sexta-feira, 29 de março de 2013

P.E.C. Nº 193: Repastos a... 100 à hora!...


Ralis e gastronomia são dossiês já abertos anteriormente neste blogue. 

Na P.E.C. Nº 28, sob a supervisão de Miguel Borges, Luís Lisboa e Fernando Prata, elencámos alguns templos da boa cozinha feita em Portugal. 

Nas P.E.C. Nº 168 e 169, ‘confecionámos’ ligações visuais entre carros de Ralis e duas ‘oficinas de degustação’ (uma delas entretanto encerrada) capazes de reparar estômagos ao mais exigente dos comensais. 

Noutro campo (como veremos com ligações às duas causas em apreço), na P.E.C. Nº 184 desenvolvemos algumas linhas em torno do saudoso ‘Clube 100 à Hora’ e da sua realização mais emblemática: a não menos inesquecível ‘Volta a Portugal’ para Ralis. 

Na fotografia que abre o presente trabalho simboliza-se, de forma julgamos bem vincada, a improvável simbiose entre o clube lisboeta e estabelecimentos de pendor culinário. 

Da imagem em questão (a nosso ver deveras bonita) avultam três notas:

- A forma como um clube vocacionado antes de mais para organizar provas de Ralis, conseguia, enquanto existiu, transpor o seu prestígio muito além da sua zona de origem (Lisboa), a ponto de emprestar o seu símbolo a um estabelecimento situado na denominada província, numa cidade que dista mais de uma centena de quilómetros da capital do país. 

- O facto do ‘Clube 100 à hora’ ter conseguido, no período áureo, influenciar e acercar-se de atividades (no caso, a restauração) que nada tinham de conexão com o seu núcleo de ação e influência (o desporto automóvel), algo que só tem à escala paralelo com o Automóvel Club de Portugal (sendo certo que o ACP tem há muito tempo uma dimensão nacional, abrangendo uma multiplicidade de áreas pelos quatro cantos do país)

- A curiosidade de uma pequena empresa de restauração, com sede numa localidade com algum movimento mas sem um expressivo número de residentes, ter no passado encarado o improvável  'Clube 100 à Hora’ como um relevante veículo promocional para a arte (a da boa mesa) por si desenvolvida.



P.E.C. Nº 192: Fato, botas, luvas, balaclava, capacete, escafandro...

Se Júlio Verne tivesse escrito sobre Ralis, encontraria na especial de Figueiró de Vinhos (versão de asfalto) seguramente um ótimo polo inspirador. 

A antiga classificativa do Rali de Portugal (1984/1994) é, na sua imponência, um dos tesouros mais bem guardados do espólio de troços em asfalto que este país já conheceu. 

Há ali algo de irreal. 

Alguns excertos daqueles mais de vinte quilómetros pertencem ao domínio do fantástico, com a natureza em bruto a vencer aos pontos o mais imaginativo dos produtores cinematográficos. 

Tudo começa(va) junto ao IC3 (ligação Tomar-Coimbra) para terminar já nas imediações da vila que empresta nome à especial

No entanto, mais que nos quilómetros iniciais e/ou finais, reside no miolo, designadamente em todo o segmento que vai acompanhando vários dos múltiplos braços de água da Barragem de Castelo de Bode, a singularidade desta classificativa. 

As palavras são redutoras para descrever, após a fase inicial a subir caraterizada por sequências de ‘esses' rápidos (onde as televisões tinham um ponto de referência para filmar a prova), aquilo que se segue.

Após um cruzamento à direita, começa-se, numa descida a bom descer e em estrada estreitíssima, a submergir pelas entranhas de um vale profundo (a tal ideia Verneana que reclamámos no início deste texto) naquilo que parece em tudo uma verdadeira viagem ao centro da terra

Entra-se, sem que o adivinhássemos, numa dimensão diferente. 

Agora o sol brilha menos e tudo se torna estranhamente silencioso. 

Há ali a natural mescla de opostos: a insegurança gerada pelo que não se domina, em simultâneo com o fascínio exercido pelo que não se conhece. 

Custa-nos imaginar o que é fazer essa descida, incrivelmente rápida, dentro de um carro de Ralis com a preocupação de andar no limite. 

Diz a lenda que em Portugal apenas Adruzilo Lopes fazia aquilo a fundo (ou perto disso), mas provavelmente havia outros que se lhe juntassem nesse estranho exercício de fechar para obras a mais básica noção de prudência. 

