domingo, 18 de janeiro de 2015

P.E.C. Nº 287: O primeiro grande vencedor do Rali de Portugal / 2015 é...


Após rios de tinta e infindáveis páginas de polémicas, foi desvendado na passada segunda-feira o desenho do Rali de Portugal, a disputar entre 21 e 24 de maio próximos. 

Dentro da informação que foi sendo veiculada nos últimos meses na imprensa e redes sociais, e sobretudo a partir do momento em que foram reveladas as autarquias que integram o lote de apoiantes financeiros e institucionais do evento, acaba por não ser especialmente surpreendente o formato que o ACP escolheu para a quadragésima nona edição da prova. 

Recuperadas as superespeciais de 'Baltar' (para o shakedown) e de 'Lousada' (para a primeira classificativa do evento, à guisa de aperitivo para o restante Rali), ambas de ótima memória para os adeptos e funcionando desde logo como um sinal claro que o Rali quer ir à procura dos pontos referenciais do seu passado, há na sexta-feira (22 de maio) um conjunto de três especiais com dupla passagem a disputar no triângulo composto por Viana do Castelo, Caminha e Ponte de Lima (os troços terão precisamente a designação dessas edilidades) tendo a Serra de Arga como pano de fundo, sendo que ‘Viana do Castelo’ (18,79 quilómetros) recuperará partes da antiga classificativa de Santa Luzia, ‘Caminha’ (18,05 quilómetros) tem feições muito parecidas com o outrora troço de Orbacém, e ‘Ponte de Lima’ (27,45 quilómetros) relembra ao mundo o caráter difícil que sempre caracterizou a lendária especial de São Lourenço

No sábado (23 de maio), o Rali inflete ao interior do norte de Portugal, já no limiar de Trás-os-Montes. 

A evocação do passado continuará, porém, na ordem do dia. 

Se ‘Baião’ (18,57 quilómetros) beberá inspiração nos troços que se conheciam sob a designação de Aboboreira e/ou Carvalho de Rei, já ‘Amarante’ (37,67 quilómetros, a especial com maior extensão do Rali) não deixará de revisitar partes da antiga classificativa do Marão, acreditando-se que ‘Marão’ (27,64 quilómetros) possa constituir em larga medida terreno virgem e o grande fator de novidade do Rali em termos de percurso, quem sabe afagando carinhosamente, volvidos muitos anos, excertos da antiga classificativa da Senhora da Graça

Baião’, ‘Amarante’ e ‘Marão’ serão percorridas de igual forma por duas vezes. 

No domingo (24 de maio), as exigências televisivas ditam a necessidade de percorrer ‘Fafe’ (11,15 quilómetros) em duas ocasiões, a última delas coincidente com a power stage e o final do evento, intervaladas por uma única passagem pelo seletivo troço de ‘Vieira do Minho’ (32,35 quilómetros) que emula muito daquilo que se tornou lenda sob a designação de Cabreira. 

O Rali prevê 354,35 quilómetros cronometrados, bem como 1.529,43 quilómetros de extensão total que os concorrentes terão de cumprir.

Sobre este formato várias notas, necessariamente breves. 

O modelo da próxima edição da prova exprime a interpretação serena e realista que Pedro de Almeida faz dos constrangimentos que a FIA impõe em matéria de organização dos Ralis do WRC, que aliás, ainda que a sul, já conhecíamos do ano passado. 

Teremos de novo dezasseis classificativas no total do Rali, correspondentes a uma superespecial de abertura (antes Lisboa, agora, em ‘recinto fechado’, no eurocircuito de Lousada), seguida de dois dias, sexta e sábado, com dupla passagem por três troços diferentes, para tudo acabar no domingo com uma dupla passagem por uma especial com pouco mais de dez quilómetros (a última delas correspondente à power stage televisionada do evento) intercalada por um único troço (São Brás de Alportel em 2014, ‘Vieira do Minho’ em 2015), sendo que inclusive a passagem terra-asfalto-terra capaz de atrair milhares de espetadores (dando por conseguinte um ótimo boneco televisivo, dentro do propósito de ‘levar o Rali de Portugal para junto dos adeptos’) que em anos anteriores conhecemos no gancho de Cortelha, será agora, claro, teletransportada diretamente para o Confurco. 

Há em nossa opinião pouco Fafe no Rali de Portugal de 2015, talvez a maior lacuna a apontar ao esquema competitivo do evento. 

