P.E.C. Nº 278: (In)justiça de Fafe...


I)

Dobrada a fasquia dos quarenta anos, Zona-Espectáculo em matéria de Ralis não tem nesta altura ídolos que venere incondicionalmente. 

É da vida: o avançar da idade traz invariavelmente maior sabedoria, bem como uma certa bonomia e relativização na avaliação das coisas. 

Hoje, por exemplo, não nos estimula discutir se é melhor o Munari ou o Ogier, nem entramos em exercícios de comparação sobre a nota artística de António Coutinho ou Ricardo Teodósio

Dream-team de pilotos ao serviço da Citroen?

Loeb e Victor Calisto, pois claro!

Serve esta introdução para dedicar algumas linhas a Mário Castro, mais concretamente à hipótese que tem de se sagrar pela primeira vez na carreira campeão nacional de Ralis (na competição reservada aos navegadores) em termos absolutos, eventualmente já em Mortágua, próxima e antepenúltima etapa do calendário de 2014.

Não conhecemos pessoalmente Mário Castro, nem tão-pouco António Costa, o seu adversário direto na luta pelo título de copilotos.

Nada nos liga em especial a qualquer um deles, à exceção do profundo respeito que temos pelas respetivas carreiras e palmarés.

São ambos parte integrante e membros destacadíssimos do lote dos melhores navegadores nacionais de Ralis (no caso de Castro, com incursões também ao todo-o-terreno), e nessa medida é-nos indiferente qual dos dois sairá deste final de temporada com mais motivos para sorrir.

Garantida a presença de Mário em Mortágua (que até dias recentes era incerta, face à ausência anunciada de Pedro Meireles), e sem que se saiba se António alinhará à partida da prova do Clube Automóvel do Centro (ao momento em que escrevemos estas linhas é ainda desconhecida a lista oficial de inscritos), o roadbook do título de navegadores deste ano começa a ter muitas setas a indicar a direção de Fafe.

Caso consiga averbar o cetro (bastará alinhar à partida do Rali de Castelo Branco, algo que, quem sabe, a própria Sports & You poderá se necessário viabilizar sentando-o no Porsche 997 GT3 ao lado de José Pedro Fontes, assim os patrocinadores do carro alemão o avalizem) Mário Castro chegará ao ponto mais alto da sua já longa carreira de vinte anos nestas andanças.

Uma vez que a avaliação do trabalho do navegador depende em última instância da rapidez e resultados do respetivo piloto, é-nos muito difícil, senão mesmo impossível, referir se o título de 2014 assenta melhor a Castro ou a Costa.

Por outras palavras: qual deles navegou melhor até ao momento?

Não podemos de forma alguma precisar.

É um facto que Pedro Meireles conseguiu até à data um conjunto de resultados soberbo (conquistou com muito mérito o título de pilotos por antecipação) em muito ajudado pela parceria estável com Mário Castro.

Mas pode-se partir daí para concluir, sem mais, que António Costa, atual detentor do cetro, navegou pior Ricardo Moura?

Não nos parece.

Caso o título de navegadores caia, como tudo o indica, na estante de troféus de Mário Castro, será o corolário de um longo percurso feito de muito apego a este desporto, sempre com enorme humildade e vontade de progredir.

O atual pendura de Pedro Meireles é, sabe-se, uma das personagens mais estimadas dentro do paddock dos Ralis nacionais, além de extremamente respeitado pela grande qualidade do seu trabalho.

Caso se carimbe o título máximo de navegadores de 2014 a Mário Castro, independentemente de se discutir a respetiva justeza (embora nos pareça que assentará como uma luva ao copiloto de Fafe, pelos resultados que tem averbado até ao momento) estamos em crer que será acima de tudo a ‘correção’ de um certo sabor a injustiça (pelo menos no plano material) relativamente a ocorrências verificadas há seis anos.  

II)

No início da temporada de 2008, Mário Castro já era unanimemente considerado um dos mais conceituados navegadores nacionais.

Nessa medida, foi sem surpresa que a estrutura da Peugeot Portugal (Carlos Barros sempre contratou com base em padrões de excelência) o requisitou para, substituindo Paulo Grave, acompanhar Bruno Magalhães na tentativa de revalidação do título obtido na época anterior.

Integrado numa equipa oficial, com responsabilidade e pressão de vencer, Castro deu logo nos primeiros Ralis do ano resposta clara de que era valor acrescentado para a equipa, adaptando-se na perfeição ao elevado grau de exigência para triunfar ao lado de Bruno nos Ralis Torrié e do Futebol Clube do Porto, sendo a dupla sexta classificada final no Rali de Portugal (do qual disputaria a liderança na fase inicial) e a melhor posicionada no sempre importante ranking dos concorrentes nacionais.