Depois da referida descida, e já que estamos em fase de alusões literárias, eis que se nos depara um admirável mundo novo

Entra-se agora numa fase de quilómetros a fio (parecem intermináveis), em que a ladear o asfalto da classificativa estão quase permanentemente ravinas a pique com dezenas de metros

O elemento água faz-se agora sentir. 

Na calmaria do leito do Zêzere repousa, matreiro, um perigo iminente para qualquer carro que se despiste: águas escuras das quais não se conhece sequer o nível de profundidade. 



São, como referimos, muitos quilómetros em que é difícil a piloto e navegador abstrair-se mentalmente do abismo que está ali, a centímetros do lado direito do automóvel. 

A par dos concorrentes, o medo e o receio não podem deixar de ir também à boleia e a alta-velocidade dentro daqueles bólides. 

Se os mais tormentosos demónios fizessem Ralis, escolheriam certamente Figueiró como troço preferido para competir. 

Por muitos exercícios de imaginação que possamos fazer, é-nos extraordinariamente difícil interiorizar como é que se podia andar com os monstros de grupo B (as feras indomáveis cuja potência muitos diziam ser incontrolável) naquelas estradas à noite, como sucedeu entre 1984 e 1986. 

Só um transcendente estoicismo mental pode justificar a forma como os concorrentes ao Rali de Portugal abordaram Figueiró dos Vinhos em anos, como por exemplo 1990, onde a chuva fez a sua aparição e o asfalto se apresentou tremendamente traiçoeiro. 

A história visual desta especial ficará para sempre ligada ao acidente de dinâmica apocalíptica que as britânicas Louise Aitken-Walker e Christina Thorner protagonizaram na edição do Rali de Portugal, disputada no citado ano de 1990 (o preciso local da saída de estrada encontra-se identificado na infografia da classificativa publicada neste trabalho)

Aquele duplo mortal carpado (ou coisa que o valha) que o Opel Kadett com o n.º 18 estampado nas portas protagonizou é uma imagem fiel dos perigos (e paradoxalmente dos encantos) que Figueiró encerra. 

Felizmente o salto sincronizado entre Walker e Thorner para a água não se saldou em mais que um gigantesco susto, sendo porém de salientar a frieza que ambas deram mostras ao estar submersas em água (após uma violenta queda de dezenas de metros), e ainda assim terem tido a capacidade de desprender cintos de segurança, abrir as portas do Kadett, e deixar-se vir à tona. 

É raro, mas há troços assim: além do indispensável requisito de conduzir bem e depressa, convém rodar neles tendo também algumas indispensáveis noções de mergulho e natação…


Ano: 1984
Data: 7 de março.
Designação: Figueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente: 23h:11m.
Extensão: 20,50 quilómetros.
Vencedores:
- Piloto(s): Massimo Biasion.
- Navegador(es): Tiziano Siviero.
- Carro(s): Lancia 037 Rally evo.
Tempo realizado: 12m:59s.
Média horária: 94,74 kms/h.

Ano1985
Data6 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente23h:08m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Massimo Biasion.
Navegador(es)Tiziano Siviero.
Carro(s)Lancia 037 Rally.
Tempo realizado12m:49s.
Média horária95,97 kms/h.

Ano1986
Data5 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente23h:08m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Joaquim Moutinho.
Navegador(es)Edgar Fortes.
Carro(s)Renault 5 Turbo.
Tempo realizado14m:33s.
Média horária84,54 kms/h.

Ano1987
Data11 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente17h:32m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Markku Alén.
Navegador(es)Ilkka Kivimaki.
Carro(s)Lancia Delta HF 4 WD.
Tempo realizado13m:14s.
Média horária92,95 kms/h.

Ano1988
Data2 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente14h:36m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Didier Auriol.
Navegador(es)Bernard Occelli.
Carro(s)Ford Sierra RS Cosworth.
Tempo realizado12m:59s.
Média horária94,74 kms/h.

Ano1989
Data1 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente13h:36m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Didier Auriol.
Navegador(es)Bernard Occelli.
Carro(s)Lancia Delta Integrale.
Tempo realizado12m:58s.
Média horária94,86 kms/h.

