P.E.C. Nº 242: CNR/2014. No meio (não) está a virtude...


No verão de 2012, em tom coloquial um antigo campeão nacional de Ralis confidenciou-nos mais ou menos as seguintes palavras: «quando for para lutar ao segundo, entre outros, com o Peres, o Adruzilo, o Pascoal, o Campos, eventualmente o Madeira, o Bruno, o Moura, ou o Bernardo, sou, quem sabe, capaz de voltar, desde que os custos de participação sejam razoáveis e de acordo com este tempo que vivemos»

Passou entretanto ano e meio. 

Os custos de participação para quem pretenda realizar o C.N.R em patamares de competitividade continuam «a não ser razoáveis, nem minimamente de acordo com o tempo que vivemos». 

alguns dias atrás a F.P.A.K fez anunciar as linhas mestras que regerão em 2014 a competição maior dos Ralis em Portugal. 

O número de etapas do campeonato passa de cinco para oito, ao incluir os especialmente onerosos Ralis dos Açores, da Madeira, e de Portugal. 

Dir-se-á em defesa do modelo preconizado para a temporada já em curso, que ‘apenas’ o somatório dos seis melhores resultados de cada piloto contarão para as contas finais do campeonato. 

Porém, soube-se com surpresa, haverá uma majoração pontual (cinco pontos) a premiar a presença em cada prova 'adicional', o que obviamente desequilibrará os pratos da balança a favor de quem possa disputar a totalidade das oito etapas do C.N.R. 

Por muitos jogos de palavras que se queiram realizar, disputar o campeonato nacional de Ralis passa a ser significativamente mais dispendioso. 

Os custos de participação estão, portanto, «cada vez mais longe de ser razoáveis». 

E de forma alguma «de acordo com este tempo que vivemos». 

Encontrar patrocínios para fazer Ralis em Portugal é tarefa árdua. 

Tradicionalmente sempre o foi. 

A predisposição para investir na modalidade só pode ser diminuta, quando se sabe que o retorno, por várias ordens de razão, é mais que duvidoso. 

Quando o bom senso recomendaria um esquema competitivo que privilegiasse uma forte contenção de custos a quem se dispõe a participar, o elenco federativo dá precisamente sinais opostos, mostrando-se absolutamente incapaz de estabelecer condições para atrair pilotos e equipas ao campeonato. 

Começa aqui um dos grandes problemas dos sucessivos responsáveis da F.P.A.K de há vários anos a esta parte. 

A entidade que gere os destinos do automobilismo português habituou-se a atribuir uma espécie de R.S.I às entidades organizativas, confiando-lhes um número de provas desfasado da realidade (agravar em 60% as etapas do C.N.R é o melhor exemplo disso mesmo), enquanto vai olhando para quem compete com a mesma voracidade com que o Ministério das Finanças encara o depauperado contribuinte português. 

Nunca tivemos da missão da F.P.A.K uma visão minimalista, segundo a qual ela se deva limitar a ser o garante dos interesses dos clubes seus associados. 

O estatuto de utilidade pública desportiva que lhe é reconhecido pelo Estado Português ‘obriga-a’ a criar condições favoráveis para a prática desportiva, promovendo (ou encontrando quem se substitua a si nessa função) a modalidade, atraindo novos valores para a competição, e procurando fidelizar quem já se encontra envolvido no campeonato nacional de Ralis. 

Nada disso está a ser feito. 

Entre fortes críticas ao modelo preconizado para o campeonato nacional de 2014 e, pior, avisos muito concretos de não participação, a temporada inicia-se sob o reino da indefinição quando, por esta altura, as energias deviam estar centradas na divulgação dos projetos desportivos que iremos ver evoluir já no próximo mês de fevereiro no Rali Serras de Fafe

A entrada em cena de Manuel Mello Breyner e Joaquim Capelo enquanto os mais altos dignatários da modalidade no nosso país começou, aliás, mal. 

A ideia de rotatividade de provas merece-nos em abstrato simpatia, se a ela estiver associado o princípio de estimular um trabalho criterioso e abnegado dos organizadores para que não vejam as suas provas preteridas na época seguinte. 

Por conseguinte, no final de cada temporada devem ser afastados do C.N.R os Ralis cujas organizações tenham negligenciado aspetos nucleares do respetivo caderno de encargos. 

Para 2014, será o Rali Casinos do Algarve, prova com fortes raízes no calendário do campeonato nacional, que sairá do calendário para dar lugar a Rali a disputar na região da Beira Baixa, sob a égide da Escuderia Castelo Branco

É nossa convicção que na cidade beirã se trabalha muito e bem em matéria de automobilismo, pelo que este voto de confiança na sua prova de estrada é bem-vindo e justificado. 

