terça-feira, 25 de março de 2014

P.E.C. Nº 253: Adivinhe quem veio para ganhar!


Alguém que o conhece bem confidenciou-nos, há uns tempos, que Pedro Meireles é, enquanto pessoa, uma verdadeira ‘força da natureza’, muito determinado quando traça um objetivo e fortemente empenhado enquanto trabalha para o alcançar. 

Essas caraterísticas serão parte dos motivos que o trouxeram à liderança da classificação de pilotos do campeonato nacional de Ralis na presente temporada, volvidas duas das oito etapas da competição. 

Há pouco mais de um mês atrás, ninguém apostaria um cêntimo na possibilidade de Meireles, após Fafe e Guimarães, ser o homem a bater nas competições de estrada em Portugal, muito menos que triunfasse nas provas organizadas pela Demoporto e pelo Targa Clube

A realidade tem muitas vezes, todavia, especial talento para demolir convicções. 

O homem do Skoda S2000 cimentou em dois Ralis um avanço sólido em termos pontuais relativamente aos adversários diretos, e tem de ser considerado, por dever de justiça, um dos mais fortes candidatos ao título absoluto de 2014. 

Aos quarenta anos de idade, após uma carreira longa no tempo mas intermitente quanto a presença regular no CNR, Pedro Meireles terá entrado no ponto mais alto da sua maturidade competitiva, aquele em se intercetam sem atropelos a rapidez e fiabilidade. 

Mais que ter triunfado nas duas provas que abriram 2014, o que será importante sublinhar é a forma como esses triunfos foram conseguidos. 

Se em Fafe o vimaranense andou sempre muito perto (bem mais perto do que muitos – se calhar nós incluídos - suporiam) de Ricardo Moura pressionando fortemente o tricampeão nacional, a desistência deste facilitou a ascensão ao comando da prova, mas nem assim Meireles se deixou deslumbrar sabendo separar as águas, percebendo que Kangur era de outras contas, para gerir o andamento em função das necessidades do CNR acabando por vencer in extremis após a tomada de tempos da última especial. 

Já em Guimarães, não obstante a desistência de José Pedro Fontes e os problemas que assolaram o Fiesta R5 de João Barros, a história conta-se de forma diferente com o líder do campeonato a passar do papel de presa ao de predador

Qualquer piloto com pretensões a entrar no patamar dos grandes campeões, terá a qualquer altura da sua carreira pelo menos por uma vez (nem que seja apenas uma) de demonstrar superação. 

Terá de conseguir uma exibição que faça embaraçar os críticos e arregimentar os adeptos diretos. 

Meireles deu de caras com a sua epifania desportiva no dia 8 de março de 2014. 

À entrada para o derradeiro troço do Rali Cidade de Guimarães (‘Serra da Penha 2’), o nortenho distava 3,1 segundos da liderança da prova, pertença de Ricardo Moura

Pela frente 13,47 quilómetros. 

Um trajeto incrivelmente rápido, em vários excertos a passar entre muros e/ou casas, pouco ou nada tolerante a erros de pilotagem, portanto. 

Meireles podia ter preferido o certo pelo incerto, garantindo um segundo lugar que não só seria uma boa operação em termos de campeonato, como lhe permitiria segurar a liderança da classificação de pilotos. 

Com riscos, quis mais. 

Quis ganhar. 

Quis ganhar quando era muito fácil deitar tudo a perder. 

Querer ganhar é, aliás, justamente o mais vincado elemento distintivo entre os bons e os ótimos. 

Meireles quis, por conseguinte, ser ótimo. 

Ótimo perante outro ótimo como é Ricardo Moura

Serra da Penha 2’ foi o seu momento de arrebatamento, sobretudo na vertiginosa descida final da classificativa na qual empregou toda a sua alma (a tal ‘força da natureza’…) para vencer. 

Quando se conduz com crença e de forma determinada, as descidas parecem ganhar maior grau de inclinação.

Motivacionalmente o automóvel embala, tornando-se mais rápido. 