Ano1990
Data7 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente13h:43m.
Extensão20,51 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Ari Vatanen.
Navegador(es)Bruno Berglund.
Carro(s)Mitsubishi Galant VR-4.
Tempo realizado13m:47s.
Média horária89,28 kms/h.

Ano1991
Data6 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente13h:39m.
Extensão20,50 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)Markku Alén.
Navegador(es)Ilkka Kivimaki.
Carro(s)Subaru Legacy RS.
Tempo realizado13m:12s.
Média horária93,18 kms/h.

Ano1992
Data4 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente12h:05m.
Extensão20,40 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)François Delecour.
Navegador(es)Daniel Grataloup.
Carro(s)Ford Sierra Cosworth 4x4.
Tempo realizado12m:17s.
Média horária99,65 kms/h.

Ano1993
Data3 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente12h:08m.
Extensão20,45 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s): Carlos Sainz e François Delecour.
Navegador(es)Luís Moya e Daniel Grataloup.
Carro(s)Lancia Delta HF Integrale e Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado12m:20s.
Média horária99,49 kms/h.

Ano1994
Data1 de março.
DesignaçãoFigueiró dos Vinhos.
Horário de partida do primeiro concorrente12h:15m.
Extensão20,53 quilómetros.
Vencedores:
Piloto(s)François Delecour.
Navegador(es)Daniel Grataloup.
Carro(s)Ford Escort RS Cosworth.
Tempo realizado12m:29s.
Média horária98,68 kms/h.



Ver FIGUEIRÓ DOS VINHOS, 1990 num mapa maior


AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2275.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-1015.htm
http://www.corsasport.co.uk/board/viewthread.php?tid=455991

quinta-feira, 21 de março de 2013

P.E.C. Nº 191: Os símbolos e a identidade do Rali de Portugal


Qualquer acontecimento perpetua-se no tempo através dos factos que produz, das imagens que mais o notabilizam, ou das conversas que giram em torno de si. 

Mas a sua identidade também se afirma em larga medida pelos símbolos que lhes estão associados, questão tão importante quanto tantas vezes esquecida dentro da voragem imediatista de um qualquer vídeo publicado no youtube ou uma fotografia colocada no facebook

Ao abordar-se o Rali de Portugal assalta-nos a memória momentos como os grandes duelos épicos à procura de uma vitória em diversas edições da prova. 

Processamos na nossa cabeça de imediato, também, entre outras a condução carregada de efeitos pirotécnicos de Toivonen ou Vatanen, ou o pingue-pongue permanente entre as bermas da classificativa que imortalizou Colin McRae

Flashes mentais a remeter-nos para o cruzamento da Pena, o salto da Pedra Sentada ou o Confurco fazem parte do código de memórias de qualquer aficionado digno desse nome. 

O público (o grande público, por exemplo, para não ir mais longe, do WRC Fafe Rally Sprint/2012 ou das saudosas noites de Arganil de tempos já longínquos, ou o irresponsável público dos anos oitenta, na trilogia das especiais de Sintra mas não só) é, no melhor e no pior, outra das facetas indissociáveis do acervo histórico da prova. 

Como a bandeira ou o hino de um qualquer país, o Rali de Portugal também se foi expressando aos olhos do mundo pelos símbolos que lhes estão indexados desde 1967

Cartazes, posters, autocolantes, placards, ou guias da prova, são, entre outros, testemunhos vivos de um certo caráter do evento, dando-nos documentalmente conta de como a sua projeção e estratégia comunicacional, implícita e/ou explícita, foi evoluindo nestes 46 anos de existência. 

Deambulando sem grande critério pela internet, deparámo-nos com uma série de belíssimos documentos que agora publicamos neste trabalho, ilustrativos da maneira como o Rali de Portugal foi acompanhando os sinais do tempo

A estética magnífica que em nossa opinião se pode associar à simbologia que abaixo partilhamos com os nossos visitantes, passa incólume as agruras do tempo mantendo-se atual e bastante apelativa. 

Cada poster ou cartaz, com as suas combinações de cores vivas (sem nunca cair no berrante exagerado), com os seus traços mais profundos ou menos carregados, contem implicitamente a sedução que a prova exerceu a cada uma das suas edições ao público e aos seus concorrentes. 

São pedaços de história diferentes, algo contemplativos, produto de ilustrações e desenhos excecionalmente belos. 

