P.E.C. Nº 251: Pouco PONDerado...


Qualquer piloto de Ralis que se preze tem como ponto alto na carreira a participação na prova-maior do seu país natal, sobretudo quando esta integra o calendário das grandes competições internacionais. 

É no evento ‘caseiro’ que por norma cada piloto apresenta índices acrescidos de motivação. 

O conhecimento pormenorizado do terreno é um fator que à partida pode proporcionar um bom desempenho desportivo. 

O retorno aos patrocinadores sai nestas ocasiões especialmente reforçado. 

O apoio do público e interesse mediático em torno das grandes provas, é em muitas ocasiões o elã potenciador dos bons resultados que emolduram a todo um palmarés desportivo, nem que o ‘bom resultado’ seja, para concorrentes que não possam ter veleidades a grandes ambições desportivas, pura e simplesmente chegar ao final do Rali. 

Competir no Rali disputado na nação onde se nasceu é, por outro lado, um elemento de pressão adicional. 

Com os holofotes a incidir de forma especialmente intensa nos ‘pilotos nacionais’, ali se pode conhecer a glória suprema ou as críticas mais severas. 

Ser, a título de exemplo, o melhor português no final do Rali de Portugal, é para os nossos pilotos mais qualificados um dos principais objetivos em cada época desportiva. 

Estamos em crer, portanto, que a preparação de cada piloto para a sua prova-natal é, sobretudo no plano mental, distinta da dos demais Ralis em que participa ao longo do ano. 

Falhar, sobretudo falhar rotundamente através de erros de palmatória, ganha nestas alturas uma amplificação mediática enorme. 

Não se pode por conseguinte falhar. 

Pode-se ser derrotado, caindo no anonimato. 

Mas falhar significa, pelos piores motivos, passar a andar-se nas bocas do mundo. 

Em 1984 Tony Pond era um dos mais cotados pilotos britânicos de Ralis, a par de Jimmy McRae, Wilson, Kaby ou Brookes

O programa desportivo desse ano tinha sido pouco profícuo em termos de provas, mas ainda assim com bons resultados. 

Logo no início da época, em fevereiro, nas Boucles de SPA, o inglês averbaria um ótimo segundo lugar final aos comandos do Nissan R240, sendo, no mês de setembro, terceiro classificado no prestigiado Rali do Manx, já então tripulando o Rover Vitesse SD1 que seria também a viatura ao seu dispor, em novembro de 1984, na quadragésima edição do Rali do RAC, pontuável como sempre para o campeonato do mundo de Ralis. 

A etapa britânica do mundial não era ao tempo (em rigor: nunca foi) uma prova fácil. 

Basta recordar que as refregas desportivas assentaram naquele ano em cinco longos dias de Rali (de 25 a 29 de novembro de 1984), 868,54 quilómetros (não, não é gralha…) cronometrados divididos por 56 classificativas, para uma extensão total de 3.224,54 quilómetros (pois: também não é gralha) no evento. 

A acrescer a esta maratona competitiva deveras desgastante, havia que somar as caraterísticas da generalidade das florestais britânicas, invariavelmente lamacentas e escorregadias, com o nevoeiro cerrado a fazer muitas vezes a sua aparição dificultando também ele a tarefa aos concorrentes. 

Tony Pond, profundo conhecedor do Rali, estaria seguramente avisado da necessidade de impor algumas cautelas na fase inicial da prova, quanto mais não fosse porque o automóvel que lhe estava confiado não lhe permitiria grandes veleidades para a conquista dos lugares cimeiros à chegada a Chester. 

O Rover, viatura importante em meados dos anos oitenta no contexto do automobilismo praticado em circuito fechado, era algo contratura em matéria de Ralis. 

Tinha uma distância entre eixos enorme prejudicando a sua maleabilidade e distribuição de massas, adornava em curva seguramente mais que o desejável, tornando-se tão desajustado em troços de terra quanto um catamarã a descer em rafting os rápidos do Rio Paiva. 

Não obstante tal contradição, comercialmente o carro tinha índices de venda bastante razoáveis em terras de sua majestade, pelo que colocá-lo a competir na maior prova de estrada disputada no país dos Beatles seria sempre, independentemente dos resultados, uma rentável operação de marketing. 

Seria, mas não foi. 

Num Rali em que seguramente Pond demoraria mais de dez horas a completar a totalidade das classificativas que o compunham, e quando a primeira etapa mais não era que um aquecimento de sete pequenos troços que, juntos, não perfaziam mais que 34,51 quilómetros, o inglês haveria de estar em ação apenas… 1m:40s, desistindo por despiste (documentado nas imagens que seguem) após o embate numa árvore logo na primeira especial (Knowsley, com 6,80 quilómetros).  

Rezam as crónicas que Tony ainda tentou prosseguir em prova arrastando o Rover classificativa fora, mas os danos eram irreversíveis. 

A desistência quase imediata foi, enfim, o final inglório de uma participação que antes de ser já o era, ou, melhor, verdadeiramente não o chegou a ser…

«»«»«»   «»«»«»   «»«»«»

Nota:
Alguns dados relativos à carreira de Tony Pond podem ser consultados aqui.

«»«»«»   «»«»«»   «»«»«»



A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://gallery.xpowerforums.com/showphoto.php/photo/3811/size/big/cat/

Comentários