P.E.C. Nº 298: Para lá do Marão, mandam os que lá vão?


I)

Há poucos dias, perante as mais gradas figuras do automobilismo nacional e influentes decisores dos Ralis internacionais, foi oficialmente apresentada a quadragésima nona edição do Rali de Portugal, a disputar no final do próximo mês na zona norte do país.

A resenha da respetiva conferência de imprensa não é complicada de fazer.

Nada em termos de estrutura da prova foi revelado que não se soubesse já publicamente, redundando numa quase mão-cheia de nada as sucessivas declarações ali produzidas, por entre manifestações de bairrismo bacoco, o lamento (que subscrevemos) do Turismo de Portugal por motivos puramente políticos se ter excluído do lote de parceiros institucionais do evento, ou a conhecida propensão de Carlos Barbosa para polemizar neste género de ocasiões.

Ainda assim, como aspeto a ressalvar, claramente ficou no ar uma mudança no discurso oficial relativamente à questão sempre sensível do público.

A narrativa focada na grande massa humana que segue a prova como primeiro fundamento para que o Rali de Portugal tenha retornado a norte, após dez edições de vocação sulista, deu agora lugar a um tom ameaçador e algo moralista, transformando os adeptos num problema onde antes eram encarados como pilar central para a manutenção do evento no campeonato do mundo.

Foi o ACP, com o alto-patrocínio da FIA, diga-se, que decidiu fazer regressar o Rali ao norte do país, sob o argumento, repetido até à náusea, que havia que levar a prova onde está a ´paixão pelas corridas’ e o ‘público’. 

Sempre se soube que essa aposta acarretaria alguns riscos no que respeita ao comportamento dos adeptos, mas ainda assim o ACP decidiu de livre vontade fazê-la.

Ao invés de exercer alguma pedagogia, enaltecendo os progressos significativos em matéria comportamental que os espetadores vêm dando mostras há muitos anos a esta parte, ou fazendo passar uma mensagem positiva e de responsabilidade no sentido de, por exemplo, não ser possível estar-se colocado no perímetro da faixa de rodagem nem na parte exterior das curvas, os responsáveis pelo Rali, pelo contrário, parecem desde já animados em transformar os adeptos no bode-expiatório de eventuais contratempos em matéria de segurança que possam ocorrer.

Como súmula das intervenções realizadas na apresentação do evento, fica a impressão que a estratégia não passa por fomentar junto dos aficionados a ideia de firmeza por parte da organização, mas sim exercer autoritarismo e total incomplacência em caso de comportamentos à margem da ordem pré-instituída.

Pior: nas entrelinhas fica subjacente um receio não-assumido de que a situação possa ficar fora de controlo, quando comunicacionalmente o sinal a dar tinha de ir no sentido de estar já devidamente estudado e preparado todo e qualquer cenário quanto ao comportamento do público.

Nessa medida, o Rali de Portugal de 2015 começa algo faralhado, parecendo-nos pouco feliz a aposta em eleger os que gostam deste desporto como principal inimigo do evento.

Do que foi dito na conferência de apresentação, fica a certeza que o modelo das Zonas-Espetáculo é para manter.

Serão cerca de trinta o total de locais destinados ao público, dos quais, estranhamente, não foi revelada a respetiva localização em concreto.

Só nesses espaços pré-definidos (quem nem é líquido serem os ideais para ver a prova nas melhores condições) é que poderão estar espetadores, ficando o resto da classificativa interdita a observar-se o evoluir de carros e pilotos, modelo inflexível que, aliás, nem sequer foi posto em prática nos anos em que a prova passou pelo sul do país, uma vez que foram vários os locais nessas edições do Rali não classificados como Z.E. nos quais se verificou sã convivência entre público e forças policiais, sempre com patamares de segurança totalmente garantidos.