Uns ‘rabiscos' feitos com sublime arte podem, como procuramos demonstrar, ser afinal para o nosso Rali instrumento de promoção tão poderoso como a mais monumental das atravessadelas de um qualquer Latvala.

















OS DOCUMENTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDOS EM:
- http://staticclub.caradisiac.com/1/voiture-ancienne/auto-divers/photo/449757449/27102462be/auto-divers-1982-finish-award-img.jpg
- http://staticclub.caradisiac.com/1/voiture-ancienne/auto-divers/photo/449757449/27102451b7/auto-divers-finish-award-img.jpg
- http://staticclub.caradisiac.com/1/voiture-exception/ge9001/photo/hd/8901141890/28335515df/ge9001-posters-vp_1-big.jpg
- http://staticclub.caradisiac.com/1/voiture-exception/ge9001/photo/8901141890/2829495300/ge9001-ge9001posters-img.jpg
- http://1.bp.blogspot.com/_oKPRrlJAWBw/SQD-kVq5ymI/AAAAAAAABZg/j6CaBmXorG8/s400/Rally
_de_Integra%C3%A7%C3%A3o_Nacional_1.jpg
- http://www.parquecidades-eim.pt/imagens-publicas/wrc-2009.jpg
- http://portugal.portalclassicos.com/uploads/gallery/album_11/gallery_2_11_5127.jpg
- http://portugal.portalclassicos.com/uploads/gallery/album_11/gallery_2_11_31807.jpg
- http://rallydeportugalspecial.files.wordpress.com/2013/03/rally-portugal-poster.jpg
- http://rallydeportugalspecial.files.wordpress.com/2011/11/rally_guide1-capa.jpg?w=460&h=650
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-175.htm
- http://4.bp.blogspot.com/-yQfA1RFS_Lw/UP3QwHNUsFI/AAAAAAAACqU/6kmw
QonOvew/s1600/Peugeot%2B205%2BT16%2B-%2B1986%2BRally%2BPortugal%2BSalonen.jpg
- http://www.bmwmadeira.org/galeria/d/11864-1/BMW200205.jpg
- http://lh3.ggpht.com/_IYJi-lhses0/TY2yfKMBNkI/AAAAAAAAGOw/a6mfZHYlfD4/1975-Rallye-de-Portugal_thumb.jpg?imgmax=800
- http://www.bmwmadeira.org/galeria/d/11786-1/DSC03536.jpg
- http://lh6.ggpht.com/_IYJi-lhses0/TY2ybub2OYI/AAAAAAAAGOQ/1COHwagZSRk/1972-Rallye-de-Portugal_thumb5.jpg?imgmax=800
- http://fotos.sapo.pt/KwZ7HrH5onhMoT6lWz9A/500x500

terça-feira, 19 de março de 2013

P.E.C. Nº 190: Quando «Zona-Espectáculo» aborda a temática... Zonas-Espetáculo!



É cíclico. 

A cada ano, quando se está a pouco mais de três semanas do início do Rali de Portugal, nós, «Zona-Espectáculo», vamos sendo progressivamente invadidos por um estranho torpor. 

Os dias até à prova custam (ainda mais) a passar. 

A procura de informação sobre o evento torna-se mais intensa, quase como se de uma necessidade vital se tratasse. 

Os filmes e as fotos relativos a edições anteriores do Rali ganham ainda mais brilho e significado. 

Intensifica-se a nostalgia de tempos que já não voltam, na inversa medida em que aumenta a satisfação pelos tempos que já aí estão. 

Em rigor é assim há quase uma trintena de anos, desde que começamos a cultivar o gosto por este desporto. 

Tudo o que referimos acaba-se por traduzir, relativamente a nós e, confiamos, à esmagadora maioria dos aficionados pela modalidade, numa expressão muito simples: entrámos em modo Rali. 

Alguns dos próximos trabalhos a publicar neste espaço ir-se-ão, então, necessariamente debruçar sobre o evento. 

