sete segundos.
Há dezasseis anos eram
assim as provas do campeonato nacional de Ralis.
Maior quilometragem do que
atualmente.
Um número de classificativas (catorze) que se pode considerar
expressivo se o comprarmos com o normal paradigma dos dias de hoje,
tendencialmente mas compacto.
Havia construtores a olhar para o campeonato como
forma privilegiada de promover os seus produtos, investindo convictamente nos
Ralis.
As televisões olhavam para as competições de estrada com uma atenção que
está nos antípodas daquilo que se verifica nos dias de hoje.
Eram tempos
diferentes, num contexto diferente.
O Rali Solverde de 1997 (um exemplo entre
vários outros que poderíamos citar), posto na estrada numa zona por sinal
interessantíssima e com pergaminhos na modalidade, é uma boa expressão dessa
diferença.
Nota:
- Os mapas interativos que abaixo
se reproduzem são da nossa autoria. Foram elaborados de acordo com a informação
que para o efeito conseguimos reunir relativamente às classificativas que integraram o Rali Solverde em 1997. Admitimos que possa haver algumas imprecisões nos mapas em questão, ainda
que não alterem substancialmente o trabalho final. Nessa medida, toda e
qualquer informação que os nossos visitantes possam fornecer de molde a
otimizar estes troços virtuais, adequando-os com o maior rigor possível ao que
efetivamente se verificou em 1997, é bem-vinda e merecerá desde já o nosso mais sincero agradecimento.
'AGRAS' || 4,00 quilómetros
(P.E.C. N.º 1)
Ver AGRAS, 1997 num mapa maior
'SANTO ANTÓNIO' || 8,70 quilómetros
(P.E.C. N.º 2 e N.º 4)
Ver SANTO ANTÓNIO, 97 num mapa maior
'FIGUEIREDO/FREITA' || 12,00 quilómetros
(P.E.C. N.º 3 e N.º 5)
Ver FIGUEIREDO/FREITA, 97 num mapa maior
'MACIEIRA DE CAMBRA' || 6,20 quilómetros
(P.E.C. N.º 6)
Ver MACIEIRA DE CAMBRA, 97 num mapa maior
'SÃO PEDRO DE CASTELÕES' || 14,20 quilómetros
(P.E.C. N.º 7 e N.º 11)
Ver SÃO PEDRO DE CASTELÕES, 97 num mapa maior
'PAREDES' || 6,40 quilómetros
(P.E.C. N.º 8 e N.º 12)
Ver PAREDES, 1997 num mapa maior
'MOUTA VELHA' || 8,80 quilómetros
(P.E.C. N.º 9 e N.º 13)
Ver MOUTA VELHA, 97 num mapa maior
'FUNÇÃO' || 7,90 quilómetros
(P.E.C. N.º 10 e N.º 14)
Ver FUNÇÃO, 97 num mapa maior
MAPA GERAL DA PROVA
Ver RALI «CASINOS SOLVERDE» / 1997 num mapa maior
AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://members.tripod.com/~rali_solverde/cartaz1.JPG
- https://www.facebook.com/photo.php?fbid=109456529103095&set=a.114700628578685.7020.100001162463119&type=1&theater
A BASE DE INFORMAÇÃO PARA A PRODUÇÃO DO TEXTO CONTIDO NESTE TRABALHO FOI RECOLHIDA EM:
- http://members.tripod.com/~rali_solverde/classif.htm



O site que serviu de base para este trabalho foi só a minha primeira tentativa a fazer um website :) 16 anos depois continuo nessa vida e revisitando a "obra-prima" verifico que ainda bem que evoluí na "arte" desde esse tempo :P
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