P.E.C. Nº 296: Vale mais ser Rae por um dia, que piloto banal toda a vida...


A melhor forma de transmitir o poder indomável dos Ralis é através da fotografia. 

Desde o profissional que cobre os eventos e partilha connosco alguns flashes que não raras vezes ficam para a posteridade, até aos muitos amadores que pelos troços desse mundo fora, com talento e devoção, ajudam decisivamente a construir a história visual deste desporto, não escondemos a admiração por todos quantos cultivam esta arte, dos Kleins e Lavadinhos até ao mais anónimo adepto.

Uma boa fotografia inspira-nos. 

Há instantâneos a ensinar mais sobre Ralis que todos adjetivos superlativos que a nossa memória consiga buscar. 

A imagem que abre o presente trabalho é um desses casos, transcendendo o mero momento em que a objetiva disparou para, com mais abrangência, se tornar numa sinopse sublime sobre aquilo que Colin McRae significa para a modalidade. 

O desconcertante e icónico escocês colocou fim em 1999 a longa e bem-sucedida parceria com a Subaru que, entre outras honrarias, lhe deu um título mundial de pilotos e dezasseis triunfos em eventos pontuáveis para o campeonato do mundo. 

Nessa temporada a Ford apostou cartada forte no novo Ford Focus WRC como forma de recuperar glórias antigas dos anos setenta e oitenta (os modelos Escort RS Cosworth e Escort WRC, antecessores do Focus, conjuntamente apenas tinham obtido dez triunfos em seis anos de presença no mundial), a própria simbologia desse intento expressava-se com a recuperação ao mais alto-nível da eterna decoração Martini para embelezar o automóvel da marca, e enquadrada nesta filosofia assentava que nem uma luva, portanto, um piloto à antiga, experiente, competitivo, capaz de andar com o carro em permanente descompensação. 

Colin era, pois, o nome óbvio para integrar o novo projeto da M-Sport

A temporada começou muito bem para a equipa e para o malogrado britânico. 

Se em Monte Carlo o campeão do mundo de 1995 foi quem triunfou no maior número de especiais, superou um ferimento na mão esquerda e problemas mecânicos no bólide, para, tudo somado, concluir na terceira posição, vendo-se todavia desclassificado no final da prova por irregularidades técnicas no seu carro (tal como, aliás, o companheiro de equipa, Simon-Jean Joseph), e na Suécia problemas de motor travariam prematuramente ao ambições do escocês, o terceiro capítulo da temporada, o Rali Safari, confirmaria a validade do projeto e a aposta em Colin para o liderar, materializado num triunfo algo atípico (o homem do carro n.º 7 venceu a prova sem ganhar qualquer percurso seletivo) mas seguramente muito motivador para os comandados de Malcolm Wilson

Portugal, evento que McRae havia ganho no ano anterior, apresentava-se como o desafio seguinte em termos de calendário do campeonato do mundo. 

Sobre a prova propriamente dita pouco há a dizer. 

O recruta da Ford liderou da primeira à última classificativa, foi quem somou mais vitórias em troços, atacou fortíssimo no primeiro dia na zona de Fafe para gerir (se é que tal palavra existia no seu dicionário…) a vantagem amealhada até cruzar o pódio final como incontestado vencedor da trigésima terceira edição do Rali de Portugal

É de tal demonstração de destreza e tenacidade ocorrida há dezasseis anos no nosso país, que cuida a foto sob análise nas presentes linhas. 

Troço: Agueira (alguns dados biográficos sobre esta fabulosa especial estão compilados AQUI)

Data: terça-feira, 23 de março de 1999. 

Hora: 11h:19m. 

Classificativa n.º 12 do Rali de Portugal, edição/1999.  

Colin é o primeiro concorrente na estrada, na sequência da liderança da prova conseguida no dia anterior. 

Poucos quilómetros após o início da especial (na povoação de Rio Milheiro), o escocês chega à foz do rio Cris num dos múltiplos braços de água da barragem da Agueira

Numa rápida curva à esquerda (que a foto acima partilhada imortaliza), obtida, segundo supomos, a partir de helicóptero, o piloto da Ford mostra-se coerente consigo próprio. 

No chão vê-se definida uma linha mais ou menos ideal de trajetória, fruto provavelmente dos reconhecimentos levados a cabo em dias anteriores. 

Até à borda da estrada, do lado esquerdo, é visível estar guardados um ou dois palmos de ‘segurança’, uma vez que há um declive a pique rumo à água e quem arriscar uma trajetória mais direta corre sérios riscos de ficar fora de prova. 

É, em suma, curva onde o piloto pretenderá que o respetivo navegador previamente lhe dite um inevitável e prudente «não corta»

Abrindo a estrada e sendo por conseguinte penalizado em termos de aderência, mas sobretudo na capacidade de tração do automóvel, qualquer piloto racionalmente aproveitaria a trajetória mais ‘limpa’ de pó e gravilha, onde o chão está mais polido, as rodas patinam menos, e em tese se ganha tempo. 

Qualquer piloto defendendo uma liderança em certo sentido confortável, não necessitando de atacar correria o mínimo de riscos e seria espartano nas trajetórias escolhidas. 

Qualquer piloto. 

A questão é que Colin McRae jamais foi um piloto qualquer. 

O que se observa na foto é a aversão às regras e à lógica, a subversão total de quaisquer certezas pré-definidas nos Ralis. 

Colin em bruto, portanto. 

Colocando, como se percebe, o pneu frente direito do Focus para lá de onde os demais competidores provavelmente ousaram meter o esquerdo dos respetivos bólides. 

Metade do carro com os ‘pés’ bem assentes na terra, outra metade fazendo um arriscado exercício de parapente sobre as águas do Cris

Saudades…

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Trabalhos anteriores sobre Colin McRae realizados no âmbito deste blogue poderão ser vistos na P.E.C. Nº 100 e na P.E.C. Nº 201.

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 VÍDEOS SOBRE A EDIÇÃO DE 1999 DO RALI DE PORTUGAL 






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A FOTO PUBLICADA NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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Comentários

  1. Espetacular! É o imortal Colin, não há palavras. Resta acrescentar que a foto em questão, (apesar de desconhecer o nome do seu autor) é da autoria de um dos muitos adeptos anónimos que acompanhou o rali na estrada. Lembro-me de um passatempo de fotografia lançado pelo Autosport naquela altura e que era destinado aos "fotografos amadores", os comuns adeptos. Esta foto foi uma das finalistas. Apesar de não ter vencido o passatempo, tornou-se, tal como diz o artigo, num momento histórico que define bem o que significa falar de Colin McRae. Bem haja pelo excelente artigo.

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  2. Muito obrigado pelas suas palavras gentis, seguramente o melhor incentivo para que possamos continuar a desenvolver trabalhos deste género. Se gostou desta 'P.E.C.' vai seguramente gostar também da próxima...

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