P.E.C. Nº 245: Centímetros Kubicos...


Nos últimos dez anos tem faltado alguma irreverência ao campeonato do mundo de Ralis. 

A que é feita a partir de dentro dos carros, com aquela condução raçuda e repleta de ‘nervo’ que nos habituámos a ver e admirar em nomes como Vatanen, McRae, Toivonen, Ragnotti ou Duez, e da qual o último grande baluarte terá sido Gigi Galli

E a que é fabricada por pilotos comunicativos e portadores de especial magnetismo, capazes de dizer e fazer coisas diferentes, com comportamentos aqui e ali fora dos cânones do politicamente correto, como foi até há alguns anos o caso de Petter Solberg

A última década trouxe uma tendência de padronização da modalidade. 

Guiar foi-se progressivamente tornando um ato quase científico, em que os carros evoluíram para pouca margem deixar ao improviso. 

Desequilibrar o carro na travagem ou atacar uma curva em vigoroso power slide, são conceitos que foram caindo em desuso em detrimento da condução direta, trajetórias suaves, e da menor contrabrecagem possível, quase como se de um circuito de velocidade se tratasse. 

Por outro lado, o longo reinado de Sébastien Loeb no WRC coincidiu com a entrada em cena de uma série de pilotos (além do próprio, também Hirvonen, Sordo, Latvala ou Ogier) de personalidade pouco expansiva, nada empolgantes no processo de transmitir ideias publicamente. 

Com um piloto e uma marca a dominar de forma insolente a modalidade, sem quaisquer pitadas de polémica a apimentar este período de dez anos, o campeonato do mundo de Ralis ressentiu-se com a perda progressiva de índices de popularidade. 

No inconsciente, a modalidade no seu expoente máximo anda, como qualquer outro desporto, à procura do seu herói improvável, alguém que rompa com algum cinzentismo que a tem vindo a toldar. 

Neste momento, quem está mais próximo de aceder a esse patamar será porventura Robert Kubica

Não deixa de ser contraditório que alguém apenas com uma temporada completa disputada no mundial de Ralis, recolha mais simpatias e atenção que alguns dos seus adversários com muitos anos de carreira. 

Do leque de explicações para que tal se verifique, a primeira encontrará eco desde logo na própria personalidade do piloto polaco ao serviço da Ford, sempre muito sincero, bastante terra-a-terra, claro e direto no pensamento e na forma de o expressar, recusando recorrer à mensagem ambígua e cifrada ou rejeitando os lugares-comuns que as assessorias de imprensa tão bem sabem urdir. 

Kubica comporta-se como qualquer um de nós. 

Daí que sendo em certo sentido um ‘dos nossos’, haja um número crescente de adeptos que cada vez mais se identifica com ele. 

Outro elemento a considerar é a determinação (diríamos, obstinação) de que tem vindo a dar mostras para debelar as limitações físicas decorrentes do seu acidente de 2011 (num paralelismo com muitos pontos em comum com Alessandro Zanardi), nunca esmorecendo nem se resignando ao fatalismo, que será outro dos aspetos a concitar profunda admiração a quem segue de perto o automobilismo. 

Por fim, o estilo de condução. 

A abordagem aos Ralis sem meio-termo e despida de calculismo. 

O querer ganhar, acrescentando algo à modalidade. 

As imagens de Robert em troço transparecem toda uma filosofia assente na noção de esticar a corda um pouco mais e mais, acreditando sempre que as leis da física a farão aguentar sem rebentar. 

No caso do carismático piloto polaco, por sinal a corda até tem a espaços rebentado

Com dois Ralis disputados com carros da categoria WRC em provas do mundial, o saldo está a descoberto aparecendo em extrato na parcela dos débitos… três aparatosas saídas de estrada. 

Para qualquer aspirante a fazer carreira ao mais alto nível, estaríamos perante um exemplo flagrante de falta de liquidez para fazer face às exigências da competição. 

Com Kubica tudo é diferente, uma vez que lhe são conhecidos créditos como o título de WRC2 logo no primeiro ano em que esteve envolvido no campeonato do mundo (sem concorrência de vulto, é certo, mas ainda assim ganhou deixando a pairar no ar o espetro de alguma surpresa), a participação, já em 2014, na prova de abertura do campeonato Europeu (Janner Rally), que ganhou de forma dramática ao transformar uma desvantagem de doze segundos à entrada da derradeira especial num bíblico triunfo com vinte segundos à melhor sobre o segundo classificado final, ou mais recentemente em Monte Carlo, quando venceu dois troços e liderou a prova, beneficiando, é certo, de um contexto favorável, mas ainda assim dando mostras de uma determinação férrea que é de aplaudir. 

É neste oito ou oitenta que Kubica respira. 

Competir sob conceitos analgésicos como ‘pretender antes de mais chegar ao fim’, ‘acumular quilómetros’, ou ‘o objetivo é sobretudo ganhar experiência’, é algo que o polaco sempre preteriu, mesmo nos seus anos de competição em monolugares, em detrimento de um bom ginseng feito de pé em baixo e ligeiros cheiros de travão

Robert tem as caraterísticas certas para se tornar muito (ou, sob outro ângulo de análise: ainda mais) popular à escala global: o cordeiro tímido fora do carro que se metamorfoseia num lobo predador logo que entra dentro dele, naquela bipolaridade que no passado gerou o fascínio ao redor de nomes como os citados Colin, Henri ou Ari

Ainda assim, neste balancear permanente entre momentos arrebatadores e saídas de estrada com o seu quê de comprometedoras, talvez seja importante, pelo menos para já, baixar as expetativas ao redor do piloto da M-Sport. 

Como referimos mais acima, é inegável que o campeonato do mundo de Ralis anda ‘desesperadamente’ à procura de um herói improvável, de um piloto que seja portador de especial carisma e galvanize, pela diferença, os aficionados em torno da modalidade, sobretudo os que por um conjunto de fatores estão hoje céticos ou até mesmo distanciados da mesma. 

Não obstante algum frenesim mediático em seu torno, é a nosso ver algo prematuro saber para já se Robert Kubica será esse ‘Messias’, quanto mais não seja porque nem sequer é líquido, a julgar pelas declarações que o polaco tem proferido publicamente, que seja nos Ralis o futuro da sua carreira desportiva em anos vindouros.













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