P.E.C. Nº 289: Meter o Rossio na Rua da Betesga?...


Além de vários outros argumentos, o ACP tem insistido publicamente que a passagem do Rali de Portugal para o norte do país a partir de maio próximo tem como propósito levar o evento até onde está alegadamente o grosso da paixão dos adeptos pela modalidade no nosso país.

O conceito de adepto é uma abstração onde cabe quase tudo, desde o compulsivo aficionado que calcorreia a pé quilómetros sem fim, espera horas a fio, tudo pelo genuíno prazer de assistir a uma sequência de curvas onde os pilotos dão azo à sua qualidade de condução, até aqueles que jocosamente são apelidados de ‘festivaleiros’, figuras que não cultivam qualquer fervor pelos Ralis, que se integram na multidão que ladeia a classificativa sem muitas vezes saber qual o carro ou o piloto que acabou de passar, não esquecendo os casos ainda mais extremos que nem sequer veem ou se apercebem que os carros estão a passar.

Os Ralis são, todavia, isso mesmo: uma expressão interclassista que acolhe todos os credos e gostos por igual, sem distinções de género ou espécie.

É expectável (diríamos mesmo ser uma certeza) que na próxima edição da prova irão afluir multidões incomensuráveis às classificativas do norte do país.

A região que ainda há não muitos meses Carlos Barbosa apelidava de ‘capital mundial dos Ralis’, vai seguramente viver quatro dias de frenesim como há catorze anos não via em matéria de automobilismo, não só devido aos aficionados portugueses como também os oriundos de vários outros pontos da Europa, sobretudo, naturalmente, de Espanha.

Se a amostra do final dos anos noventa e início do século XXI servir de exemplo (parece-nos um barómetro válido, porventura ‘agravado’ pelos novos seguidores que o WRC conseguiu entretanto arregimentar), concluir-se-á que as especiais nortenhas vão acolher diariamente uma moldura humana de (pelo menos) centenas de milhares de espetadores, ótima para os bonecos televisivos e para a estratégia de diferenciar a nossa prova de várias outras do calendário do campeonato do mundo, olhadas com enorme indiferença pelas populações dos países onde se disputam.

Este enquadramento levanta, no entanto, uma série de questões que desembocam numa interrogação central: como garantir, neste quadro, elevados patamares de segurança a espetadores e concorrentes, e, em simultâneo, que estratégia adotar para que consiga controlar com o mínimo de eficácia o comportamento (não raras vezes volátil e imprevisível) de tantas pessoas em simultâneo.

Acreditamos que esse item do caderno de encargos da prova esteja por esta altura a causar vários cabelos brancos a Pedro de Almeida e Carlos Barbosa (metaforicamente, claro está…).

Colocamos enormes reticências se a estratégia em matéria de segurança a implementar em maio passe por reproduzir a norte o modelo que conhecemos nos últimos anos na zona sul do país, assente em três ou quatro Zonas–Espectáculo (várias delas, note-se, ótimas ver o evoluir dos carros) por troço para as quais se canalizam todos os espetadores controlando-os em ‘circuito fechado’ a partir daí.

Desde logo porque o público será em número incomparavelmente superior, colocando, só por isso, bem maiores dificuldades ao trabalho dos elementos das forças de segurança e dos stewards de apoio ao Rali, e relativamente aos quais ou há um aumento considerável no número de efetivos ou então tornar-se-á problemático, se não mesmo impossível, ter mão em tanta gente.

A filosofia das Zonas-Espectáculo pensadas para a realidade a sul não são o passe de mágica capaz de resolver os problemas quanto à segurança que se colocarão na(s) próxima(s) edição(ões) a norte.

A tentação de meter o Rossio na Rua da Betesga, i.e., afunilar todo o público em cada classificativa concentrando-o nas tais três ou quatro Zonas-Espectáculo pode revelar-se má conselheira.

Desde logo, pelos monumentais engarrafamentos e absoluto caos que não é difícil adivinhar em matéria de acessos aos troços.

Por outro lado, porque um grande aglomerado de pessoas circunscrito e ‘comprimido’ em poucos metros quadrados, levará necessariamente a que a esmagadora maioria dos espetadores fique afastada das primeiras filas de público onde se consegue ver com nitidez a passagem dos carros, convidando a que se procurem alternativas fora desses locais.

Não se pode esquecer nesta análise, também, o facto da própria morfologia do terreno, muito mais acidentada que no Baixo Alentejo e Algarve, dificultar bastante mais um certo ‘controlo à vista’ das investidas dos adeptos mais afoitos fora das áreas que a organização previamente lhes destina.

Apostar em mais policiamento espalhado ao longo do troço, ao invés de colocar tantos efetivos das forças da ordem a impedir que se aceda ao troço, pode ser uma ideia a equacionar.

Encarar a classificativa como sendo toda ela uma ‘zona de público’, fazendo incidir ao longo do seu percurso stewards e efetivos da GNR e PSP, parece-nos uma filosofia mais realista que a concentração de meios em três ou quatro locais, que se estiverem apinhados (como não é difícil prever) tornará muito problemático disciplinar tantas pessoas em simultâneo.

O capítulo da segurança é uma das matérias mais sensíveis e problemáticas dentro plêiade de assuntos que a organização do Rali de Portugal tem em cima da mesa para resolução.

Geri-la com cuidados e especial pedagogia, pode significar evitar os problemas que uma política de ‘mão-de-ferro’ não deixará de causar perante uma afluência de público em massa cujas expetativas em assistir ao Rali saiam defraudadas.

O núcleo duro que tem a condução dos destinos do evento já terá feito contas e antecipado cenários, sendo certamente conhecedor daquilo que vai encontrar em maio quanto à afluência de público às classificativas nortenhas.

Ao levar o Rali de encontro à região onde está o público, Carlos Barbosa e Pedro de Almeida ficaram desde logo entre braços com uma obrigação moral: proporcionar a esse mesmo público todas as condições para ver a prova num contexto perto do ideal.

Os ensinamentos de anos anteriores com o Fafe Rally Sprint, ao possibilitar-se que os adeptos se espalhassem ao longo da Lameirinha ao invés de os canalizar todos apenas para o Confurco ou para a Pedra Sentada, pode ajudar a perceber a necessidade de se encarar numa perspetiva diferenciada, relativamente ao dossiê da segurança, aquilo que foram sete edições de estatuto mundialista da prova a sul do país e o novo/velho Rali de Portugal de maio próximo.

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