No entanto, daquilo que fomos lendo e ouvindo logo que se soube publicamente desta tomada de decisão, o tom de críticas engrossou porque praticamente ninguém compreendeu a razão de ciência da exclusão do evento levado para a estrada pelo Clube Automóvel do Algarve, logo ele que em 2013 fez um trabalho notável na promoção do evento e é tido pela esmagadora maioria dos concorrentes como um dos Ralis melhor organizados de todo o calendário nacional. 

Até hoje, data em que redigimos estas linhas, não se alcança em que aspetos em concreto falhou clamorosamente o organizador da derradeira etapa do campeonato de 2013 para não lhe ser confiada, de novo, a missão de colocar na estrada um Rali pontuável para o campeonato de 2014. 

Pior: as semanas passam, e a F.P.A.K aparentemente não se sente na necessidade de dar explicações para o efeito. 

Esta polémica, quando eclodiu, foi habilmente estancada ao lançar-se de imediato para a opinião pública um fator de novidade (0,5 pontos adicionais pela vitória em cada classificativa) que em abstrato é interessante e pode levar para a estrada mais espetacularidade, na medida em que secundariza a gestão em detrimento da rapidez pura e dura

A não ser num cenário em que um piloto possua um automóvel manifestamente mais performante que os dos seus rivais, e por isso lhe seja fácil, sem forçar, vencer troços, este é um ponto positivo e inovador que merece ser realçado

Outra matéria que nos gera alguma perplexidade é a F.P.A.K sentir-se tentada a fazer recomendações sobre o (elevado) valor de inscrição para os Ralis do C.N.R

Quando seria suposto as regras do mercado funcionarem e as verbas de admissão a cada prova serem o exato ponto de interceção entre aquilo que cada organizador cobra para ter o máximo de inscritos possível (e o evento pagar-se pelo menos a si próprio), e o que os concorrentes estão dispostos a pagar para competir, a entidade máxima do desporto automóvel decide intervir ‘tabelando’ de forma uniforme um valor mínimo em todas as etapas do campeonato

O cenário não é difícil desde já antecipar: os clubes, escudados na recomendação em questão, praticarão a taxa de inscrição ‘sugerida’, sejam aqueles que não negligenciam a segurança, investem na promoção da sua prova e apostam em criar boas condições de trabalho a equipas e concorrentes, sejam os que eventualmente aligeirem questões nucleares no plano organizativo e venham a prestar um mau serviço global à modalidade. 

E aqui não consta que venha a haver reembolsos caso o 'cliente' (quem compete) reclame ou demonstre, com razão, que o produto que lhe foi vendido (e para o qual pagou previamente) não está de acordo com as suas expetativas ou com o que lhe foi prometido… 

Do plano de atividades da F.P.A.K para os Ralis na temporada já em curso, tem sido dado especial ênfase à denominada Sprint 2014 Master (porquê o invariável recurso a anglicismos para designar competições disputadas em Portugal?), que mais não é que a intenção de padronizar critérios e conferir dimensão competitiva aos Ralis Sprint, competições muito em voga e que vão recrudescendo por todo o país. 

O baixo custo para quem participa e para quem organiza tem sido o polo de atração deste tipo de provas nos últimos anos, mais liberais no que respeita à admissão de viaturas se comparadas com os Troféus Regionais, o antigo Open e o Campeonato Nacional, muito compactas, com pouca extensão de troços cronometrados, que se afirmam, em suma, pelos diminutos encargos para quem compete. 

Não achamos que os Ralis Sprint sejam por si só uma mudança de paradigma dos Ralis em Portugal. 

Antes de mais são uma decorrência ou, se quisermos, uma necessidade de remar contra campeonatos de expressão nacional caros, algo ‘elitistas’, e com pouca predisposição para acolher viaturas que não estejam de acordo com os cânones homologatórios mais recentes. 

No fundo, em sentido figurado, só joga com bola de trapos quem não tem dinheiro para a bola de catchu, mas ninguém seguramente prefere a primeira a esta última. 

Reside aqui, julgamos, a grande contradição do atual elenco federativo no que respeita à conceção que evidencia dos Ralis portugueses. 

Enquanto se testa uma competição de baixos custos, atribuindo-lhe até um caráter de verdadeiro campeonato para 2015, na franja oposta aumentam-se exponencialmente as verbas a despender para competir no Campeonato Nacional. 

