domingo, 14 de setembro de 2014

P.E.C. Nº 278: (In)justiça de Fafe...


I)

Dobrada a fasquia dos quarenta anos, Zona-Espectáculo em matéria de Ralis não tem nesta altura ídolos que venere incondicionalmente. 

É da vida: o avançar da idade traz invariavelmente maior sabedoria, bem como uma certa bonomia e relativização na avaliação das coisas. 

Hoje, por exemplo, não nos estimula discutir se é melhor o Munari ou o Ogier, nem entramos em exercícios de comparação sobre a nota artística de António Coutinho ou Ricardo Teodósio

Dream-team de pilotos ao serviço da Citroen?

Loeb e Victor Calisto, pois claro!

Serve esta introdução para dedicar algumas linhas a Mário Castro, mais concretamente à hipótese que tem de se sagrar pela primeira vez na carreira campeão nacional de Ralis (na competição reservada aos navegadores) em termos absolutos, eventualmente já em Mortágua, próxima e antepenúltima etapa do calendário de 2014.

Não conhecemos pessoalmente Mário Castro, nem tão-pouco António Costa, o seu adversário direto na luta pelo título de copilotos.

Nada nos liga em especial a qualquer um deles, à exceção do profundo respeito que temos pelas respetivas carreiras e palmarés.

São ambos parte integrante e membros destacadíssimos do lote dos melhores navegadores nacionais de Ralis (no caso de Castro, com incursões também ao todo-o-terreno), e nessa medida é-nos indiferente qual dos dois sairá deste final de temporada com mais motivos para sorrir.

Garantida a presença de Mário em Mortágua (que até dias recentes era incerta, face à ausência anunciada de Pedro Meireles), e sem que se saiba se António alinhará à partida da prova do Clube Automóvel do Centro (ao momento em que escrevemos estas linhas é ainda desconhecida a lista oficial de inscritos), o roadbook do título de navegadores deste ano começa a ter muitas setas a indicar a direção de Fafe.

Caso consiga averbar o cetro (bastará alinhar à partida do Rali de Castelo Branco, algo que, quem sabe, a própria Sports & You poderá se necessário viabilizar sentando-o no Porsche 997 GT3 ao lado de José Pedro Fontes, assim os patrocinadores do carro alemão o avalizem) Mário Castro chegará ao ponto mais alto da sua já longa carreira de vinte anos nestas andanças.

Uma vez que a avaliação do trabalho do navegador depende em última instância da rapidez e resultados do respetivo piloto, é-nos muito difícil, senão mesmo impossível, referir se o título de 2014 assenta melhor a Castro ou a Costa.

Por outras palavras: qual deles navegou melhor até ao momento?

Não podemos de forma alguma precisar.

É um facto que Pedro Meireles conseguiu até à data um conjunto de resultados soberbo (conquistou com muito mérito o título de pilotos por antecipação) em muito ajudado pela parceria estável com Mário Castro.

Mas pode-se partir daí para concluir, sem mais, que António Costa, atual detentor do cetro, navegou pior Ricardo Moura?

Não nos parece.

Caso o título de navegadores caia, como tudo o indica, na estante de troféus de Mário Castro, será o corolário de um longo percurso feito de muito apego a este desporto, sempre com enorme humildade e vontade de progredir.

O atual pendura de Pedro Meireles é, sabe-se, uma das personagens mais estimadas dentro do paddock dos Ralis nacionais, além de extremamente respeitado pela grande qualidade do seu trabalho.

Caso se carimbe o título máximo de navegadores de 2014 a Mário Castro, independentemente de se discutir a respetiva justeza (embora nos pareça que assentará como uma luva ao copiloto de Fafe, pelos resultados que tem averbado até ao momento) estamos em crer que será acima de tudo a ‘correção’ de um certo sabor a injustiça (pelo menos no plano material) relativamente a ocorrências verificadas há seis anos.  

II)

No início da temporada de 2008, Mário Castro já era unanimemente considerado um dos mais conceituados navegadores nacionais.

Nessa medida, foi sem surpresa que a estrutura da Peugeot Portugal (Carlos Barros sempre contratou com base em padrões de excelência) o requisitou para, substituindo Paulo Grave, acompanhar Bruno Magalhães na tentativa de revalidação do título obtido na época anterior.

