terça-feira, 24 de março de 2015

P.E.C. Nº 295: Rali Serras de Fafe, lagostas e latas de atum...


… «há problemas crónicos que continuam sem resposta e que, com o tempo, podem minar e fraturar o ponto de equilíbrio de que o CNR parece começar novamente a aproximar-se. Sem pôr em causa a qualidade dos intervenientes que em 2015 vão lutar pelo título, facilmente se percebe que continua a faltar ‘sangue novo’ no Nacional de Ralis e que a próxima geração de campeões está atrasada ou, pior, não começo sequer a ser formada. A idade média dos candidatos ao título ronda os 37 anos e não será fácil encontrar um com aspirações para evoluir para uma carreira internacional. É evidente que a famigerada conjuntura económica global desfavorável pode assumir uma parte das culpas deste instalado clima de ‘vamos indo e vamos vendo…’, mas não toda. Dividindo essa responsabilidade está um ‘Nacional’ cheio de vícios, onde os reconhecimentos têm regras mais cumpridas por uns do que por outros»... (nota nossa: Bruno Magalhães analisando o momento atual da modalidade em declarações à AutoSport, é lapidar na apreciação ao problema dos reconhecimentos...) ...«e onde, por exemplo, a limitação de pneus é uma simples miragem, potenciando ainda mais o fosso entre pilotos/equipas ricas e pobres e travando, eventualmente, a ascensão de novos valores. Está também um campeonato abastecido quase sempre pelos mesmos ralis, pelos mesmos troços, onde reina quem maior experiência tem ou por lá mais vezes passou. Está ainda uma competição onde continua a faltar um promotor oficial capaz de ajudar a elevar o estatuto do campeonato, de agilizar a ação fora das classificativas, de sensibilizar os pilotos para as necessidades de retorno dos seus patrocinadores e da cooperação com os media ou, de uma forma global, de ajudar a desbravar novamente caminho para que as empresas se sintam confortáveis a apoiar este desporto.
Mesmo se a aparente qualidade e quantidade de inscritos (que, por norma, não é a mesma no início e no fim do campeonato) ajuda a disfarçar alguns problemas estruturais, ainda não se pode dizer que o Campeonato Nacional de Ralis de 2015 seja ainda aquilo que todos os amantes de ralis desejam. Porquê contentarmo-nos com o bom quando podemos chegar ao ótimo?»

Filipe Pinto Mesquita, jornalista
in AutoSport n.º 1941, de 11 de março de 2015

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Começou da melhor maneira o campeonato nacional de Ralis. 

A partir dos incontornáveis palcos de Fafe, engalanados a rigor para acolher a jornada inaugural da temporada 2015, assistimos a uma prova com uma interessantíssima lista de inscritos, ótimos automóveis, um naipe de pilotos e navegadores do mais fino recorte e despiques cerrados pelas melhores posições, tudo perante grande plateia (no número e no entusiasmo) de adeptos a emprestar colorido especial ao primeiro Rali do ano. 

No plano desportivo parecem estar reunidas condições (na sequência do elã positivo que se foi gerando em 2014) para um certo reencontro entre o CNR e a grande falange de aficionados deste desporto existente no nosso país. 

A partir do Confurco e congéneres ficou-nos na retina: 

- Que Ricardo Moura está com fome de Ralis, após ausência mais ou menos prolongada do nacional, conduzindo muito motivado e com a eficácia que o celebrizou em anos anteriores; 

- Que José Pedro Fontes sinalizou com clareza que, limadas as arestas iniciais, o projeto DS será naturalmente ganhador;

- Que Miguel Campos, um dos melhores pilotos portugueses da sua geração, provou que quem sabe nunca esquece, beliscando os arquétipos associados aos Ralis segundo os quais a falta de ritmo competitivo é sempre penalizadora; 

- Que João Barros confirma o quão tem crescido enquanto piloto de Ralis, afastando nesta jornada inaugural da época o rótulo de piloto de asfalto para afirmar um ecletismo de condução que o coloca, de pleno direito, na linha dos mais fortes candidatos ao título no final do ano; 

- Que Pedro Meireles está a procurar minimizar perdas em termos pontuais antes da anunciada chegada do Fabia R5, mas talvez já com a temporada de 2016 no horizonte para tentar reapossar-se do cetro de campeão que é seu; 

- Que Max Vatanen comprovou que a tarimba mundialista confere ritmo de andamento que só com binóculos as provas nacionais conseguem vislumbrar (Martin Kangur em 2014 neste Rali já tinha enviado mensagem similar)

- Que Pepe Lopez, o alegado protegido de Sainz, é um jovem muito promissor que veio ao norte do país mostrar a determinação e resiliência que conhecemos do madrileno bicampeão do mundo; 

- Que há um plantel no campeonato de duas rodas motrizes cheio de pilotos tremendamente combativos e com muita qualidade, com projetos realistas e bem gizados, a dar corpo a uma competição que merece ser seguida com a máxima atenção e será um dos grandes polos de interesse do CNR agora iniciado; 

- Que Víctor Pascoal e Fernando Peres, sem qualquer desprimor para os demais inscritos no regional norte, são homens que fazem falta à liga principal dos Ralis nacionais;

- Que regressaram ao CNR dois vultos deste desporto que dão pelo nome de Carlos Magalhães (espera-se que com a maior assiduidade possível) e Miguel Ramalho.

Tantos predicados não iludem, porém, a realidade que está por trás do pó que os R5 ou S2000 levantam. 

Como Filipe Pinto Mesquita escreve no texto que acima nos permitimos reproduzir, há uma série de questões estruturais na modalidade que continuam por resolver, num diagnóstico de inusitada crueza mas assaz certeiro que no essencial subscrevemos. 

O maior entrave nos Ralis portugueses é a crónica falta de disponibilidade dos seus protagonistas para se sentar numa mesma mesa, identificarem o que os une, assinalarem o que os divide, e a partir daí construtivamente lançarem as bases de um campeonato nacional pensado como um todo, capaz de atrair pilotos, equipas e marcas construtores. 

A cumprir-se na temporada em curso a máxima que com o tempo fez lei na modalidade, serão poucos os pilotos no final do ano a estar presentes em todas as provas do calendário. 

O clima que se vive hoje na modalidade é, no geral, pensar-se em matéria de patrocínios numa prova de cada vez. 

Projetos estruturados em função de uma temporada no seu todo continuam, sobretudo no plano da luta pelo título absoluto de pilotos, a rarear. 

Com míngua de verbas, vive-se na modalidade um certo clima de, passe o exagero, comer lagosta logo que entra algum dinheiro no primeiro dia do mês, para viver os vinte e nove dias seguintes à base de frugais refeições em torno de latas de atum. 

As condições para planificar projetos não se encontram criadas. 

Pensar a longo prazo dentro do contexto dos nossos Ralis é olhar uma semana à frente. 

E o mais curioso (e até algo frustrante) no meio de tudo isto, é a impressão generalizada de que até é muito curto e relativamente fácil de alcançar o caminho que separa o ‘bom’ do ‘ótimo’ a que Filipe Pinto Mesquita se reporta no seu texto de opinião.

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Alguns vídeos sobre o Rali Serras de Fafe recentemente disputado poderão ser visionados AQUI.

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://amoraosralis.blogspot.pt/2015/03/2-galeria-rali-serras-fafe-2015.html

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