3,4 segundos ganhos a Moura valeriam no final do Rali, em pleno Toural, uma vitória carregada de drama e emoção pela escassa margem de 3 décimos de segundo. 

Escreveu-se o segundo capítulo de um belíssimo enredo (pelo menos até ao momento) que dá pelo nome de CNR/2014

Pedro Meireles, com a sua atuação entrou de pleno direito no lote dos protagonistas dos Ralis portugueses. 

Lá mais para o fim do ano veremos se conquista a estatueta de melhor ator…

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Nota:
- Agora que Meireles parece firme no propósito de se transformar num agente intrusivo dentro do estabilishment dos melhores pilotos portugueses, difícil, portanto, de (se) despistar, da trajetória ascensional que vem dando mostras não se pode dissociar Mário Castro, seu fiel navegador há vários anos a esta parte. O consórcio entre ambos tem funcionado muito bem, o navegador tem uma enorme experiência e serenidade nas suas funções, transmite uma confiança inabalável a quem conduz, pelo que neste aspeto em particular estão reunidas todas as condições para que o piloto vimaranense possa atingir os seus intentos no final da temporada. 




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sábado, 22 de março de 2014

P.E.C. Nº 252: Guiar com recurso à simulação e à 'revienga'



Em competição automóvel, quando ser o mais rápido possível é o que verdadeiramente importa, há diversas formas de chegar ao mesmo fim. 

Sabe-se haver pilotos meticulosos na condução e obcecados com o comportamento dos carros, para os quais qualquer palmo de escorregadela a mais é uma perda de tempo difícil de aceitar. 

São aqueles pilotos que, qual bola de futebol, guiam com o carro coladinho ao pé, tendo-o sempre sob controlo absoluto. 

Dominam o bólide suavemente, com toque curtopezinhos de lã, raramente arriscando o passe longo e por natureza incerto de uma contrabrecagem mal calculada. 

Jogam, claro, mais para o resultado que para a exibição. 

Do lado oposto exibem-se os pilotos para os quais não pode haver Ralis sem um toque de irreverência. 

Adornar um lance, uma curva que se faz a varrer a estrada com o carro de lado, ou simular uma finta dançando com o bólide durante o processo de travagem são caraterísticas que os Vatanen, Toivonen, Duez, Ragnotti, Macedo ou Teodósio (há textos sobre todos eles neste blogue) perpetua(ra)m com o seu estilo inconfundível, empolgante e arrebatador. 

Centremo-nos nestes últimos, dos quais McRae e Gigi Galli são expoentes maiores. 

Nas nossas aventuras explorando a internet, deparamo-nos recentemente com as duas fotos que replicamos neste trabalho. 

A primeira, alusiva ao escocês, foi obtida no decurso Rali da Córsega, em 1998. 

Os esgares boquiabertos de vários dos elementos do público, algures entre a surpresa e a estupefação, são, aliás, a melhor certificação de que se trata efetivamente de Colin

A imagem é o registo, talvez, de uma daquelas jogadas em o campeão mundial de 1995 era mestre, avançando decidido de encontro à curva para à entrada dela com uma finta de corpo partir os rins ao seu Impreza. 

Na segunda foto, colhida também na Córsega sete anos mais tarde, visualizamos o popular e sempre imprevisível Gigi Galli a completar um gancho como se um golo de bandeira (daqueles tipo remata-de-fora-da-área-sem-deixar-cair-no-chão-e-mete-a-bola-num-dos-ângulos-da-baliza-no-último-minuto-de-jogo) se tratasse, com direito a invasão de campo por parte da multidão em júbilo e tudo! 

O italiano, conduzindo com a extroversão que associamos aos nativos do país em forma de bota, nas suas incursões esporádicas na modalidade continua, ainda, a ser um dos raros globetrotters capaz de fazer diferente, capaz de sacar num inspirado repentismo aquela atravessadela que perdura na memória para lá do imediato. 

