P.E.C. Nº 271: Quero, Porsche e mando!


I)

Não nos recordamos de na vasta história dos Ralis portugueses um só automóvel ter mexido de forma tão visível com os pilares da modalidade como tem sucedido nas últimas semanas com o Porsche tripulado por José Pedro Fontes e Inês Ponte.

Do acompanhamento (e, em alguns casos, participação) sobre o tema que temos vindo a realizar na imprensa especializada e nas denominadas redes sociais, o bólide alemão está na ordem do dia.

Os fóruns de debate desdobram-se em apaixonados debates em torno das suas prestações, terçando-se múltiplos argumentos relativamente à alegada supremacia competitiva em pisos de asfalto quando comparado com as viaturas ao serviço dos pilotos que se encontram a lutar pelo título de 2014.

O Porsche 997 GT3 da equipa Sports & You está claramente a marcar a agenda, ocupando por estes dias quase todo o espaço mediático à volta do Campeonato Nacional de Ralis.

Vários motivos concorrem para que assim seja.

Um Porsche na sua nomenclatura ‘911’, nunca foi, não é, nem nunca será um carro qualquer.

É um automóvel que mesmo na sua versão civilística, despedido de roupagem desportiva, exala competição por todos os poros.

Éespecial.

É parte daquela casta de carros (em vias de extinção) que pede ao piloto aquilo que só os grandes pilotos estão em condições de lhe oferecer.

Nos Ralis atuais olha-se para o parque de assistência e fica-se com a sensação de estarmos perante a frota de uma qualquer empresa de rent-a-car: carros idênticos, padronizados no formato e dimensões, invariavelmente confinados ao segmento dos utilitários, que quando muito foram alvo de umas breves sessões de ginásio para não parecerem demasiado franzinos.

Um Porsche é um elemento diferenciador.

Na versão utilizada no CNR são 450 cv de pura vida selvagem.

Açaimar regulamentarmente este bólide é trair a sua natureza.

Num campeonato de Ralis que procure exprimir o máximo possível de conceções sobre automóveis, a diversidade da ‘fauna’ é condição de sustentabilidade competitiva, e um GT potente peça fundamental para o equilíbrio de tal ‘ecossistema’.   

II)

Além da máquina propriamente dita, o projeto que trouxe este Porsche para evoluir nos troços portugueses tem outras vertentes particularmente interessantes que, conjugadas, o tornam num golpe mediático quase infalível.

Não se investe (muitos) milhares de euros em competição automóvel se não for para procurar retirar retorno em dois planos: o desportivo (com bons resultados, se possível vitórias e títulos) e o mediático.

No primeiro desses aspetos (a melhor forma de chegar com eficácia ao segundo) uma imagem vitoriosa tem forçosamente de pressupor a ligação a um piloto de grandes credenciais, com qualidade inquestionável, capaz através da condução de levar o automóvel a patamares de sucesso.

Em Portugal, no contexto dos Ralis, há muito poucos pilotos com esses predicados: José Pedro Fontes é um deles.

A temporada de 2014, com duas únicas participações em provas de asfalto aos comandos do Porsche, tem servido como a melhor certificação da mestria do piloto portuense.

Sabe-se que a máquina alemã é lendariamente temperamental e de trato difícil para o respetivo piloto.

Com 450 cavalos debaixo do pé, só talentos de pilotagem acima da média conseguem extrair todo o potencial de um GT com tração posterior.

Fontes, experiente e versátil, é capaz como poucos de sentar-se num carro de competição e rapidamente empregar a melhor condução para potenciar nele toda a rapidez.

Não é a primeira vez que o piloto conduz um GT em troços de Ralis, pois no passado já havia experimentado de forma fugaz em classificativas de alcatrão, quer um outro Porsche, quer um Aston Martin.

No entanto, a presente temporada fica nos registos como aquela em que pela primeira vez em muitos anos um candidato ensaiou um ataque ao título absoluto de pilotos (dos poucos que escapam, aliás, a José Pedro no seu vastíssimo palmarés) sustentado em grande medida no Porsche (cinco das oito provas do ano são em pisos de asfalto).

O evoluir da época desportiva após os dois primeiros Ralis do ano, nos quais Fontes se viu obrigado a abandonar prematuramente (Em Fafe após problemas mecânicos no Impreza, quando liderava no agrupamento e seguia numa ótima posição na classificação; em Guimarães por despiste, na sequência de um erro de condução – aliás, assumido - quando liderava a prova), terão obrigado a redefinir o projeto para 2014, com o piloto a primar pela ausência nos Ralis de Portugal e dos Açores, antes de reaparecer na quinta etapa do campeonato para triunfar no Rali Vidreiro Centro de Portugal.

Na prática fora das contas do campeonato, os três Ralis que faltam cumprir no calendário da presente temporada, todos em asfalto, servirão para José Pedro Fontes afirmar a sabedoria de condução (se tal ainda é necessário) e eventualmente afinar estratégias para a temporada de 2015.

