quarta-feira, 13 de novembro de 2013

P.E.C. Nº 236: Há Mões ou menos trinta anos...



O leitor com estoicismo suficiente para ler os nossos fracos escritos, saberá que apreciamos particularmente o interior de Portugal. 

Temos sinalizando anteriormente neste blogue, em diversas ocasiões, forte interesse pela ruralidade deste país, onde em grande medida ainda se cultiva uma certa qualidade de vida e preservam laços de solidariedade, hoje quase inexistentes no bulício das nossas maiores urbes. 

Quando as responsabilidades da vida descansam em parque fechado, gostamos de rumar, então, para bem longe das rotundas e excrescências betuminosas que tomaram de assalto (não só, mas sobretudo) o litoral português. 

Revisitámos recentemente Mões

Trata-se de uma pequena e centenária vila do concelho de Castro Daire, encravada no sopé das Serras de São Lourenço e São Salvador

Ali se encontram, ainda, as reminiscências de um Portugal tendencialmente em vias de extinção, feito de povoados pequenos com ruas estreitas e empedradas, nos quais o casario e inevitável igreja matriz se soerguem através dos blocos de pedra da região. 

A economia local alimenta-se, como muitas outras vilas similares existentes por este país fora, da agricultura, criação de animais, dos negócios em torno da venda e transformação de madeira, e, claro está, da extração de pedra. 

Perto em quilometragem da Autoestrada n.º 24, Mões, como muitas outras Mões, fica conceptualmente longe de tudo. 

Não é, note-se, que os modernos eixos rodoviários que cruzam o país não tenham aproximado em tempo o interior do litoral do país. 

Hoje chega-se relativamente depressa a qualquer lado.  

Chega-se e, na maioria das ocasiões, passa-se sem parar, vendo-se sem observar. 

Nada há que substitua o romantismo contemplativo de uma boa e indolente estrada carregada de curvas, portanto. 

Mões, a norte de Viseu, foi durante anos nome e início de uma classificativa de Ralis, quer no âmbito do Rali de Portugal, quer na fase de maior pujança da antiga Volta a Portugal. 

Tendo montanhas e sinuosos estradões em terra a serpentá-las, foi com alguma naturalidade que a região assumiu relevo na modalidade com as saudosas especiais de Covelo de Paiva, Nogueira, a citada Mões, e naturalmente o sublime troço de Viseu

Benfeitorias em nome da qualidade de vida das populações foram sendo realizadas com o passar dos anos. 

Hoje, boa parte daquelas estradas estão já asfaltadas, e várias delas foram até reaproveitadas em tempos não muito distantes para Ralis nacionais. 

O Rali de Portugal, agora concentrado no sul do país, mudou por completo a idiossincrasia que lhe conhecemos no passado. 

Não é crível que em próximos anos a região de Viseu seja encarada como hipótese para acolher de novo a caravana de participantes no evento. 

Porém, há trinta anos atrás, Mões e lugarejos circundantes eram o país que Portugal esquecia e que o melhor Rali do mundo fazia questão de relembrar. 

Em 1983, a prova atingia picos de popularidade nunca atingidos até então. 

O seu esquema competitivo era praticamente perfeito. 

O Rali afirmava-se pela sua dureza, fosse pela extensão ou pela exigência e diversidade das classificativas. 

Como nenhum outro, premiava a polivalência de pilotagem. 

Um desafio de tamanha grandeza, naturalmente não deixava de ser tornar muito apelativo para os concorrentes colocarem à prova as suas capacidades, sobretudo aos que não participavam com regularidade em provas do mundial. 

Disso são exemplos, precisamente na décima sétima edição do evento disputada há trinta anos, António Zanini, ao tempo pluricampeão de Espanha (entre 1974 e 1978, 1980 e 1982) e campeão europeu (em 1980), ou Adartico Vudafieri, bicampeão italiano (1978 e 1980) e de igual forma campeão europeu (1981)

É desde último que trata a foto que abre o presente trabalho. 

Como se colossos como Rohrl e Alén não fossem suficientes, a estrutura oficial da Lancia apresentou-se em 1983 no nosso país reforçada com os serviços de Adartico, na tentativa de contrariar o poderio da armada Audi, onde pontificavam os não menos colossos Mikkola e Blomqvist, acompanhados de Mouton, vencedora da prova no anterior. 

Rezam as crónicas que as prestações de Adartico e António seriam esforçadas e, em jeito de balanço, positivas, concluindo o Rali no quinto e sexto lugar final, respetivamente. 

Os onze quilómetros de Mões, em dupla passagem, coroariam o talento de Mouton, vencedora da especial em ambas as ocasiões. 

Na curva da antiga casa do guarda, ao cimo da fase de subida do troço, o 037 com o n.º 7 estampado nas portas e tripulado pela dupla Vudafieri/Perissinot deixou para a posteridade o registo fotográfico representado neste trabalho. 

Volvidos trinta anos, estivemos no local. 

A casa do guarda, como praticamente todas as casas do guarda deste país, é hoje um manifesto exemplo de incúria e abandono. 

A estrada levou uma camada de (mau) e irregular asfalto. 

Apraz-nos todavia registar que o local apresenta hoje melhores índices de arborização que em 1983. 

O odioso eucalipto que tomou de assalto praticamente todas as zonas de floresta do país, ainda não tem ali expressão significativa. 

Nas Serras de São Salvador e São Lourenço, de onde se avista meio Portugal, impõe-se altaneiro o magnifico pinheiro bravo. 

Para tudo ser perfeito faltam duas coisas: carros rápidos e público entusiasta. 

Quando no plano das intenções se fala à boca cheia da transposição do Rali de Portugal para o norte do país em 2015 (como se a prova imperativamente se tenha de disputar, estanque, apenas no norte ou apenas no sul…), equacionar um esquema que contemple o regresso a Viseu (em triângulo, quiçá, com Mortágua e Lousã/Arganil?) talvez fosse ideia interessante, quanto mais não seja porque por aquelas paragens ainda há muita e boa gravilha por desbravar

Se tal for, aliás, perguntado ao Vudafieri, somos tentados a desconfiar que ele concorda inteiramente connosco.

E se for pelo lusco-fusco como em 1983, com os faróis do carro já devidamente ligados, então nem se fala...

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO (Adartico Vudafieri/1983) FOI OBTIDA EM:
- http://motorcanalsbalil.no-ip.info/displayimage.php?pid=27867&fullsize=1

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