Os Ralis precisam deste tipo de pilotos brinca na areia, aqueles para quem conduzir em troço tem de ter, além da rapidez, uma componente de criatividade

Numa altura em que os fóruns de debate e reflexão se desdobram na procura de uma solução que traga novos (e mais) públicos aos Ralis, e quando os bólides e sua parafernália eletrónica são eles próprios quase um anticlímax da noção de espetáculo, é bom haver quem continue a trazer à estrada uma ideia de entretenimento (a noção de entretenimento e de interação com os aficionados são, aliás, os códigos que nos próximos anos podem devolver à modalidade a popularidade que teve no passado) além da competição pura e dura, quem opte por ser na classificativa o jogador vagabundo com rédea livre para conduzir como quer. 

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segunda-feira, 17 de março de 2014

P.E.C. Nº 251: Pouco PONDerado...


Qualquer piloto de Ralis que se preze tem como ponto alto na carreira a participação na prova-maior do seu país natal, sobretudo quando esta integra o calendário das grandes competições internacionais. 

É no evento ‘caseiro’ que por norma cada piloto apresenta índices acrescidos de motivação. 

O conhecimento pormenorizado do terreno é um fator que à partida pode proporcionar um bom desempenho desportivo. 

O retorno aos patrocinadores sai nestas ocasiões especialmente reforçado. 

O apoio do público e interesse mediático em torno das grandes provas, é em muitas ocasiões o elã potenciador dos bons resultados que emolduram a todo um palmarés desportivo, nem que o ‘bom resultado’ seja, para concorrentes que não possam ter veleidades a grandes ambições desportivas, pura e simplesmente chegar ao final do Rali. 

Competir no Rali disputado na nação onde se nasceu é, por outro lado, um elemento de pressão adicional. 

Com os holofotes a incidir de forma especialmente intensa nos ‘pilotos nacionais’, ali se pode conhecer a glória suprema ou as críticas mais severas. 

Ser, a título de exemplo, o melhor português no final do Rali de Portugal, é para os nossos pilotos mais qualificados um dos principais objetivos em cada época desportiva. 

Estamos em crer, portanto, que a preparação de cada piloto para a sua prova-natal é, sobretudo no plano mental, distinta da dos demais Ralis em que participa ao longo do ano. 

Falhar, sobretudo falhar rotundamente através de erros de palmatória, ganha nestas alturas uma amplificação mediática enorme. 

Não se pode por conseguinte falhar. 

Pode-se ser derrotado, caindo no anonimato. 

Mas falhar significa, pelos piores motivos, passar a andar-se nas bocas do mundo. 

Em 1984 Tony Pond era um dos mais cotados pilotos britânicos de Ralis, a par de Jimmy McRae, Wilson, Kaby ou Brookes

O programa desportivo desse ano tinha sido pouco profícuo em termos de provas, mas ainda assim com bons resultados. 

Logo no início da época, em fevereiro, nas Boucles de SPA, o inglês averbaria um ótimo segundo lugar final aos comandos do Nissan R240, sendo, no mês de setembro, terceiro classificado no prestigiado Rali do Manx, já então tripulando o Rover Vitesse SD1 que seria também a viatura ao seu dispor, em novembro de 1984, na quadragésima edição do Rali do RAC, pontuável como sempre para o campeonato do mundo de Ralis. 

A etapa britânica do mundial não era ao tempo (em rigor: nunca foi) uma prova fácil. 

Basta recordar que as refregas desportivas assentaram naquele ano em cinco longos dias de Rali (de 25 a 29 de novembro de 1984), 868,54 quilómetros (não, não é gralha…) cronometrados divididos por 56 classificativas, para uma extensão total de 3.224,54 quilómetros (pois: também não é gralha) no evento. 

A acrescer a esta maratona competitiva deveras desgastante, havia que somar as caraterísticas da generalidade das florestais britânicas, invariavelmente lamacentas e escorregadias, com o nevoeiro cerrado a fazer muitas vezes a sua aparição dificultando também ele a tarefa aos concorrentes. 