III)           

Além do piloto e do carro propriamente dito, há outro fator decisivo em termos de marketing neste projeto: a presença de uma senhora sentada no banco do lado direito do automóvel, a quem está ser confiada a fulcral e exigente missão de navegação.

O exercício de sedução ao público-alvo feminino não é inocente, e a presença de Inês Ponte cumpre na perfeição os requisitos do marketing moderno, não só, mas também, pela curiosidade adicional do que poderá fazer num desporto que sempre primou por mesclar doses equilibradas de cheiro a ferodo e testosterona.

Vamos ver cada vez mais mulheres a destacar-se no automobilismo em geral e nos Ralis em particular.

Cada vez mais vamos vê-las afirmar competências vincando a qualidade do seu trabalho.

Não é apenas convicção nossa: é a realidade de todos os setores da sociedade aos quais esta nossa modalidade não pode, nem deve, escapar.

Avaliar aquilo que foi o trabalho de Inês Ponte nos dois Ralis em que participou, não está porém dependente de fatores hormonais, nem devemos parametrizar o que fez em função do género, julgando-a com indulgência por uma questão de cavalheirismo, ou, pelo contrário, criticando-a com especial severidade por eventualmente não ter estado estar à altura da alta função que lhe foi confiada.

A notação a atribuir a Inês Ponte pelo respetivo desempenho nos Ralis do Targa Clube e do Clube Automóvel da Marinha Grande não se prende com o facto de ser mulher, mas sim apenas e tão só pelos seus méritos ou desméritos enquanto navegadora, dentro da mesmíssima bitola com que o faríamos se no banco do lado direito do Porsche em ambas as provas estivesse sentado um homem.

É isso que é justo.

É isso, aliás, que Inês Ponte pretenderá.

Nessa medida, sabendo nós através de fonte fidedigna que a copiloto tem trabalhado incansavelmente para estar à altura do desafio, tem investido muitas horas do seu tempo preparando minuciosamente cada Rali para que nada falhe, e denota a cada passo muita vontade de aprender para melhorar o desempenho, atendendo a que numa das provas o 997 GT3 desistiu quando liderava após um erro fortuito a que é alheia, e na outra triunfou de forma convincente, o que se pode concluir é que o trabalho de Inês Ponte é até ao momento excecional, cimentando a ideia que o Porsche é um projeto vitorioso não ‘apesar de’ Inês Ponte, mas sim ‘com o contributo decisivo de’ Inês Ponte.

IV)

É prematuro antecipar-se uma mudança de paradigma na forma de abordar o título máximo de Ralis em Portugal.

No entanto, há algum pioneirismo na forma como José Pedro Fontes, respetiva equipa e patrocinadores abordaram a presente temporada, assente em dois carros de caraterísticas diametralmente distintas para disputar as provas de terra e de asfalto do calendário do CNR.

Os próximos anos servirão para validar essa estratégia ou repudiá-la em definitivo.

As competições de estrada do nosso país têm historicamente vivido muito em função da mui lusa noção de propriedade, através da aquisição de carro próprio (por vezes excessivamente caro para a nossa realidade) num primeiro de ano de competição para se procurar amortizar o investimento nas temporadas seguintes.

Os projetos conhecidos num passado recente ao nível de aluguer de viaturas para disputar Ralis, apenas têm sido colocados em prática por quem dispõe de orçamento para uma prova ou um escasso conjunto de provas, não por quem tem como objetivo disputar a totalidade da temporada com ambição de vitórias e títulos.

, por conseguinte, uma tentativa de pelo menos fazer algo de diferente nesta matéria por parte da equipa Sports & You e dos patrocinadores que viabilizaram este projeto, com o recurso a dois carros especialistas (um para asfalto, outro para terra), ao invés do padrão normalmente seguido de aquisição de um único carro generalista, adaptado em função do tipo de piso que vai encontrar em cada Rali.

Na última meia-dúzia de anos os GT (com especial enfase para os Porsche) têm vindo paulatinamente a reaparecer com sucesso nas provas de asfalto disputadas um pouco por toda a velha Europa, funcionado em certo sentido como contraponto aos dispendiosos carros construídos especificamente para Ralis.

É difícil para já antecipar se essa tendência se reforçará (admitimos que sim em função das necessidades de equilíbrio entre a oferta de automóveis de competição e aquilo que equipas e concorrentes podem pagar por eles) ou irá esmorecer, mas não é de descartar a possibilidade de mais construtores com imagem vincadamente desportiva se deixarem seduzir pelo elã mediático à volta deste género de carros.

O Porsche que José Pedro Fontes e Inês Ponte levaram à vitória no recente Rali Vidreiro Centro de Portugal não está a deixar ninguém indiferente, a começar pelos críticos e a acabar nos indefetíveis.

Compreender o bólide germânico não se confina apenas à leitura do cronómetro ou à análise de estatísticas.

No plano desportivo e mediático este carro mexe de tal forma com emoções, que só pode ser avaliado com rigor através do recurso à escala de Richter

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