P.E.C. Nº 262: C.N.R; nem tudo vai bem no reino da Dinamarca (3.ª e última parte)...


e lá.

Dentro e fora de portas.

Aquém e além-fronteiras.

Do campeonato do mundo ao nosso campeonato regional do Sul, os Ralis atravessam no geral um período de crise.

Crise de ideias e de identidade que estão a toldar a face da modalidade.

Crise que aliada a um conservadorismo regulamentar quase atroz impede a procura de novos caminhos que este desporto reclama há um bom par de anos a esta parte.

Outras disciplinas do desporto motorizado com quatro rodas tentam acompanhar os ventos de mudança que sopram da indústria automóvel.

A Fórmula Um, mal ou bem (não cabe aqui escalpelizar) vem experimentando nos últimos anos um conjunto de inovações regulamentares (KERS, DRS, etc…), de que a reintrodução dos motores turbo em 2014 é exemplo maior.

Os protótipos avançaram rumo a paradigmas tecnológicos impensáveis há poucos anos, e com isso trouxeram novos construtores à disciplina.

No todo-o-terreno a Peugeot desafia os padrões do Dakar, aprestando-se em 2015 a lançar-se às areias do deserto e estradas pedregosas da montanha através de um carro… de duas rodas motrizes traseiras.

Em Portugal, a velocidade está a perceber ao fim de alguns anos que os GT são demasiado onerosos, fazendo um reajustamento na escala de prioridades para lançar as sementes de um campeonato de sport-protótipos que promete.

Nas provas de montanha há novidades muito interessantes para a temporada já em curso, cristalizadas num conjunto de carros de origens distintas mas com um nível de performances elevado que, acreditamos e esperamos, vão recuperar a popularidade que a competição já teve no passado.

No todo-o-terreno fervilham diversos projetos entusiasmantes à base de ‘protos’ concebidos em exclusivo para o CNTT, numa lógica homemade assente na evolução de carros à medida que exista dinheiro para o efeito, que estão a revitalizar a disciplina.

Olha-se para os Ralis e o que é que vê?

No mundial da modalidade o promotor é olhado com desconfiança pela generalidade das equipas e não está a ser eficaz no seu trabalho.

As evoluções dos automóveis encontram-se mais ou menos em hibernação.

diversas provas em risco para os próximos anos, pelo facto do caderno de encargos para organizar Ralis do WRC ser excessivamente caro.

No geral as marcas não sinalizam com clareza a sua aposta na modalidade a médio-prazo.

E ninguém parece ter ideias objetivas sobre para onde levar os destinos do campeonato após 2017.

Por cá, o cenário não se pode dizer que seja mais auspicioso.

Não se vê um trabalho sério e profundo junto das marcas a operar no mercado português, no intuito de perceber que condições precisam para apostar na modalidade (elas são quem mais investe e mais recruta).

Não se permite, como no citado exemplo do TT, a construção de protótipos exclusivamente para Ralis, obrigando quem queira competir com ambições de topo a alugar ou adquirir carros take away, previamente confecionados mas caríssimos para a realidade nacional e com uma amostragem circunscrita a poucas marcas.

Os Ralis do CNR são em número excessivo e quase todos demasiado extensos.

A promoção da competição é para já insípida.

todo um mar de problemas a crispar a modalidade, complexos, que seguramente não se resolvem num passe de mágica mas que se agravam à medida que o tempo decorre e não se procura soluções para os enfrentar.

Em linhas gerais, através da frieza do tempo entretanto volvido, fica-nos por vezes a sensação que o campeonato do mundo de Ralis nunca conseguiu superar os traumas da potência em grande escala de há quase trinta anos atrás, enquanto por cá ainda são visíveis as crostas das feridas abertas pela Lagoa Azul/1986.

Nas provas internacionais de resistência, por exemplo, vemos na presente temporada protótipos com potências de quatro dígitos, enquanto o WRC vive preso há décadas à barreira psicológica dos 300 cavalos da qual não se consegue libertar.

, em suma, muito trabalho para nos próximos anos se redefinir os contornos deste desporto.

Voltando ao nosso país, a fasquia etária dos praticantes é cada vez mais elevada não se vislumbrando um processo sério de renovação geracional que traga à modalidade novos valores.

Nas nossas memórias ainda está bem presente o início dos anos noventa, designadamente quando Joaquim Santos após a temporada de 1992 fixou a fasquia de títulos de pilotos em quatro (empatando então com Carlos Bica), e o número de triunfos absolutos em Ralis do campeonato nacional em trinta e nove.

De então para cá esses recordes nunca foram superados.

A verdade é que no presente praticamente nenhum dos pilotos que militam na competição maior dos nossos Ralis pode permitir-se sonhar em fazer carreira longínqua no CNR.

O dinheiro, passe o exagero, mal chega para cinco troços, quanto mais para cinco títulos.

nas entrelinhas sintomas de problemas sérios nos Ralis portugueses, a pedir reflexão e assertividade.

Na agenda dos principais agentes da modalidade deveria constar como nota de destaque o debate aprofundado sobre o que se pretende para este desporto a cinco, seis, ou dez anos, e as maneiras mais eficazes de atrair novas equipas e participantes.

Nunca se quantificou, com seriedade, quanto é razoável no atual quadro do país pedir aos concorrentes para fazer uma temporada completa no campeonato nacional de Ralis, balizando-se tal valor como a matriz a médio-prazo para se desenhar a competição.

À boa maneira dos sistemas de economia planificada, a entidade que rege os destinos do automobilismo português permite-se fazer ‘sugestões’ sobre o valor das inscrições a pagar nos Ralis, padronizado para todas as provas, quando se calhar prestaria um bom serviço à modalidade confiando a organização dos eventos a quem estivesse em condições de oferecer uma melhor relação entre o serviço prestado e o que se paga para dele usufruir.

, portanto, uma miríade de assuntos que deviam estar em cima da mesa para ampla discussão.

Em abstrato, do que apuramos em conversa com alguns intervenientes destacados da modalidade e da análise do que se vai escrevendo pelas ditas redes sociais, há a sensação geral que os Ralis em Portugal se encontram capturados por interesses e pelo imobilismo.

As pessoas conhecem-se (demasiado) bem umas às outras, e em local algum a resolução de assuntos pode ser realizada à base do ‘tu-cá-tu-lá’ institucional.

A necessidade de discussão e debate é premente.

Aliás, qualquer atividade que não se discute a si própria pode não ser uma atividade moribunda, mas será sempre uma atividade adiada.

e lá.    

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