Tony Pond, profundo conhecedor do Rali, estaria seguramente avisado da necessidade de impor algumas cautelas na fase inicial da prova, quanto mais não fosse porque o automóvel que lhe estava confiado não lhe permitiria grandes veleidades para a conquista dos lugares cimeiros à chegada a Chester. 

O Rover, viatura importante em meados dos anos oitenta no contexto do automobilismo praticado em circuito fechado, era algo contratura em matéria de Ralis. 

Tinha uma distância entre eixos enorme prejudicando a sua maleabilidade e distribuição de massas, adornava em curva seguramente mais que o desejável, tornando-se tão desajustado em troços de terra quanto um catamarã a descer em rafting os rápidos do Rio Paiva. 

Não obstante tal contradição, comercialmente o carro tinha índices de venda bastante razoáveis em terras de sua majestade, pelo que colocá-lo a competir na maior prova de estrada disputada no país dos Beatles seria sempre, independentemente dos resultados, uma rentável operação de marketing. 

Seria, mas não foi. 

Num Rali em que seguramente Pond demoraria mais de dez horas a completar a totalidade das classificativas que o compunham, e quando a primeira etapa mais não era que um aquecimento de sete pequenos troços que, juntos, não perfaziam mais que 34,51 quilómetros, o inglês haveria de estar em ação apenas… 1m:40s, desistindo por despiste (documentado nas imagens que seguem) após o embate numa árvore logo na primeira especial (Knowsley, com 6,80 quilómetros).  

Rezam as crónicas que Tony ainda tentou prosseguir em prova arrastando o Rover classificativa fora, mas os danos eram irreversíveis. 

A desistência quase imediata foi, enfim, o final inglório de uma participação que antes de ser já o era, ou, melhor, verdadeiramente não o chegou a ser…

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Nota:
Alguns dados relativos à carreira de Tony Pond podem ser consultados aqui.

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A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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quarta-feira, 5 de março de 2014

P.E.C. Nº 250: Cimeira luso-galaica...


I)

Repare na ironia, caro leitor. 

Guimarães, a cidade-berço onde começou no ano 1.139 a nascer Portugal tal como o conhecemos hoje, e que simbolicamente é um marco da autonomização do nosso reino relativamente a Leão e Castela, funcionará, no próximo fim-de-semana, como o mais admirável processo de miscigenação entre Ralis portugueses e espanhóis de que há memória num passado recente.

Presentes no Rali Cidade de Guimarães estarão, além do contingente luso, quinze pilotos e respetivos navegadores oriundos de terras de nuestros hermanos, dois tripulando os Suzuki Swift S1600, e treze aos comandos dos carros da mesma marca que competem na interessante competição monomarca do país vizinho (cuja etapa de abertura da época será precisamente no nosso país), assim reforçando uma lista de inscritos que se poderá considerar muito positiva (tal como foi a do Rali Serras de Fafe), engrandecida, também, pelos concorrentes que disputam o competitivo Campeonato Regional Norte. 

Cinquenta e nove carros (dados oficiais que constam da lista provisória de inscritos fornecida pelo Targa Clube), dos mais diversos géneros e agrupamentos, a competir nas especiais minhotas é bastante apelativo, esperando-se, por isso, uma adesão massiva do público ao evento, sempre com um comportamento de acordo com os mais elementares padrões de segurança. 

Não é a primeira vez que há êxodos de pilotos espanhóis a competir nos Ralis portugueses e vice-versa (não entram nesta consideração as provas ‘mundialistas’)

Desde que há competições organizadas nos dois países ibéricos que, com maior ou menor expressão, com mais ou menos incidência, sobretudo entre o norte de Portugal e as regiões da Galiza e Astúrias, com frequência pilotos passam a fronteira para experimentar provas do país vizinho. 

Por norma tais fluxos migratórios nunca mereceram grande ênfase por parte dos media, nem possivelmente alguma vez se procurou aprofundar o contexto que ao longo dos anos tem potenciado que tal se verifique. 