Integrado numa equipa oficial, com responsabilidade e pressão de vencer, Castro deu logo nos primeiros Ralis do ano resposta clara de que era valor acrescentado para a equipa, adaptando-se na perfeição ao elevado grau de exigência para triunfar ao lado de Bruno nos Ralis Torrié e do Futebol Clube do Porto, sendo a dupla sexta classificada final no Rali de Portugal (do qual disputaria a liderança na fase inicial) e a melhor posicionada no sempre importante ranking dos concorrentes nacionais.

Um controlo antidoping realizado em meados de abril desse ano, no decurso do Rali do F.C.P, terá acusado substâncias proibidas pelo regulamento no organismo de Mário Castro, que afinal mais não eram que parte da composição química de um tónico capilar de que o navegador se socorria para combater a perda de cabelo.

Em junho, o Conselho Disciplinar da F.P.A.K ‘suspendia preventivamente’ Castro de toda a atividade desportiva, e em meados de setembro o navegador fafense viu ser confirmada a sanção, pelo que apenas pode retomar o seu trabalho em dezembro, já após o fecho do ano desportivo.

Das pesquisas que encetámos procurando aprofundar o assunto, e cingindo-nos apenas ao que é conhecido publicamente uma vez que não acedemos à documentação junta e ao teor da decisão constante do processo disciplinar em apreço, fica a ideia que ao tempo, talvez por estar num lugar deveras apetecível, Mário Castro terá tido muito pouco apoio (mesmo dentro dos seus pares) e solidariedade institucional, ficando sozinho a pagar as despesas da situação.

Algumas (poucas) palavras de circunstância lamentando o sucedido, foi o melhor que conseguimos encontrar nas notícias produzidas na altura.

Ninguém se pronunciou sobre a moldura sancionatória aplicada a Castro (percebe-se ter sido claramente exagerada e sobretudo muito pouco pedagógica, atendendo a não ter havido qualquer espécie de dolo ou má-fé), nem a F.P.A.K, dentro do obscurantismo em que caminhava nesses anos, se dignou esclarecer publicamente de que forma é que a substância proibida (hoje, curiosamente, já não o é…) beneficiou física ou mentalmente as prestações desportivas do atleta.

Mesmo dando de barato que a substância encontrada constava efetivamente do rol de proibições nesta matéria, volvidos seis anos fica a convicção de não se ter de forma alguma produzido uma decisão equilibrada e sábia, ainda que porventura fundamentada do ponto de vista legal.

Mário Castro viu-se irremediavelmente afastado da melhor equipa portuguesa de Ralis de então, e a forma séria e digna com que sempre pautou a sua postura na modalidade nem sequer foi aparentemente tida em consideração pelos instrutores do processo.

Então com trinta e três anos, viu ficar para trás a possibilidade real de internacionalização da carreira, que viria, porém, a ter continuidade dentro de portas, primeiro com Victor Pascoal e, desde 2011, com Pedro Meireles.

O estranho caso de 2008 caiu com o passar do tempo nos confins do esquecimento coletivo, não obstante perdurar na memória pessoal do homem de Fafe.

É o próprio que, sobre o episódio, na primeira palavra e em discurso direto confessamente diz:

Tive muitos bons momentos na minha carreira, mas para poder ser sincero na minha resposta há infelizmente um que se sobrepõe a tudo de bom que conquistei e que ainda hoje não consigo passar um dia sem pensar nele. Foi a minha pena suspensa por resultado positivo no controle anti-doping em 2008 e que se fosse hoje não seria penalizado uma vez que o medicamento que estava a tomar já não consta na lista de substâncias proibidas. Não posso afirmar que viria a ter uma carreira melhor sem este acontecimento, mas uma coisa é certa, tudo aquilo que eu trabalhei e dei da minha vida para alcançar o topo nos ralis ruiu completamente e por muito que possa ainda vir a conseguir no futuro, aquilo que perdi com essa situação nunca mais irei recuperar.” 


No início deste trabalho deixámos a ideia, que mantemos, de nos ser indiferente ser Mário Castro ou António Costa a conseguir o título de navegadores na época em curso.