Dentro desse plano de ação, detemo-nos na presente P.E.C. sobre os locais que a organização do Rali de Portugal selecionou como Zonas-Espetáculo para a edição de 2013

Vários deles, bem conhecidos (vd. P.E.C. Nº 71 deste blogue), são altamente recomendáveis para quem gosta de seguir os carros em ação durante segundos a fio num encadeado de curvas, ou aprecie particularmente a arte de ver os melhores pilotos do mundo a desenhar um apertado gancho na perfeição

Para quem o ambiente (que só uma multidão de entusiastas ao rubro pode proporcionar) é um fator indissociável de presença na prova, será preferencialmente nestes locais que se pode encontrar o tal espírito Rali que fez (e faz) a lenda dos adeptos portugueses no mundo inteiro

Há naturalmente outros locais muitíssimo interessantes para seguir o Rali, embora menos dotados de acessibilidades e sem o calor humano que estas Zonas-Espetáculo podem proporcionar. 

Esperamos, pois, que ao caro visitante possam ser úteis as imagens que de seguida se publicam como forma de preparar convenientemente a sua deslocação às classificativas traçadas no Algarve e Baixo Alentejo. 

Mais informação sobre a 47.ª edição do Rali de Portugal poderá ser encontrada nas P.E.C. NºS 173 e 182 deste blogue

Bom Rali!

 QUALIFYING STAGE 




   MÚ  






 OURIQUE 



 SANTANA DA SERRA 




 VASCÃO 





 LOULÉ 




 SILVES 




 ALMODÔVAR 








A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.ewrc.cz/ewrc/image_browse.php?id=9607


segunda-feira, 18 de março de 2013

P.E.C. Nº 189: Alén que se faz tarde!


Em quarenta e seis anos de intensa história, o Rali de Portugal ofereceu ao mundo algumas das mais marcantes páginas que a modalidade conheceu. 

Momentos como a superação de Rohrl em Arganil por alturas de 1980 (algo de transcendente e inexplicável à luz da razoabilidade humana), os duelos intensos ocorridos entre Alén e Mikkola na noite de Sintra em 1978, entre Sainz e Kankkunen em 1995, o mesmo Sainz e McRae em 1998, ou  entre Ogier e Loeb em 2010, fazem parte do panteão de memórias que este desporto imortalizou para sempre. 

Como em quase tudo há, num percurso de quase meio século, o reverso da medalha. 

Factos trágicos como os que ocorreram na Lagoa Azul em 1986 (a manhã em que desabaria com estrondo um ciclo inesquecível no mundial de Ralis), no Marão em 1987, ou na Lousã em 1989, com perda de vidas humanas a lamentar, recordam-nos uma faceta menos positiva do evento, não obstante este se ter sabido regenerar com o tempo a ponto de ser visto hoje à escala global como um exemplo em termos de segurança

No enorme leque de peripécias que reforçam a lenda associada ao Rali de Portugal, outra das mais belas passagens centra-se na edição disputada em 1981

Em plena classificativa da Peninha (a 4.ª da prova) e prenhe do desejo de triunfar pela quarta vez no nosso país, Markku Alén, como o fez em tantas e tantas ocasiões na sua carreira, conduz depositando toda a determinação no pedal direito do Fiat 131 Abarth. 

O público segue em clima de verdadeira apoteose (também) a prestação do nórdico. 

Já ao tempo era publicamente assumida a relação especial que o piloto finlandês mantinha com os aficionados portugueses, um enlace algo contranatura mas que talvez por isso mesmo se mostrou inquebrantável com o passar dos anos. 

Algumas curvas antes do famoso salto da Peninha, as estreitas estradas da Serra de Sintra pregariam uma verdadeira partida ao hoje penta-vencedor do Rali. 

Um pequeno excesso foi o suficiente para numa fração de segundo o bólide italiano bater com alguma violência num muro de pedra, arrancando de imediato a roda da frente do lado direito. 

Onde muitos veriam um percalço insolúvel a forçar uma prematura desistência, Alén, pelo seu estatuto na prova, pelo imaculado sentido de profissionalismo, quem sabe até pela gratidão devida aos adeptos deste país pelo apoio incondicional que sempre lhe reservaram, recusava terminantemente capitular perante o infortúnio. 

Arrastando o Fiat até final do troço, onde desde logo perderia muito tempo para os vencedores da classificativa (Ari e Henri) e, claro está, para a liderança do Rali (Hannu Mikkola), o desalentado Markku lá conseguiu chegar até à sua equipa de mecânicos para procurar remediar aquilo que aparentemente não tinha solução. 

E é aqui que nos centramos na foto que abre o presente trabalho, sobretudo na simbologia que a mesma encerra. 