Neste particular aspeto, as memórias mais longínquas que conseguimos alcançar remontam ao tempo em que Germán Castrillón, penta campeão galego de Ralis, era um habitué não só do Rali de Portugal como também de várias das nossas provas disputadas na região minhota. 

Senra e Vallejo têm encarado nos últimos anos o C.A.M Rali Festival como um evento de comparência obrigatória durante a temporada. 

A nosso ver esta partilha de experiências entre pilotos oriundos de realidades diferentes é especialmente estimulante, mais a mais por ser feita à margem de quaisquer sinergias entre as federações máximas que regem o automobilismo português e espanhol. 

No Rali Cidade de Guimarães, portanto, será bastante curioso perceber de que forma os pilotos portugueses se vão medir com os seus congéneres do lado de lá da fronteira, e como é que os homens dos Suzuki se adaptarão a troços e a uma prova que desconhecem por completo.

II) 

Da cidade do Paço dos Duques vêm, também, outras boas notícias. 

Para o primeiro Rali do ano disputado em asfalto há dois Porsche 997 GT3 a constar da lista de inscritos. 

Um deles, manuseado por José Pedro Fontes, é a arma em que o piloto do Porto confia para neste tipo de piso ganhar troços e Ralis (já o fez no Rali Centro de Portugal em 2010), como forma de atacar um título nacional que persegue há anos e lhe assentaria que nem uma luva no respetivo palmarés. 

O outro, ao dispor de Carlos Oliveira, que seguramente sem outras ambições que não seja andar o melhor possível, ainda assim tem na viatura uma das mais dignas formas de assinalar a contento os vinte e cinco anos de carreira do navegador José Janela

um número considerável de aficionados que depreciam os Porsche

Não são carros pensados e construídos para Ralis, dizem. 

Nós, 'Zona-Espectáculo', gostamos dos Porsche

Muito

Não é só por se tratar de um dos mais extraordinários automóveis produzidos em todo o mundo, nem por ser um ícone transversal a diversas gerações de condutores que o elevam à condição de objeto de culto. 

nos Porsche que competem nos Ralis algo de sedutoramente provocante. 

Aquela voz de contratenor, aquele ribombar poderoso que se faz ouvir classificativa fora, é hoje uma deliciosa subversão ao irritante e efeminado falsete que tomou de assalto as cordas vocais dos demais carros de Rali. 

Avesso a modas e tendências, passam anos, passam décadas, mas a criação da casa de Zuffenhausen mantem incólume um caráter duro e determinado, embora íntegro, sem conceder na silhueta de sempre ou na tração posterior que o distingue. 

Não faz parte do lote de heróis desta modalidade como o Stratos, o Quattro, ou o Impreza, incorporando melhor o papel de vilão insubmisso e desregrado mas de longevidade inquebrantável. 

De Vic Elford ao malogrado Henri Toivonen, ou de Américo Nunes a José Pedro Fontes, os Porsche (911, 997, ou qualquer outra designação, não são mais que diferentes pseudónimos para encobrir o mesmo ADN) andam nestas andanças dos Ralis há muitos anos. 

De lado, claro. 

III)

Recentrando-nos no Rali Cidade de Guimarães, como desenvolvemos mais acima há ótimos motivos para seguir a prova com a maior das atenções, nos troços vendo as máquinas em ação, ou à distância com os olhos pregados no monitor à procura de atualizações dos tempos on line

O campeonato nacional de Ralis neste início de temporada encontra-se, aliás, numa fase de grande ebulição mediática. 

Todos os dias deparamo-nos com renovadas notícias, está a ser dada a palavra aos protagonistas da modalidade com uma cadência de absoluto ‘maximum attack’, e, em suma, há um ressurgir do interesse pela competição como há um bom par de anos não se assistia. 

A somar a tudo isto, no plano da competição pura e dura, os despiques pelas melhores posições em cada uma das classes de carros estão francamente abertos, segundo a segundo, metro a metro. 

emoção, há projetos, há coisas a acontecer quase todos os dias, o que, tudo somado, é, neste contexto complexo do nosso país, o melhor que a modalidade podia desejar. 