Mas não escondemos, porém, ser-nos muito simpática a ideia do pendura fafense conquistar o troféu, como forma de amenizar (nunca compensar) a situação com um travo amargo a injustiça, contornos algo estranhos e demasiada opacidade de que foi alvo há meia-dúzia de anos.

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Nota:

- Costa e Castro são parte integrante do conjunto formidável (quer na qualidade, quer na quantidade) de copilotos portugueses. Se a nível de pilotos há no nosso país um grande manancial de talentos, sublinhamos todavia, porque nos parece importante realçá-lo, que a qualidade dos nossos melhores navegadores não lhes fica nada atrás, bem pelo contrário.

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sábado, 13 de setembro de 2014

P.E.C. Nº 277: Direito à diferença!


As cúpulas dos Ralis andam à procura de definir o enquadramento regulamentar que regerá o campeonato do mundo a partir do final de 2016.

Seja quanto à filosofia dos carros ou quanto ao modelo das provas, nesta matéria sobra em sugestões aquilo que falta em termos de estratégia a seguir.

Promotores e marcas estão longe de se entender.

A FIA parece não ter uma linha de rumo clara, pois tão depressa advoga um regresso aos ‘Ralis maratona’ como logo de seguida se enamora por modelos compactos como o 'Fafe Rally Sprint'.

É neste mar de indefinições que atualmente navega o WRC, colocando-se enormes desafios à modalidade para recuperar a forte ligação aos adeptos que já teve noutros tempos e noutras eras.

Sem estabilidade regulamentar nem planeamento atempado, é natural que os construtores se retraiam em apostar no desporto que seguramente melhor poderá ligar uma imagem de sucesso aos produtos que produzem tendo como destinatário o automobilista comum.

Segundo tem sido ventilado na imprensa da especialidade, oitenta milhões de euros (valor que a Hyundai alegadamente investiu neste seu regresso ao mais alto nível) será a bitola para se entrar no clube muito exclusivo do campeonato do mundo de Ralis.

Bastante dinheiro para tão poucas garantias de retorno.

Se há mais importante competição automóvel em estrada aberta do globo deparam-se uma série de desafios a médio-prazo, na sua linha de descendência, o WRC2, os carros com a nomenclatura R5 parecem não estar a conseguir o propósito inicial de se substituírem com vantagem (leia-se custos de aquisição e manutenção) aos S2000, não obstante serem bons canais de negócio para Ford, Peugeot, Citroen, e em breve, Skoda (as marcas com bólides já no terreno ou em fase de testes), com muitas unidades vendidas por esse mundo fora nos campeonatos onde são aceites.

O enquadramento atual sendo complexo, não é, todavia, de molde a referir-se que há uma crise nos Ralis, no sentido de por em causa os alicerces da modalidade.

, parece-nos, a chegada a uma encruzilhada de caminhos que podem ser seguidos, quase todos com muitas incógnitas e destino incerto.

Numa altura em que os decisores parecem não saber muito bem que tonalidades dar a este desporto num futuro que nem está assim tão distante, é a própria modalidade, dentro de si, que regerando-se está a procurar com imaginação e engenho, ao reencontro do seu próprio passado, encontrar respostas aos desafios que se lhe deparam.

Quatro projetos que primam pela ‘diferença’ a seguir com atenção nesta área: 


- O Volkswagen Polo N1 (muito bem) preparado por Amador Vidal aqui mesmo ao lado, na Galiza, e visto no Rali de Viana do Castelo em junho passado, que reunindo vários mundos (ver ficha técnica) é um carro muito competitivo, espetacular, e insubmisso quanto à ‘ordem instituída’ pela FIA para as competições de Ralis disputadas na Europa;



O Ford Fiesta R5 movido a GPL (com a inovação do sistema de injeção direta do gás LDI) da equipa BRC, projeto liderado por Gabriele Rizzo que faz correr Giandomenico Basso no campeonato italiano de Ralis (é terceiro na classificação de pilotos a escassos três pontos da liderança, tendo em 2014 averbado vitórias em San Remo e na Sardenha), que não perdendo em competitividade ganha (e muito…) no sempre importante item dos encargos com o combustível para automobilismo;