A expressão ansiosa (diríamos, tão ‘portuguesmente’ ansiosa) de Alén olhando atentamente os danos da sua viatura, subtil e inteligentemente disfarçada através da mão firme no ombro direito do seu mecânico, transmitindo-lhe um poderosíssimo tónico de confiança para levar a bom porto o trabalho de reparação do 131

Dos registos relativos ao Rali de Portugal de 1981 rezam as crónicas que o piloto da Fiat prosseguiria em prova, determinado a recuperar o tempo perdido. 

Na passagem pelas dificílimas especiais de Arganil produziria uma exibição de luxo (Arganil é isso mesmo: o palco no qual a elite dos pilotos de Ralis sempre fez a diferença recusando quaisquer concessões à banalidade), reforçando a liderança do evento conseguida na zona de Lamego para não mais a largar, tarefa, diga-se, especialmente facilitada após os abandonos de Mikkola e Vatanen

Do apoteótico triunfo na 15.ª edição do Rali de Portugal (a sua quarta vitória no nosso país), muitos, quase todos, recordarão o andamento extraordinário do mago finlandês ao longo de toda a prova. 



Na memória coletiva fica a remontada improvável e espetacular que Markku encetou a partir de Sintra

Da frieza das estatísticas pode-se reter o triunfo do piloto da Fiat em dez das quarenta e seis classificativas que compunham o evento. 

Mas considerável fatia deste êxito talvez esteja simbolicamente naquela mão determinada de Alén no ombro do mecânico, reveladora das capacidades de liderança e espírito de equipa do finlandês, (literalmente) o toque de midas sem o qual o triunfo de 1981 seguramente não seria mais que uma mera quimera. 

Sobre esta sequência de acontecimentos muito tempo passou entretanto. 

Do ‘insignificante’ pedaço de borracha e aço que a 4 de março de 1981 decidiu cortar o cordão umbilical com o eixo dianteiro do carro tripulado por Alén e Kivimaki, naturalmente nada se soube durante décadas. 

A lógica ditaria que tais detritos tivessem tido como destino uma recôndita sucata, ou uma qualquer máquina de reciclagem. 

Que, no limite, tivessem ficado perdidos para todo o sempre num recanto escondido da Serra de Sintra. 

Porém, a devoção voraz que os adeptos portugueses mantêm com o melhor Rali do mundo não permite que a lógica funcione… logicamente. 

Não pode haver o mínimo de racionalidade quando o clima entre o evento e os seus fiéis é de enamoramento total. 

Hoje sabe-se que o fotógrafo Jorge Cunha, em 1981 presente no local e autor da bela imagem relativa ao acidente que hoje circula mundo, guardou religiosamente o pneu, a jante, o disco de travão, e o que restou do braço de suspensão do 131 Abarth. 

Sabe-se também que esses componentes seriam posteriormente transacionados movimentando-se maquias consideráveis em torno dum objeto conjunto que o passar do tempo elevaria à condição de culto

O destino promoveria que passados quase vinte e seis anos sobre um episódio que se julgava mais ou menos esquecido, se desse o reencontro entre Alén (na ocasião, nos primeiros dias de janeiro de 2007, de visita a Portugal para participar no Lisboa/Dakar) e as peças do seu Fiat, episódio documentado nas imagens que abaixo publicamos. 

O momento seria necessariamente um concentrado de recordações. 

Do filme transparece, aliás, a carga emotiva que o feliz proprietário das peças em causa e o próprio Markku não escondem.

O extraordinário piloto finlandês faria na ocasião o certificado de autenticidade do material em apreço.

Com o seu inglês inconfundível e cheio de pronúncia, somado à voz cinematográfica que lhe é caraterística, não deixou de evocar Robbie (sobretudo este) e Anthony, os mecânicos que um quarto de século antes tão decisivos foram ao transformar uma derrota anunciada numa vitória que se julgava impossível.

Tal facto, abonatório do enorme caráter de um dos maiores intérpretes do volante que esta modalidade conheceu, vem de forma sempre oportuna relembrar que nem só de pilotos e navegadores vivem as estatísticas de Ralis, e que Alén deles há todo um somatório de empenhos e competências que muitas vezes são decisivos na construção de uma vitória ou de um título.






AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://m43modelismo.blogs.sapo.pt/arquivo/rally%20portugal%201981%20carro.jpg
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2205.htm
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2065.htm