Sábado, nas especiais desenhadas entre dois dos maiores símbolos (Santuários do Sameiro e da Penha) das duas maiores cidades do Minho (Braga e Guimarães), o Rali Cidade de Guimarães, agora na sua 2.ª edição, procura afirmar-se no contexto dos Ralis nacionais servindo ao mesmo tempo de elemento moderador a duas urbes que rivalizam, também elas, na procura de afirmação no quadro do norte de Portugal e noroeste da Península Ibérica. 

Pedro Meireles, líder do campeonato, está porventura no melhor momento da carreira e terá encontrado o ponto mais elevado da sua maturidade competitiva (aquele em que se conjugam equilibradamente e na perfeição consistência e rapidez), tem os índices de motivação perto do red line, pelo que é natural favorito ao triunfo. 

A correr atrás do prejuízo após abandonos em Fafe, Ricardo Moura, João Barros e José Pedro Fontes são (sempre) também fortíssimos candidatos à vitória, tendo seguramente menos a perder que o homem do Skoda branco, verde e negro. 

E não se menospreze o Aduzer, que andará (ao ataque) também por lá e não negligenciará qualquer oportunidade para roubar (a ocasião faz o 'ladrão'…), não automóveis, mas antes o lugar mais elevado do pódio aos adversários, ou o Teodósio que é sempre sinónimo de trabalhos redobrados e elevados prejuízos para repintar traços e tracejados das estradas por onde passaram os Ralis em que se inscreveu…

IV)

Informação sobre a prova poderá ser consultada no site do Targa Clube, organizador da prova (ver aqui).



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sábado, 1 de março de 2014

P.E.C. Nº 249: Lições a tirar a partir do Confurco e arredores...


Não é nossa função utilizar este blogue para fazer crítica pela crítica. 

Somos os primeiros a aceitar que na organização de Ralis, sobretudo em eventos já com dimensão apreciável e quando se sabe de antemão haver tantas e tantas matérias a equacionar, é praticamente impossível haver provas nas quais não hajam erros ou, pelo menos, detalhes que se revelam impossíveis de prevenir com antecedência. 

Merece-nos respeito total quem, tantas vezes por mera carolice, investe parte do seu tempo a colaborar ativamente para que um Rali seja bem-sucedido do ponto de vista organizativo. 

Portugal tem uma enorme experiência nesta modalidade, e seguramente muita gente bastante qualificada para ajudar a que determinada prova chegue a bom-porto, ou seja, sem falhas de maior a registar. 

No último fim-de-semana começou a temporada do campeonato nacional de Ralis com a disputa do Rali Serras de Fafe, levado para a estrada pela Demoporto

Se na região demarcada de Fafe as peripécias, emoção e espetacularidade do evento foram capazes desportivamente de produzir um VQPRD para recordar por muito tempo, já em alguns itens do caderno organizativo houve notórias falhas, algumas graves, porventura pouco consentâneas com uma etapa da competição maior das provas de estrada no nosso país. 

À altura em que redigimos o presente texto a Demoporto ainda não reagiu ao grosso das críticas que lhe têm sido endereçadas, desconhecendo-se publicamente, portanto, a sua visão dos acontecimentos. 

O caudal de reparos tem vindo a aumentar à medida que os dias passam e, em linhas gerais, bate na falta de promoção mais eficaz do evento nos dias que o antecederam (pode-se tomar por ponto de comparação o exemplar trabalho que nessa área foi feito pelo Clube Automóvel do Algarve aquando da preparação do Rali Casinos do Algarve de 2013, para todos os efeitos o evento que em termos de CNR cronologicamente antecedeu o do passado fim-de-semana), o colapso absoluto da informação dos tempos online (de que o comunicado oficial lançado para a comunicação social em resposta às críticas é atabalhoado e tudo menos convincente), o facto dos carros ‘0’ terem em alguns dos casos feito mais uma sessão de testes que uma aferição das condições de segurança e operacionalidade dos troços, incidindo as críticas também em erros de impressão dos roadbooks no capítulo das ligações que viriam a privar concorrentes de prosseguir em prova, pilotos que terão tido acidentes, conseguido retomar a prova, para chegarem ao controle final de troços e alegadamente não encontrarem rigorosamente ninguém, passando, por fim, por diversas questões no plano da segurança que visivelmente não funcionaram como seria expectável

É neste último capítulo que nos pretendemos para já focar. 

