domingo, 27 de abril de 2014

P.E.C. Nº 260: C.N.R; nem tudo vai bem no reino da Dinamarca (1.ª parte)...


À entrada do Rali de Portugal de 2014, terceira etapa do campeonato nacional de Ralis da temporada em curso, os três primeiros classificados da tabela de pilotos eram, por esta ordem, Pedro Meireles (navegado por Mário Castro), Adruzilo Lopes (navegado por Vasco Ferreira) e Ricardo Moura (navegado por António Costa)

Pelo menos em tese e dentro das cogitações que se podem fazer para já no papel, estes serão, a par de João Barros (navegado por Jorge Henriques), o lote de nomes que decidirão entre si o cetro máximo nacional de 2014, ainda que se deva salientar que a velha e astuta raposa de Regilde, mantendo a rapidez de sempre, parte todavia em manifesta desvantagem para as próximas refregas da competição uma vez que a viatura ao seu dispor não tem os índices de performance dos demais adversários diretos na luta pelo título. 

Num campeonato que hierarquizasse competências e rapidez de forma pura e dura, olharíamos para estes nomes e diríamos estar perante os pilotos que em Portugal reúnem as condições mais favoráveis para alcançar o êxito, andando no limite e sem outras preocupações que não superar os adversários direitos. 

Devia ser assim: não é infelizmente assim. 

Meireles, a realizar um estupendo campeonato, tem referido incessantemente só dispor de orçamento para seis dos oito Ralis que integram o calendário da temporada em curso

Ora como nas contas finais da classificação contam precisamente apenas as seis melhores classificações que cada piloto averbar ao longo da época, isto significa que o piloto vimaranense não tem qualquer margem para desistir ao longo do ano, uma vez que não poderá ‘deitar fora’ os seus dois piores resultados. 

Quando se conduz mais preocupado com a desistência que com a cadência dos rivais (e quando essa limitação é uma decorrência de falta de verbas e não da gestão de resultados), está a nosso manifestamente subvertida a escala de valores que devia nortear o C.N.R. 

Adruzilo Lopes é outro exemplo ainda mais paradigmático. 

Em declarações recentes o tricampeão nacional referiu, com desarmante crueza, ter competido no Rali Serras de Fafe e no Rali Cidade de Guimarães apenas com quatro pneus em cada uma das referidas provas, quadro particularmente ilustrativo em termos gerais do momento atual da maior competição de estrada do nosso país. 

E Ricardo Moura, após alegadamente ter vendido o Skoda Fabia S2000 que lhe conhecemos em grande parte da época de 2013 e nos Ralis disputados até ao momento em 2014, já admitiu publicamente os mais diversos cenários para o resto da época, estando em cima da mesa (já estava mesmo antes do ano desportivo começar) um downsizing competitivo rumo ao mais modesto e económico Mitsubishi Lancer do agrupamento de produção, por razões de ordem financeira. 

Atrás dos holofotes em que cintilam os carros S2000 e R5 (estes anunciados como a ‘salvação redentora’ dos Ralis disputados por essa Europa fora, têm afinal preços de venda a rondar os € 200.000,00, cifras que à exceção de pouquíssimos pilotos o grosso do pelotão dos Ralis em Portugal não tem, longe disso, qualquer forma de comportar), esconde-se todavia no C.N.R uma outra realidade paralela, bem mais cinzenta, quase envergonhada, onde o dinheiro não abunda e as perspetivas que a prazo apareça são muito diminutas. 

A fazer lembrar aqueles bairros de vivendas chiques em que as persianas nunca abrem para que da rua não se perceba os bibelots que não há, ou os quadros que não ornamentam as paredes despidas, para lá dos portões das oficinas onde se preparam os carros há secções de economato em que material de substituição não abunda, peças novas são um luxo, e se poupa onde se pode nos trabalhos de revisão pós-prova. 

Passada a euforia que tomou conta dos Ralis nacionais no início do ano, há sintomas preocupantes a fazer perceber que o estado de arte da modalidade não é tão dourado quanto alguns o querem pintar. 

As indefinições são muitas. 

Perfis de liderança capazes de impulsionar o debate em torno do futuro da modalidade não existem. 

Perspetivas de recentrar os Ralis nos interesses dos seus praticantes são nulas. 

Não obstante a estabilidade de regulamentos que se anuncia para os próximos três anos (a estabilidade é em sim mesma um valor insofismável, mas 'maus' regulamentos sucessivamente a vigorar podem transformar-se na cura que agrava a doença), não se conhecem estratégias de fundo sobre o que se pretende para o futuro da modalidade. 

No meio de tudo isto sobra pouca margem de otimismo. 

Um dos paradoxos em que os Ralis, aliás, se estão a deixar cair, é na interrogação se pilotos que lutam pelo título máximo da modalidade obcecados quase unicamente pela gestão do parco material ao seu dispor, encontram-se mais próximos de um aluno saído da Escola Superior de Desporto ou de um licenciado com o diploma do ISEG...

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