domingo, 1 de março de 2015

P.E.C. Nº 292: Nos Ralis nem tudo o que parece é...


As estradas geladas da Suécia produziram, há poucos dias, um dos mais espetaculares Ralis dos últimos anos em matéria de campeonato do mundo.

Uma dramática e emocionante demanda a três até ao último metro da prova, mudanças a rodos na liderança do evento (quatro pilotos alternaram no topo da classificação trocando de posição em cinco ocasiões) e, troço após troço, muitas peripécias para contar, são o mote para o posfácio de um evento que seguramente ficará na memória dos aficionados da modalidade durante algum tempo.

À volta de Varmland e Dalarna oito pilotos distintos (Ogier, Latvala, Mikkelsen, Neuville, Meeke, Kubica, Protasov e Tidemand – estes dois últimos em estreia absoluta no contexto do WRC -) triunfaram em classificativas à geral.

Além dos concorrentes privados (Kubica, Protasov e Tidemand), as quatro marcas oficialmente (ou oficiosamente, nalguns casos…) representadas no mundial lograram ver pelo menos um dos seus pilotos ser o mais veloz num dos segmentos cronometrados do evento sueco.

Já desde o Rali da Acrópole em 2009 que oito pilotos diferentes não lideravam a tabela de tempos em pelo menos um troço num evento do WRC.

Foi no Rali da Sardenha em 2012 que um piloto conduzindo um carro da ‘Liga de Honra’ (um ‘não WRC’) venceu pela última vez um troço à geral em etapas do mundial (e se entender-se que Ogier em 2012 jogava na ‘Liga de Honra’ com o Fabia S2000 mas era piloto de ‘Liga dos Campeões’, então há que recuar até à Suécia em 2010 e contabilizar o triunfo de Martin Prokop na segunda passagem da superespecial de Hagfors com o Fiesta S2000).

Devemos partir da análise destes números para concluir, sem mais, que o WRC está a mudar o seu paradigma de competitividade e a correlação de forças a que temos assistido nos últimos anos?

Parece-nos que não.

Após o Rali de Monte Carlo que abriu o mundial de 2015, houve quem visse de imediato na performance da Citroen (que no principado venceu um total de oito especiais, contra apenas duas da Volkswagen) no Sisteron, Sospel e demais correligionárias, um nivelamento de competitividade com os carros a soldo de Jost Capito, fruto de um trabalho na direção certa encetado durante o defeso.

A prova do principado (tal como a Suécia, aliás, ainda que porventura em menor escala) não é por norma um barómetro fiável para aferir o apuro de forma dos WRC.

A especificidade da prova, a dificuldade em prepará-la com rigor sabendo-se que os troços revelam personalidade bipolar consoante se percorram nos reconhecimentos ou no dia de corrida, o fator decisivo da escolha acertada de pneus (que tem tanto de intuitivo como de científico), ou instabilidade e imprevisibilidade do terreno baralham por completo as contas do jogo e tendem, por vezes ilusoriamente, a nivelar as prestações dos carros.

O Monte e a Suécia funcionam um pouco, se quisermos, como aquelas equipas de futebol repletas de jogadores cheios de técnica e irrepreensíveis do ponto de vista tático, que quando defrontam adversários mais fracos em terrenos pesados e/ou alagados em água veem-se em palpos de aranha para impor o seu modelo do jogo.

Ainda assim, jogando em terrenos que em tese podiam ser-lhes os menos favoráveis de toda a temporada, o binómio Ogier e Volkswagen sai da segunda jornada do mundial de 2015 patenteando a mesma supremacia dos dois últimos anos, muito provavelmente com o homem de Gap a preparar-se, caso mantenha esta toada, para em breve digitar o login que lhe dará acesso ao tricampeonato de pilotos.

Num terreno onde se antevia o favoritismo de Latvala (vitória em paragens suecas em 2008, 2012 e 2014), e era de prever uma resposta afirmativa e convincente do finlandês no sentido de marcar terreno dentro da própria VW, pela enésima vez comprometeu um resultado melhor com uma saída de estrada (Ogier não escapou também a visita guiada aos bancos de neve dos troços escandinavos…), viu o seu colega de equipa e principal rival na contenda ao título abrir a estrada nos dois primeiros dias do evento e ainda assim chegar à vitória, pelo que o início de temporada está longe de prometer ser este, finalmente, o ano de Jari-Matti.

O início de época teve dois ótimos Ralis, extremamente bem disputados, com tremenda emoção e equilíbrio e muitas peripécias de premeio.

Fazendo uma outra analogia com o futebol: num campeonato em que todos os jogos sejam bastante equilibrados, com muitas jogadas vistosas e bastantes lances perto das balizas, mas onde ganhe quase sempre a mesma equipa e esta seja campeã precocemente e com considerável avanço sobre as adversárias, será que se pode falar em competição equilibrada?

Não.

Mas pode-se dizer que a competição é seguramente interessante.

Na Suécia emergiu (se é que alguma vez esteve submersa nos últimos anos) a visão que Ogier tem do WRC, avaliando com rigor a cada momento o ritmo que as circunstâncias impõem, adequando como mais ninguém (à exceção de Loeb) as características do material de que dispõe em função dos limites da estrada, e sendo depois, no momento das decisões, frio, cirúrgico, e de certa forma até algo cínico na forma como faz a diferença no cronómetro e não vacila sob pressão quando comparado com os rivais (os habituais triunfos nas power stage são disso exemplo).

Olhando para a classificação atual do mundial de pilotos, volvidas duas jornadas disputadas e já com 23 pontos à melhor sobre Neuville e Mikkelsen, infere-se um domínio claro do campeão do mundo em título que não teve correspondência nas vitórias apertadas em ambos os eventos.

Também nos Ralis os números por vezes mentem.

E também na modalidade nem tudo o que parece é.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.motorsport4sale.com/nyheter/pontus-tidemand-efter-femteplatsen-i-wrc2-i-rally-sweden/

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