- O Toyota GT-86 da categoria R3, que recentemente, como carro ‘0’, se mostrou pela primeira vez ao grande público no Rali da Alemanha com Isolde Holdried ao volante, naquele que é, aliás, o regresso da marca nipónica aos tração traseira no WRC após o saudoso Celica Twin Cam Turbo, e que, além do já anunciado troféu para Ralis a disputar em solo alemão, se adivinha poder-se tornar um sucesso de vendas numa categoria muito popular pela conjugação particularmente conseguida entre boas performances e custos razoáveis;



- O Porsche 997 GT3 com especificações para piso de terra que apareceu no Rali da Finlândia pelas mãos de Jani Ylipahkala.

As prestações não foram entusiasmantes, a fiabilidade deixou a desejar, mas ainda assim foi um começo.

Um começo deveras tímido, mas um começo.

Ou melhor: um recomeço.

Um recomeço a partir do que se perdeu em meados dos anos oitenta: carros de tração traseira a evoluir irrequietos e gingões em classificativas de terra por esse mundo fora a bem do espetáculo.


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AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- https://www.facebook.com/gt3rally/photos/pcb.549342725192161/549341961858904/?type=1&theater
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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

P.E.C. Nº 276: Armamar (II); ligando a máquina do tempo!



No trabalho anterior abordámos o contexto em que a classificativa de Armamar surgiu enquadrada no mapa genético do Rali de Portugal, com interregnos em algumas edições da prova, entre 1976 e 1992.

Desenhámos o mapa do troço, mostramos imagens do respetivo trajeto, e compilámos a informação estatística mais relevante das catorze ocasiões em que os bólides do campeonato do mundo de Ralis, além do contingente luso, por ali passaram.

Na segunda e última parte dedicada à especial de Armamar, fazemos o exercício comparativo entre fotos dos bólides do nosso contentamento a evoluir na classificativa e imagens dos mesmíssimos locais colhidas nos dias de hoje.

O primeiro antes & depois, que abre a presente P.E.C, revela-nos Didier Auriol e Bernard Occelli no Lancia Delta Integrale em percurso de ligação mas já no interior de Folgosa do Douro, a escassas centenas de metros do início da classificativa.

Corria o ano de 1989.

Estávamos na vigésima terceira edição do evento.

No momento em que a dupla de pilotos franceses se aproximava do início do troço (instante do qual a foto nos dá conta) já em processo de concentração, não imaginaria que cerca de dez minutos mais tarde seria declarada a mais rápida a cumprir o trajeto, vencendo-o e estabelecendo um novo record com a marca de 6m:39s para cumprir a extensão de 9,30 quilómetros. 


A segunda foto promove um recuo considerável no tempo, conduzindo-nos ao primeiro ano (1976) em que Armamar integrou o corpo de especiais do Rali de Portugal.

Ove Andersson, navegado por Arne Hertz, aos comandos do inevitável Toyota cumpre na foto a primeira curva da classificativa, pouquíssimos metros após o local de ordem de partida, à saída de Folgosa do Douro.



A última foto, colhida lá mais em cima, na penúltima curva da especial e já nas imediações da vila de Armamar, reporta-se de igual forma à edição de 1976 do Rali de Portugal.

É o espanhol Benigno ‘Beny’ Fernández, acompanhado por Miguel Brasa (tripulando um BMW 2002 Tii), que vemos a negociar a saída da curva da capela.


Ao contrário da aldeia de Folgosa do Douro que ainda mantem muitos dos traços de há trinta e oito anos atrás, já a estrada que liga Tabuaço a Armamar (percorrida nos 3,5 quilómetros finais da especial) é hoje diametralmente diferente (a comparação de fotos é particularmente elucidativa, pensamos), evoluindo de uma estrada estreita em terra batida para uma via moderna de duas faixas bem delimitadas e com bom piso.


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Foram estas (entre outras) as aventuras a que nos dedicámos em tempo de férias e que resultam neste e no trabalho anterior, para os quais foram absolutamente decisivos o David Matos (na recolha de imagens) e o João Costa (na recolha e tratamento de informação), aos quais de novo agradecemos a grande e decisiva colaboração prestada.


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AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://images.forum-auto.com/mesimages/316097/Auriol21.jpg
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