Uma das grandes catedrais dos Ralis em Portugal, que se celebrizou pelo excelente desenho dos troços, bom piso, e o seletivo sistema de rounds, confina-se agora à Lameirinha, esquecendo Luílhas (classificativa da nossa predileção), Montim ou Lagoa, algo que nos parece francamente redutor. 

Já sexta e sábado levam a caravana até locais excecionais para a prática de Ralis e que se julgavam já algo perdidos para a modalidade, prometendo grande espetáculo de condução e emoções fortes para a enorme falange de aficionados que se deslocará ao norte do país para seguir de perto a arte dos melhores pilotos do mundo. 

No regresso do Rali de Portugal às regiões do Minho e Trás-os-Montes, volvida década e meia de ausência daquelas paragens, emerge obviamente um nome.

Mais que de qualquer outra pessoa, este é obviamente o Rali de Carlos Barbosa, o Rali que Carlos Barbosa quer, e o Rali para o qual Carlos Barbosa deu de penhor, interna e externamente, a sua reputação e credibilidade.

Independentemente daquilo que vier a ser a avaliação final do evento, até lá será seguramente o seu nome (simpatize-se ou não com a maneira como intervém publicamente) a estar em alta.

A forma como decorrer a prova em 2015, designadamente na questão sempre premente da segurança, ditará, porém, o futuro do Presidente do ACP no contexto do automobilismo.

Não há meio-termo.

Se existirem percalços com público ou concorrentes fica em xeque e especialmente comprometida a posição daquele que é o Presidente da Comissão WRC da FIA, não deixando seguramente de haver quem lhe lembre a ausência de contratempos que marcam a história de dez anos de Rali de Portugal no Baixo Alentejo e Algarve.

Se tudo correr bem (Pedro de Almeida é, ao fim ao cabo, em termos práticos o grande seguro de vida institucional de Carlos Barbosa), como todos esperamos, o líder máximo do ACP terá toda a legitimidade para cantar vitória e colher sozinho os louros da sua aposta.

Para já, com a confirmação da realização da prova na região norte (de que muitos, nós incluídos, chegaram a duvidar tamanhos os ziguezagues dados durante o percurso que a trouxe até aqui), há alguém que pode para já cantar vitória, e esse alguém é, reconheça-se, Barbosa.

Entendemos que Carlos Barbosa apresenta muitas vezes dificuldades em selecionar convenientemente o tempo e o modo como comunica.

Cultiva um estilo polémico, a espaços truculento, que em nada ajuda a estabelecer um clima favorável junto de boa parte dos decisores políticos, logo num evento que ajuda a promover a imagem do país no exterior e nessa medida precisa de dinheiros públicos.

Nos últimos anos o líder do ACP abriu frentes de guerra com municípios (a Câmara Municipal do Porto é o exemplo de maior vulto), com regiões de turismo, com organismos públicos, com ministros e secretários do estado, partidos políticos, ou, mais recentemente, com a própria FPAK.

À exceção da grande massa dos adeptos de Ralis, contra (quase) tudo e contra (quase todos) o Rali de Portugal de 2015 está aí.

Dentro da premissa e intenção de ‘levar o Rali de Portugal para onde está a paixão pelo automobilismo’, ideia (algo espúria, a nosso ver), aliás, apadrinhada com o beneplácito de Todt, acreditamos que em maio próximo a prova irá ser um sucesso em termos de adesão do público, se por ‘sucesso’ entendermos um grande número de pessoas, algo que não significa necessariamente adeptos. 

Pedro de Almeida sabe o que faz, é da sua pena que tem saído desde há vários anos um dos Ralis melhor organizados em todo o calendário do WRC, designadamente no item da segurança, e já terá antecipado todos os cenários possíveis no que se prende com o comportamento do público, ainda que perante centenas de milhares de espetadores possam sempre haver comportamentos irresponsáveis e difíceis de prever. 

Do norte, do centro e do sul de Portugal, da Galiza, das Astúrias, enfim, do mundo, estará muita gente (muita mesmo) a assistir ao evento, e nessa medida e desse ponto de vista não será arriscado antecipar que a edição do corrente ano do Rali de Portugal vai ser um grande sucesso; deseja-se é que não venha a ser, por postura indevida do público, ‘vítima’ do seu próprio sucesso.

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A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.dn.pt/desporto/outrasmodalidades/interior.aspx?content_id=3297077

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