P.E.C. Nº 250: Cimeira luso-galaica...


I)

Repare na ironia, caro leitor. 

Guimarães, a cidade-berço onde começou no ano 1.139 a nascer Portugal tal como o conhecemos hoje, e que simbolicamente é um marco da autonomização do nosso reino relativamente a Leão e Castela, funcionará, no próximo fim-de-semana, como o mais admirável processo de miscigenação entre Ralis portugueses e espanhóis de que há memória num passado recente.

Presentes no Rali Cidade de Guimarães estarão, além do contingente luso, quinze pilotos e respetivos navegadores oriundos de terras de nuestros hermanos, dois tripulando os Suzuki Swift S1600, e treze aos comandos dos carros da mesma marca que competem na interessante competição monomarca do país vizinho (cuja etapa de abertura da época será precisamente no nosso país), assim reforçando uma lista de inscritos que se poderá considerar muito positiva (tal como foi a do Rali Serras de Fafe), engrandecida, também, pelos concorrentes que disputam o competitivo Campeonato Regional Norte. 

Cinquenta e nove carros (dados oficiais que constam da lista provisória de inscritos fornecida pelo Targa Clube), dos mais diversos géneros e agrupamentos, a competir nas especiais minhotas é bastante apelativo, esperando-se, por isso, uma adesão massiva do público ao evento, sempre com um comportamento de acordo com os mais elementares padrões de segurança. 

Não é a primeira vez que há êxodos de pilotos espanhóis a competir nos Ralis portugueses e vice-versa (não entram nesta consideração as provas ‘mundialistas’)

Desde que há competições organizadas nos dois países ibéricos que, com maior ou menor expressão, com mais ou menos incidência, sobretudo entre o norte de Portugal e as regiões da Galiza e Astúrias, com frequência pilotos passam a fronteira para experimentar provas do país vizinho. 

Por norma tais fluxos migratórios nunca mereceram grande ênfase por parte dos media, nem possivelmente alguma vez se procurou aprofundar o contexto que ao longo dos anos tem potenciado que tal se verifique. 

Neste particular aspeto, as memórias mais longínquas que conseguimos alcançar remontam ao tempo em que Germán Castrillón, penta campeão galego de Ralis, era um habitué não só do Rali de Portugal como também de várias das nossas provas disputadas na região minhota. 

Senra e Vallejo têm encarado nos últimos anos o C.A.M Rali Festival como um evento de comparência obrigatória durante a temporada. 

A nosso ver esta partilha de experiências entre pilotos oriundos de realidades diferentes é especialmente estimulante, mais a mais por ser feita à margem de quaisquer sinergias entre as federações máximas que regem o automobilismo português e espanhol. 

No Rali Cidade de Guimarães, portanto, será bastante curioso perceber de que forma os pilotos portugueses se vão medir com os seus congéneres do lado de lá da fronteira, e como é que os homens dos Suzuki se adaptarão a troços e a uma prova que desconhecem por completo.

II) 

Da cidade do Paço dos Duques vêm, também, outras boas notícias. 

Para o primeiro Rali do ano disputado em asfalto há dois Porsche 997 GT3 a constar da lista de inscritos. 

Um deles, manuseado por José Pedro Fontes, é a arma em que o piloto do Porto confia para neste tipo de piso ganhar troços e Ralis (já o fez no Rali Centro de Portugal em 2010), como forma de atacar um título nacional que persegue há anos e lhe assentaria que nem uma luva no respetivo palmarés. 

O outro, ao dispor de Carlos Oliveira, que seguramente sem outras ambições que não seja andar o melhor possível, ainda assim tem na viatura uma das mais dignas formas de assinalar a contento os vinte e cinco anos de carreira do navegador José Janela

um número considerável de aficionados que depreciam os Porsche

Não são carros pensados e construídos para Ralis, dizem. 

