P.E.C. Nº 252: Guiar com recurso à simulação e à 'revienga'



Em competição automóvel, quando ser o mais rápido possível é o que verdadeiramente importa, há diversas formas de chegar ao mesmo fim. 

Sabe-se haver pilotos meticulosos na condução e obcecados com o comportamento dos carros, para os quais qualquer palmo de escorregadela a mais é uma perda de tempo difícil de aceitar. 

São aqueles pilotos que, qual bola de futebol, guiam com o carro coladinho ao pé, tendo-o sempre sob controlo absoluto. 

Dominam o bólide suavemente, com toque curtopezinhos de lã, raramente arriscando o passe longo e por natureza incerto de uma contrabrecagem mal calculada. 

Jogam, claro, mais para o resultado que para a exibição. 

Do lado oposto exibem-se os pilotos para os quais não pode haver Ralis sem um toque de irreverência. 

Adornar um lance, uma curva que se faz a varrer a estrada com o carro de lado, ou simular uma finta dançando com o bólide durante o processo de travagem são caraterísticas que os Vatanen, Toivonen, Duez, Ragnotti, Macedo ou Teodósio (há textos sobre todos eles neste blogue) perpetua(ra)m com o seu estilo inconfundível, empolgante e arrebatador. 

Centremo-nos nestes últimos, dos quais McRae e Gigi Galli são expoentes maiores. 

Nas nossas aventuras explorando a internet, deparamo-nos recentemente com as duas fotos que replicamos neste trabalho. 

A primeira, alusiva ao escocês, foi obtida no decurso Rali da Córsega, em 1998. 

Os esgares boquiabertos de vários dos elementos do público, algures entre a surpresa e a estupefação, são, aliás, a melhor certificação de que se trata efetivamente de Colin

A imagem é o registo, talvez, de uma daquelas jogadas em o campeão mundial de 1995 era mestre, avançando decidido de encontro à curva para à entrada dela com uma finta de corpo partir os rins ao seu Impreza. 

Na segunda foto, colhida também na Córsega sete anos mais tarde, visualizamos o popular e sempre imprevisível Gigi Galli a completar um gancho como se um golo de bandeira (daqueles tipo remata-de-fora-da-área-sem-deixar-cair-no-chão-e-mete-a-bola-num-dos-ângulos-da-baliza-no-último-minuto-de-jogo) se tratasse, com direito a invasão de campo por parte da multidão em júbilo e tudo! 

O italiano, conduzindo com a extroversão que associamos aos nativos do país em forma de bota, nas suas incursões esporádicas na modalidade continua, ainda, a ser um dos raros globetrotters capaz de fazer diferente, capaz de sacar num inspirado repentismo aquela atravessadela que perdura na memória para lá do imediato. 

Os Ralis precisam deste tipo de pilotos brinca na areia, aqueles para quem conduzir em troço tem de ter, além da rapidez, uma componente de criatividade

Numa altura em que os fóruns de debate e reflexão se desdobram na procura de uma solução que traga novos (e mais) públicos aos Ralis, e quando os bólides e sua parafernália eletrónica são eles próprios quase um anticlímax da noção de espetáculo, é bom haver quem continue a trazer à estrada uma ideia de entretenimento (a noção de entretenimento e de interação com os aficionados são, aliás, os códigos que nos próximos anos podem devolver à modalidade a popularidade que teve no passado) além da competição pura e dura, quem opte por ser na classificativa o jogador vagabundo com rédea livre para conduzir como quer. 

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AS FOTOS PUBLICADOS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://i3.photobucket.com/albums/y100/autohabit/GalliTDC2005.jpg
-  http://1.bp.blogspot.com/-BsR8iwhxQgI/Tb22-Fftl7I/AAAAAAAAPXw/nfL2kRxlkKo/s1600/3+McRae-GristTourdeCorse1998SubaruImp.jpg

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