Pensamos que no meio pode estar a virtude, e que o caminho a seguir passa a médio prazo pela redução dos custos de participação numa temporada completa, limitando-se as etapas do calendário a seis/sete provas por ano, todas em solo continental e apenas com um dia de duração na estrada, num total máximo de setenta/oitenta quilómetros cronometrados, fornecedor de combustível único, limitação do número de pneus por prova, recurso a viaturas do agrupamento de produção, categoria R3, ou GT’S niveladas em termos de performance para todo o tipo de terreno por sistema de pesos, e com mais abertura de admissão ao motor para maior competitividade (desde que tecnicamente viável e a não fazer disparar orçamentos), entre outras ideias a debater, com vista, lá está, a que «os custos de participação sejam razoáveis e de acordo com este tempo que vivemos». 

Repare-se que nem estamos a inventar nada de especialmente original. 

Se olharmos atentamente para uma realidade como a inglesa, tida por muitos como a pátria do automobilismo e onde inequivocamente existe mais dinheiro para a prática dos Ralis que no nosso país, verificamos que para 2014 haverá um campeonato com sete eventos (o Rali da Grã-Bretanha, pontuável para o mundial, pura e simplesmente não entra no calendário), em regra com o formato de um dia para verificações técnicas e outro para competir (à exceção do Rali da Ilha de Man, popularizado como Manx Rally, agora de regresso à mais importante competição britânica), um total de quilómetros em luta contra o cronómetro similar ao que se verifica em Portugal, e onde não entram nas contas do título carros onerosos como WRC’S, S2000, ou até mesmo os novos R5. 

A título de exemplo e para reforçar o que atrás desenvolvemos, dir-se-á para concluir que os últimos dois campeões britânicos de pilotos (Keith Cronin em 2012; Jukka Korhonen em 2013) foram-no ao volante dos Citroen DS3 R3T, precisamente o tipo de viaturas cá em Portugal depreciadas quando conduzidas em anos recentes por Ivo Nogueira, João Silva (retirados, esperamos temporariamente, do C.N.R), Paulo Neto, Armindo Neves ou Joaquim Bernardes, numa filosofia de competição que potencia talentos como o citado Cronin, Tom Cave, ou Elfyn Evans, todos à procura de projeção internacional. 

No dia em que o C.N.R afinar pelo mesmo diapasão, procurando trazer de volta quem esteve e já não está, fidelizando quem está ao apresentar-lhe bons motivos para continuar a estar, e atraindo quem não está mais gostaria de poder estar, a competição maior dos Ralis nacionais estará no bom caminho para voltar aos índices de popularidade de um passado já distante, com os nossos melhores valores a digladiarem-se ao segundo aproveitando todos os metros de classificativa, eventualmente com as marcas a envolver-se de novo na modalidade a título oficial.

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Notas finais:
- O presente trabalho não é um libelo acusatório contra as entidades/clubes que organizam Ralis em Portugal. O nosso respeito por quem investe as suas energias, tempo e dinheiro, contribuindo para que cada prova vá para a estrada, é total. Simplesmente entendemos que o espartano mercado de automobilismo do país não consegue justificar um número tão elevado de clubes a operar na modalidade. Acreditamos que a realidade caminhará num futuro próximo para um processo de fusões e cisões, culminando talvez em menos entidades organizadoras, mas dotadas de mais escala, mais influência e maior capacidade operacional.
- Em contraponto, também não nos parece que em matéria de C.N.R os pilotos sejam vítimas indefesas do atual contexto. A impressão que fica é uma enorme incapacidade de quem compete para preconizar alternativas à filosofia que a Federação tem vindo a colocar em prática há anos a esta parte. Sobra em críticas o que falta em ideias. Não há um projeto conjunto e estruturado, visando criar condições para a prática da modalidade a valores razoáveis a médio-prazo. As associações representativas dos pilotos têm pouca expressão e não falam a uma só voz. Se bem interpretamos a sensação geral que perpassa na opinião pública, desde que cada um deles se ‘safe’, pouco importa criar condições sustentáveis para que outros se ‘safem’ também…
- Sobre a propalada redução para 2014 dos valores para as licenças desportivas, taxas de inscrição nas provas, homologações e passaportes técnicos, não deixaremos de proferir opinião logo que tais medidas estejam implementadas na prática e medidos com clareza os seus efeitos.
- A legalização de carros de competição para, ainda que com nuances, circular na via pública, é uma ótima ideia caso consiga chegar a bom porto.

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.pirelli.com/mediaObject/pirellityre/pt/pt/extra-catalogue/motorsport/hp/
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