Nós, 'Zona-Espectáculo', gostamos dos Porsche

Muito

Não é só por se tratar de um dos mais extraordinários automóveis produzidos em todo o mundo, nem por ser um ícone transversal a diversas gerações de condutores que o elevam à condição de objeto de culto. 

nos Porsche que competem nos Ralis algo de sedutoramente provocante. 

Aquela voz de contratenor, aquele ribombar poderoso que se faz ouvir classificativa fora, é hoje uma deliciosa subversão ao irritante e efeminado falsete que tomou de assalto as cordas vocais dos demais carros de Rali. 

Avesso a modas e tendências, passam anos, passam décadas, mas a criação da casa de Zuffenhausen mantem incólume um caráter duro e determinado, embora íntegro, sem conceder na silhueta de sempre ou na tração posterior que o distingue. 

Não faz parte do lote de heróis desta modalidade como o Stratos, o Quattro, ou o Impreza, incorporando melhor o papel de vilão insubmisso e desregrado mas de longevidade inquebrantável. 

De Vic Elford ao malogrado Henri Toivonen, ou de Américo Nunes a José Pedro Fontes, os Porsche (911, 997, ou qualquer outra designação, não são mais que diferentes pseudónimos para encobrir o mesmo ADN) andam nestas andanças dos Ralis há muitos anos. 

De lado, claro. 

III)

Recentrando-nos no Rali Cidade de Guimarães, como desenvolvemos mais acima há ótimos motivos para seguir a prova com a maior das atenções, nos troços vendo as máquinas em ação, ou à distância com os olhos pregados no monitor à procura de atualizações dos tempos on line

O campeonato nacional de Ralis neste início de temporada encontra-se, aliás, numa fase de grande ebulição mediática. 

Todos os dias deparamo-nos com renovadas notícias, está a ser dada a palavra aos protagonistas da modalidade com uma cadência de absoluto ‘maximum attack’, e, em suma, há um ressurgir do interesse pela competição como há um bom par de anos não se assistia. 

A somar a tudo isto, no plano da competição pura e dura, os despiques pelas melhores posições em cada uma das classes de carros estão francamente abertos, segundo a segundo, metro a metro. 

emoção, há projetos, há coisas a acontecer quase todos os dias, o que, tudo somado, é, neste contexto complexo do nosso país, o melhor que a modalidade podia desejar. 

Sábado, nas especiais desenhadas entre dois dos maiores símbolos (Santuários do Sameiro e da Penha) das duas maiores cidades do Minho (Braga e Guimarães), o Rali Cidade de Guimarães, agora na sua 2.ª edição, procura afirmar-se no contexto dos Ralis nacionais servindo ao mesmo tempo de elemento moderador a duas urbes que rivalizam, também elas, na procura de afirmação no quadro do norte de Portugal e noroeste da Península Ibérica. 

Pedro Meireles, líder do campeonato, está porventura no melhor momento da carreira e terá encontrado o ponto mais elevado da sua maturidade competitiva (aquele em que se conjugam equilibradamente e na perfeição consistência e rapidez), tem os índices de motivação perto do red line, pelo que é natural favorito ao triunfo. 

A correr atrás do prejuízo após abandonos em Fafe, Ricardo Moura, João Barros e José Pedro Fontes são (sempre) também fortíssimos candidatos à vitória, tendo seguramente menos a perder que o homem do Skoda branco, verde e negro. 

E não se menospreze o Aduzer, que andará (ao ataque) também por lá e não negligenciará qualquer oportunidade para roubar (a ocasião faz o 'ladrão'…), não automóveis, mas antes o lugar mais elevado do pódio aos adversários, ou o Teodósio que é sempre sinónimo de trabalhos redobrados e elevados prejuízos para repintar traços e tracejados das estradas por onde passaram os Ralis em que se inscreveu…

IV)

Informação sobre a prova poderá ser consultada no site do Targa Clube, organizador da prova (ver aqui).



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