quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

P.E.C. Nº 240: O que são reconhecimentos ilegais?


Qualquer desporto tem zonas nebulosas.

Todas as atividades que envolvem a noção de competição possuem matérias proibidas, às quais os respetivos intervenientes se furtam, na medida do possível, a abordar publicamente. 

Nos Ralis faz curso há muito tempo um enorme manto de silêncio em torno dos reconhecimentos.

Histórias reais à volta de pilotos e navegadores procurando de fintar regulamentos nesta matéria são conhecidas, circulando entre todos os que diretamente estão envolvidos no automobilismo. 

Pelo facto da modalidade se disputar em estradas normalmente abertas ao trânsito, não é fácil um controle apertado sobre o número de passagens que cada concorrente faz nos trajetos, que depois, em prova, cumprirá no carro de competição. 

Policiar cinquenta quilómetros de troços durante duas ou três semanas antes de cada Rali é impossível. 

Apostar em promover as populações onde as especiais se disputam à condição de delatoras é um caminho perigoso e carregado de espinhos. 

As dificuldades em sindicar com rigor o trabalho de casa (neste caso, de carro) que os pilotos e copilotos fazem, são portanto o primeiro incentivo a que prevariquem, dentro de uma lógica de que aqui o crime dificilmente não deixa de compensar. 

Antes mesmo do figurino de um Rali ser tornado público, é sabido haver em muitas ocasiões um afluxo de tráfego às estradas onde se irá desenrolar que faz lembrar o IC19 em hora de ponta. 

Em Portugal os Ralis são um mundo muito pequeno. 

Todos os intervenientes (jornalistas, organizadores e concorrentes) se conhecem e contactam entre si. 

A informação passa rápido e em circuito fechado. 

É quase regra não escrita previamente à apresentação de uma dada prova já ser conhecido que troços a mesma terá. 

Ao efeito novidade, aliás, nada ajuda em anos mais recentes alguns dos eventos do campeonato nacional sucessivamente repetirem-se. 

A regra das duas passagens (uma para reconhecer a classificativa, a outra para confirmar as notas tiradas) em dia designado para o efeito, da qual, refira-se, praticamente ninguém contesta em abstrato as respetivas virtudes, é atualmente quase letra-morta, num ciclo vicioso que se agrava à medida que vamos caminhando para concorrentes (alguns, nem todos) com mais meios à disposição, mais tempo para dedicar à modalidade, e mais verbas investidas na competição. 

Há quem defenda que na impossibilidade de controlar o número de passagens clandestinas que diversos pilotos fazem nos troços antes da prova, para não inquinar a letra de uma lei que muitos não cumprem seria preferível liberalizá-las por completo. 

Discordamos em absoluto de tal ponto de vista. 

Ainda acreditamos que quando um troço nasce é igual para todos, e que pilotos e copilotos, profissionais ou amadores, na mais potente máquina ou no mais rudimentar automóvel, são olhados da mesma forma perante os regulamentos. 

A liberalização desregrada seria desequilibrar ainda mais o que já é muitas vezes desigual por natureza, favorecendo as estruturas mais profissionais em detrimento das mais amadoras, oferecendo mais oportunidades a quem simplesmente dispõe de mais tempo e dinheiro para treinar e preparar um Rali ao pormenor. 

Seria o caminho para tornar a modalidade ainda mais onerosa, quando ela talvez necessite é de medidas draconianas. 

Abriria margem para guiar de forma científica pela memorização da estrada, quando o núcleo da modalidade está centrado no improviso da condução. 

E potenciaria talvez até alguma animosidade nas populações residentes dos locais atravessados pelas classificativas, pelo desassossego de carros a passar sem fim. 

Não será esse o caminho a trilhar, julgamos. 

Definir em concreto o que são reconhecimentos ilegais é hoje, aliás, algo que assenta em questões subjetivas, logo complexas de adotar à letra da lei. 

A realidade como se prepara uma prova é hoje insofismavelmente distinta daquilo que se verificava há dez anos atrás. 

Onde antes havia o reconhecimento puro e duro do terreno, com a observação de piloto e copiloto das vicissitudes da classificativa ao pormenor e subsequente tomada de apontamentos para o caderno de notas, hoje há todo um admirável mundo novo que vai da filmagem do troço no carro de reconhecimentos para posterior escalpelização ao pormenor no computador (asseguram-nos haver software que permite transpor tais imagens em simulador, 'acelerando-as' para se adequar quase na perfeição às caraterísticas e velocidade do carro de competição, num ambiente muito próximo daquilo que o piloto vai encontrar depois em prova), até ao recurso a aplicações informáticas como o google street view que permite visionar com particular nitidez tantas vezes quantas as necessárias, sobretudo nos troços de asfalto, até a mais matreira pedra escondida na berma da estrada. 

A dupla passagem pelo troço em conformidade com as regras de trânsito (sobretudo no que respeita aos limites de velocidade máxima) está hoje, como se percebe, esbatida pelo trabalho virtual ao qual a norma regulamentar não chega. 

Adequar este novo contexto padronizando-o para todos os pilotos em todos os Ralis é impossível, sobretudo num domínio que coloca questões não só no plano da regra mas também a nível de legitimidade e licitude. 

Será legítimo o piloto ‘x’ muito antes de um Rali ir para a estrada contactar a entidade organizativa, pressionando um desenho de troços mais de acordo com as características do seu bólide? 

À luz do edifício regulamentar, é lícito ao piloto ‘y’ e ao copiloto ‘k’ cumprir duas passagens em reconhecimentos, mas socorrerem-se de outro piloto e navegador, não inscritos na prova, para, antes ou depois, percorrer uma infinidade de vezes o mesmo percurso? 

Como enquadrar a pintura de troncos de árvores ou de pedregulhos na berma do troço, ou marcações com tinta no asfalto de que alguns pilotos se socorrem para, por exemplo, identificar pontos de travagem? 

Estes são, entre outros, desafios complexos que se colocam à modalidade e para os quais é difícil resposta.

Será difícil (impossível talvez seja a palavra mais correta) erradicar por completo comportamentos nas franjas da lei, nivelando por igual a todos os concorrentes o (re)conhecimento dos terrenos que depois pisam já em refrega contra o cronómetro. 

Os mandamentos do desporto, asseguram os céticos, estarão em causa quando à partida as condições de participação não são exatamente as mesmas para todos os concorrentes.

Mas no fundo, quanto aos reconhecimentos, a história deste desporto não foi sempre assim?...

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.acorianooriental.pt/files/multimedia/audio_video/35_videos_ao_online/7923.jpg

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