Um controlo antidoping realizado em meados de abril desse ano, no decurso do Rali do F.C.P, terá acusado substâncias proibidas pelo regulamento no organismo de Mário Castro, que afinal mais não eram que parte da composição química de um tónico capilar de que o navegador se socorria para combater a perda de cabelo.

Em junho, o Conselho Disciplinar da F.P.A.K ‘suspendia preventivamente’ Castro de toda a atividade desportiva, e em meados de setembro o navegador fafense viu ser confirmada a sanção, pelo que apenas pode retomar o seu trabalho em dezembro, já após o fecho do ano desportivo.

Das pesquisas que encetámos procurando aprofundar o assunto, e cingindo-nos apenas ao que é conhecido publicamente uma vez que não acedemos à documentação junta e ao teor da decisão constante do processo disciplinar em apreço, fica a ideia que ao tempo, talvez por estar num lugar deveras apetecível, Mário Castro terá tido muito pouco apoio (mesmo dentro dos seus pares) e solidariedade institucional, ficando sozinho a pagar as despesas da situação.

Algumas (poucas) palavras de circunstância lamentando o sucedido, foi o melhor que conseguimos encontrar nas notícias produzidas na altura.

Ninguém se pronunciou sobre a moldura sancionatória aplicada a Castro (percebe-se ter sido claramente exagerada e sobretudo muito pouco pedagógica, atendendo a não ter havido qualquer espécie de dolo ou má-fé), nem a F.P.A.K, dentro do obscurantismo em que caminhava nesses anos, se dignou esclarecer publicamente de que forma é que a substância proibida (hoje, curiosamente, já não o é…) beneficiou física ou mentalmente as prestações desportivas do atleta.

Mesmo dando de barato que a substância encontrada constava efetivamente do rol de proibições nesta matéria, volvidos seis anos fica a convicção de não se ter de forma alguma produzido uma decisão equilibrada e sábia, ainda que porventura fundamentada do ponto de vista legal.

Mário Castro viu-se irremediavelmente afastado da melhor equipa portuguesa de Ralis de então, e a forma séria e digna com que sempre pautou a sua postura na modalidade nem sequer foi aparentemente tida em consideração pelos instrutores do processo.

Então com trinta e três anos, viu ficar para trás a possibilidade real de internacionalização da carreira, que viria, porém, a ter continuidade dentro de portas, primeiro com Victor Pascoal e, desde 2011, com Pedro Meireles.

O estranho caso de 2008 caiu com o passar do tempo nos confins do esquecimento coletivo, não obstante perdurar na memória pessoal do homem de Fafe.

É o próprio que, sobre o episódio, na primeira palavra e em discurso direto confessamente diz:

Tive muitos bons momentos na minha carreira, mas para poder ser sincero na minha resposta há infelizmente um que se sobrepõe a tudo de bom que conquistei e que ainda hoje não consigo passar um dia sem pensar nele. Foi a minha pena suspensa por resultado positivo no controle anti-doping em 2008 e que se fosse hoje não seria penalizado uma vez que o medicamento que estava a tomar já não consta na lista de substâncias proibidas. Não posso afirmar que viria a ter uma carreira melhor sem este acontecimento, mas uma coisa é certa, tudo aquilo que eu trabalhei e dei da minha vida para alcançar o topo nos ralis ruiu completamente e por muito que possa ainda vir a conseguir no futuro, aquilo que perdi com essa situação nunca mais irei recuperar.” 


No início deste trabalho deixámos a ideia, que mantemos, de nos ser indiferente ser Mário Castro ou António Costa a conseguir o título de navegadores na época em curso.

Mas não escondemos, porém, ser-nos muito simpática a ideia do pendura fafense conquistar o troféu, como forma de amenizar (nunca compensar) a situação com um travo amargo a injustiça, contornos algo estranhos e demasiada opacidade de que foi alvo há meia-dúzia de anos.

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Nota:

- Costa e Castro são parte integrante do conjunto formidável (quer na qualidade, quer na quantidade) de copilotos portugueses. Se a nível de pilotos há no nosso país um grande manancial de talentos, sublinhamos todavia, porque nos parece importante realçá-lo, que a qualidade dos nossos melhores navegadores não lhes fica nada atrás, bem pelo contrário.

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