segunda-feira, 27 de outubro de 2014

P.E.C. Nº 281: Menina estás ao Janela...


a) Tal como existem diversos estilos de condução de carros de Ralis, do mais exuberante e espetacular até ao mais metódico e eficiente, há também maneiras distintas de cumprir a missão de copilotagem. 

Conhecem-se navegadores que têm como opção um certo princípio de separação de poderes, cingindo o seu trabalho à leitura de notas e interpretação de roadbooks sem intromissões de qualquer espécie na forma como o piloto guia. 

Outros há que, atrevidamente, não se contentando em ser apenas uma de duas metades no interior do carro vão mais além, intervindo diretamente nos assuntos da condução com vista à obtenção de um bom crono na tomada de tempos final da classificativa. 

Essa dualidade de posturas depende sempre, em última análise, do próprio estatuto do piloto. 

Será mais difícil ao navegador ser impositivo perante um piloto experiente e de créditos firmados, que domine (quase) na perfeição o ato de conduzir. 

Mas já será algo natural, sobretudo perante pilotos com menor experiência e em processo evolutivo na modalidade, assistir-se a ações interventivas do pendura na procura de ajudar a melhorar o desempenho de quem vai ao volante. 

As imagens seguintes ilustram com nitidez este estilo mais presencial e incisivo de quem navega. 

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b) Com vinte e cinco anos de presença nestas lides, ao irrequieto e eternamente jovial José Janela, homem de muitas aventuras nos Ralis, já pouco lhe será surpreendente. 

Diversos títulos importantes emolduram-lhe o palmarés. 

No percurso desportivo coadjuvou um conjunto muito alargado de pilotos, dos dois mais destacados membros do clã Lopes até João Fernando Ramos

Entre 2010 e 2012, Janela foi peça fundamental no tirocínio de João Silva dos Ralis disputados na ilha da Madeira para as provas do continente. 

Um jovem piloto inexperiente, embora talentoso e carregado de sonhos e ambição, só podia ligar na perfeição a um navegador com profundo conhecimento da modalidade. 

A parceria solidificou-se, João Silva cresceu imenso enquanto praticante de Ralis melhorando a olhos vistos a condução: rapidamente chegaram as vitórias e títulos. 

com Silva numa fase expansionista da carreira, embrenhado no WRC Academy, o consórcio com Janela terminou de forma algo abrupta e não suficientemente explicada após o Rali de Portugal de 2012. 

Não é, porém, de tal rutura que se reporta o presente trabalho, antes de procurar ilustrar a forma como um navegador pode ser crucial na melhoria de prestações de um piloto. 

Nas imagens que seguem, vemos (e ouvimos) a pedagogia que o copiloto pode exercer perante um condutor em processo de aprendizagem. 

Não só pela injeção de confiança que dá visando que quem guia adote um andamento mais forte. 

Não só pela chamada de atenção de que se socorre nas ocasiões em que os limites estão a ser perigosamente provocados. 

Transparece a espaços destes excertos de filme uma preocupação evidente com aspetos nucleares da condução, como a inserção do carro em curva (talvez o item mais importante na realização de um bom tempo) ou o desenho da trajetória, questões de pormenor que fazem a diferença e só estão ao alcance de penduras de qualidade superior, como é o caso inquestionável de José Janela

Trazer experiência para dentro do carro e emprestar sabedoria a pilotos pouco experientes, será mesmo a maior virtude do navegador de elite, mais que qualquer perfeita leitura de notas ou irrepreensível interpretação do itinerário de prova.







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c) quatro anos Hugo Magalhães (curiosamente o sucessor de José Janela enquanto copiloto de João Silva no WRC Academy) talvez não imaginasse chegar ao patamar onde se encontra hoje.
Navegador bilingue, capaz de trabalhar na língua portuguesa ou no idioma inglês, é hoje em nossa opinião, sem deferências em especial, um dos melhores do mundo na sua área de ação, encontrando-se perfeitamente apto a trabalhar em equipas oficiais e junto de qualquer dos pilotos mais aclamados do WRC.

Do acompanhamento que fazemos do trabalho do jovem pendura de Viana do Castelo, sobretudo nas redes sociais, impressiona a sua capacidade de trabalho bem como o perfecionismo de não descurar o mais ínfimo detalhe na preparação de cada Rali.

Simples e afável na relação com os adeptos, bom comunicador, salutarmente ambicioso em progredir na carreira, é talvez no facto de querer sempre aprender mais que reside a chave do sucesso neste percurso ascensional que o tem levado, ao lado de Bernardo Sousa, até à luta pelas vitórias no WRC2 de 2014.

quatro anos, Magalhães militava no Open de Ralis enquanto navegador de Daniel Ribeiro, com um Peugeot 206 Gti como plataforma de trabalho.

Ainda que não se possa dizer que fosse experiente na função (o início de carreira sucedeu em 2006) e de forma alguma estivesse rotinado nas grandes competições, havia sinais sólidos que, sabe-se hoje, prenunciavam talento acima da média.

O pormenor aos 6m:26s do filme que segue é arte de navegação em Ralis na sua forma mais elevada.

Na fase final do troço e numa zona deveras rápida, Magalhães dita a Ribeiro: “topo frente fundo pelo meio, logo esquerda cinco a fundo 150, alivia um bocadinho”.

Ou seja: numa curva normalmente feita a fundo (a indicação percebe-se estar inscrita nesse sentido no caderno de notas), intuindo tão bem ou melhor que o piloto que o comportamento do automóvel não será o mais são, introduz de forma instintiva um contexto novo, para num rasgo de extraordinária lucidez mandar aliviar acelerador, quando pela lógica se podia limitar ao que lhe era exigível, ditando, sem mais, "a fundo”.

Sacrificando uns décimos de segundo ao tempo final do troço (os mesmos que se perderiam caso o carro entrasse na curva em excesso de velocidade e eventualmente realizasse uma trajetória mais larga em derrapagem, já para não falar sequer numa hipotética saída de estrada), Magalhães explica após a tomada de tempos que “eu mandei-te aliviar ali por causa da reação que ele pode ter para a esquerda, estás a perceber. Isto de pneus já não está muito…”.

O detalhe da perceção do comportamento do carro a partir do banco do lado direito (algo que por definição está a cargo do piloto), é sublime.

A capacidade de, como neste exemplo, numa fração de segundo alterar o guião de prova adequando-o às circunstâncias é fascinante.

É neste género de apontamentos que os grandes navegadores fazem a diferença.

Hugo Magalhães vai chegar muito longe no seu percurso.
    

AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://16valvulas.files.wordpress.com/2013/09/joc3a3o-fernando-ramos.jpg
- http://www.raliforum.net/imagens_online/news/resumo_5_156_1_1.jpg

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