Compartimentar ou, numa linguagem mais drástica, 'engaiolar' o público (não obstante Mário Martins da Silva, Presidente da Comissão Organizadora, ter vindo a terreiro deitar alguma água na fervura) é oficialmente o intuito de Carlos Barbosa e Pedro de Almeida (com o beneplácito de Michèle Mouton, WRC Rally Manager da FIA, que veio ao nosso país ajudar à dramatização), pese embora desconfiarmos, atenta a experiência de ambos, que serão os próprios os primeiros a não acreditar no modelo de segurança que publicamente preconizam.

II)

Mais abaixo partilhamos uma série de imagens que recolhemos relativamente a viagens feitas ao interior (total ou parcial) dos troços que compõem a próxima edição do Rali de Portugal, alguns deles terreno virgem para muitos dos adeptos que ali se deslocarão para ver o evento.

Parece-nos que vale a pena investir tempo a ver estes filmes, uma vez que se fica com uma noção mais concreta daquilo que espera os pilotos dentro de mês e meio, e possibilita, dentro do possível, filtrar-se um pouco do que poderão ser os locais mais interessantes para ver Sordo & Companhia em ação.

Há um pouco de tudo.

Após a subida que leva ao topo da serra na classificativa de Caminha, iniciada sensivelmente após a passagem sobre a autoestrada n.º 28, há algumas zonas mais despidas de vegetação a fazer lembrar o planalto da Lousã.

Em Viana do Castelo há partes de arvoredo a remeter para algumas zonas de Mortágua, outros segmentos a recordar as longas curvas de Viseu.

O outrora temível São Lourenço, que no passado fez fama pelo piso demolidor, dá agora lugar a uma autoestrada em terra com chão altamente polido, algo tão contranatura como o guitarrista Keith Richards (dos Rolling Stones) aparecer em público com a pele da cara tão esticada como a da socialite Lili Caneças.

A Cabreira (rebatizada agora como Vieira do Minho) está também mais aplainada que noutros tempos, Fafe é sobejamente conhecida, Fridão pede alma e coração aos concorrentes (recuperando a vocação Amarantina da prova, zona onde a nosso ver estão várias das melhores estradas para Ralis do país), e Baião revisita as rápidas e interessantes especiais outrora traçadas na Serra da Aboboreira.

Há, depois, o Marão.

Após ver e rever o filme sobre esta classificativa, pensamos que a mesma se tornará em breve um dos mais admiráveis percursos cronometrados de todo o calendário do campeonato do mundo de Ralis, profusamente filmada e fotografada.

O que vemos é sublime.

Toda a subida inicial que começa numa zona florestal e com encadeados de curvas, dá depois lugar a uma parte mais rápida que lembra a grandiloquência de Arganil, nem sempre com bom piso precisamente como no Açor, em que estrada rasga como um bisturi a encosta do monte, deixando aos pilotos Serra do lado direito e ribanceira do lado esquerdo (aqui com alguma carga ‘dramática’ e pinceladas de perigo em acaso de acidente, num clima de tensão para quem compete e para que vê que vai também ajudar a construir a lenda).

No topo do Marão, a rendição continua.

Há por ali um pouco da parte alta da antiga especial de Mortazel/Vila Pouca (aerogeradores), e muito de Fafe (grandes pedregulhos a ajudar a definir os contornos da estrada).

A classificativa estreita-se e torna-se muito mais sinuosa a certa altura.

Há algumas zonas em que imaginariamente parece que as grandes rochas foram ali criteriosamente colocadas para obrigar os carros a fazer gincana serpenteando entre elas, prometendo ‘bonecos’ fotográficos irresistíveis.

Toda a descida que leva os concorrentes até à tomada de tempos é também ela fascinante, pedindo muito braço, bons travões, e dosagem significativa de coragem, predicados que conhecemos noutras eras, por exemplo, na descida ao Alqueve e na parte final de Mões.

Julgava-se já não haver tesouros perdidos assim…

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 PONTE DE LIMA

 

 CAMINHA 

 VIANA DO CASTELO 

 BAIÃO 

 MARÃO 

 FRIDÃO 


 FAFE 

 CABREIRA 


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