É sabido que os clubes organizadores de Ralis têm na sua maioria enfrentado nos últimos anos problemas graves de tesouraria. 

Os tradicionais parceiros institucionais, sobretudo os municípios, estão exauridos financeiramente. 

As empresas desinvestem no volume de patrocínios e na publicidade. 

As listas de inscritos são cada vez menos expressivas. 

Num contexto com tantas interrogações, sabendo-se até que corre de boca-em-boca haver diversos Ralis por esse país fora que se saldam em prejuízo financeiro, a tendência que tem vindo a fazer caminho é aligeirar as questões de segurança, sobretudo reduzindo no policiamento como forma de estancar custos, facto crescentemente notório quando se vai aos troços das provas nacionais, exceção feita ao Rali de Portugal. 

Em Fafe o capítulo da segurança teve falhas graves. 

O muito público que seguiu o evoluir dos carros em Montim, Lameirinha, Luílhas ou São Pedro revelou em vários locais um retrocesso de anos em matéria comportamental, facto que a Demoporto não antecipou e não conseguiu já no decurso da prova estancar. 

Trabalhar em matéria de segurança no fio-da-navalha é um risco elevado, que tragédias do passado recomendam ser de evitar. 

O que se passou em Fafe é, pois, um sinal de alerta. 

Que deve estar bem presente na mente dos organizadores de provas futuras e do qual, confiamos, a Demoporto saberá extrair as necessárias ilações. 

À margem das disfunções verificadas na prova de abertura do campeonato nacional de Ralis, haverá porventura diversas outras questões que se colocam, sobretudo no plano da legitimidade e/ou da licitude. 

Fazer em Ralis em Portugal dentro de parâmetros razoáveis de competitividade é caro. 

Aliás, é cada vez mais caro. 

A nosso ver, desproporcionalmente caro para o retorno que na esmagadora das situações a modalidade proporciona. 

Daí que se coloquem interrogações em torno de se saber, por exemplo, se será lícito pedir cada vez mais dinheiro a quem participa nos Ralis nacionais, e em troca oferecer-lhe um serviço progressivamente menos qualitativo em aspetos nucleares como a segurança. 

Ou se é legítimo, por exemplo, haver projetos para competir orçados em dezenas de milhares de euros, e em dada prova ser prejudicados desportivamente por erros (ainda que por mera negligência) no plano organizativo, que depois podem porventura ter reflexos negativos na classificação final de um campeonato. 

Estas são algumas das questões estruturantes que estão em cima da mesa quanto ao futuro dos Ralis portugueses a médio e longo prazo. 

São matérias que a FPAK deveria avocar e lançar a debate alargado na procura das melhores soluções para quem compete e quem organiza. 

Começa a tornar-se costumeiro um manto de silêncio por parte da entidade federativa quando a polémica estala, num vício espúrio que vem alastrando de há muitos anos a esta parte. 

Não se conhecem os motivos (pode eventualmente havê-los, e até bem plausíveis, quem sabe…), voltamos a insistir, pelos quais o Rali Casinos do Algarve foi expurgado do calendário do CNR para 2014. 

Não se sabe o que Manuel Mello Breyner e Joaquim Capelo pensam acerca do coro de críticas que se tem vindo a levantar sobre algumas lacunas organizativas havidas no Rali Serras de Fafe

À velha boa maneira da política e do taticismo que a caracteriza, parece que a estratégia utilizada passa por calar para fazer esquecer

A questão é que por cada dia que passa sem que Breyner ou Capelo falem, são 1.440 minutos adicionais de mau serviço prestado à modalidade.

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