P.E.C. Nº 299: Importam-se de repetir, por favor?


Recordemos alguns factos:

  • No passado dia oito de abril, na apresentação oficial do Rali de Portugal safra 2015, Michèle Mouton, em representação, presume-se, da Federação Internacional do Automóvel, enfatizou publicamente que o comportamento disciplinado do público é crucial para que «o WRC continue a viver e a manter-se no norte de Portugal», o que por exclusão de partes conduz inevitavelmente à conclusão de que há hipótese, em caso de eventuais problemas de segurança, que o evento abandone o Minho e Douro Litoral


  • No dia 14 de abril, Carlos Barbosa propõe à Câmara Municipal do Porto a realização de uma superespecial desenhada na cidade Invicta para a edição do Rali em 2016 (fazendo pressupor uma vez mais que o evento a norte no próximo ano é dado adquirido)



  • Retrocedendo a catorze de abril, Carlos Barbosa reúne com Rui Moreira, Presidente da CMP, discutindo a possibilidade de levar a bom Porto (literalmente) a referida superespecial na cidade em 2016; 

  • Desconhece-se se o entusiasmo que ambos denotaram perante esta hipótese foi antes ou «a seguir ao almoço», mas à partida estamos em crer que Barbosa acreditará que Moreira já atingiu a maioridade e deixou, portanto, a condição de «garoto», e certamente em matéria de Rali de Portugal e dos encargos com tal superespecial há muito que lá vão as «contas à moda do ACP»

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O Rali de Portugal, independentemente de se gostar ou não da modalidade, é uma das mais sólidas instituições nacionais

Nasceu no advento da ditadura, sobreviveu incólume aos conturbados tempos da revolução, e soube afirmar-se nestes mais de quarenta anos de democracia acima dos sucessivos governos e poderes públicos da mais diversa ordem. 

Passou por crises profundas como as de 1986 ou 2001. 

Conseguiu reinventar-se e robustecer-se sempre que as circunstâncias assim o impuseram. 

É a manifestação desportiva realizada em terras lusas com mais projeção no exterior

Continua a ser uma das mais admiráveis expressões do ‘bem-fazer’ português, reunindo, ano após ano, década após década, um capital de prestígio fora de portas que muito poucas realizações neste país conseguem alcançar

Uma das melhores formas de conferir reputação e identidade a uma instituição passa pelos seus responsáveis comunicarem a uma só voz, com uma estratégia clara e bem definida, alicerçada num discurso simples e facilmente percetível pelos destinatários da respetiva mensagem. 

Tudo, portanto, o que as mais altas-figuras do ACP/Organização do Rali de Portugal não estão a fazer. 

O desastre a nível de comunicação é evidente. 

Não parece haver uma preocupação em articular previamente as declarações que se proferem para a imprensa, o que redunda neste espetáculo de se dizer num dia uma coisa e no mesmo dia quase o seu contrário. 

A decorrência de tanto ziguezague é preocupante, e passa sobretudo por haver um número crescente de pessoas, a começar pelos adeptos (a quem todos os ‘avisos’, ‘apelos’, ‘alertas’ ou, talvez, ameaças em matéria de segurança se destinam…), que não está a levar a sério o que Carlos Barbosa e Pedro de Almeida têm vindo a dizer desde que o evento foi apresentado. 

Confundindo-se a si próprio com o cargo que ocupa (tique em que invariavelmente incorre), Barbosa, na sequência da apresentação do Rali a disputar no próximo mês, não deixou sequer de sucumbir à tentação de instrumentalizar o evento, no qual interveio na qualidade de Presidente da Direção do ACP, em função das suas animosidades pessoais (reportamo-nos a Rui Rio, anterior Presidente da Câmara Municipal do Porto), aproveitando um encontro com alguma solenidade com a imprensa para expressar estados de alma completamente à margem do propósito de tal briefing informativo. 

Estar-se à altura de um lugar pressupõe conhecer e respeitar o passado da instituição que se serve. 

O Rali de Portugal atingirá em 2016 o respeitável número de cinquenta primaveras, e do seu álbum de ouro em quase meio-século de existência estão, entre outras, passagens por Tavira, Setúbal, Macedo de Cavaleiros, Arouca ou Vilar de Mouros (para fugirmos ao classicismo de Fafe, Arganil e Sintra)

O discurso atual colocado em prática pelos decisores da prova está focalizado na dramatização de uma eventual saída do Rali de Portugal do norte do país, caso no próximo mês possam haver contratempos em matéria de segurança. 

Da recolha que fizemos às declarações que têm vindo a ser proferidas em dias recentes, em momento algum foi dito, note-se, que há fundados riscos do evento deixar Portugal e/ou o calendário do campeonato do mundo da modalidade. 

A sinalização dada (de forma bastante clara, diga-se) é um pouco diferente e vai no sentido de um hipotético mau comportamento do público poder originar que a prova saia da região norte do nosso país, fazendo pressupor, então, que em tal cenário a mesma regresse ao sul ou se desenvolva no centro. 

A mensagem subliminar aqui contida é grave, por diferenciar um acontecimento de caráter e expressão nacional consoante a localização geográfica onde se disputa. 

Para os mais altos responsáveis do Rali de Portugal, que deveriam em primeira instância, na nossa leitura, defendê-lo e promovê-lo acima de interesses locais, parece haver uma filosofia de que há um Rali de Portugal a norte que é filho e um Rali de Portugal em qualquer outra região que será enteado, um Rali de Portugal a norte que merece a defesa incondicional dos seus responsáveis máximos e um Rali de Portugal em qualquer outra região que deverá ser encarado como uma segunda escolha ou um mal menor. 

Se as circunstâncias assim o ditarem, não vemos qualquer drama em especial que a prova deixe de se disputar acima do Douro para regressar ao Algarve ou à região centro de Portugal, tal como encarámos com a maior naturalidade e sem laivos de polémica a opção de o fazer disputar no próximo mês na Arga, Fafe, Aboboreira, Marão ou Cabreira

Como referimos anteriormente o Rali de Portugal não está a começar bem

A organização de prova terá feito mal o trabalho de casa relativamente às mais eficazes formas de manter o público em segurança (numa realidade completamente distinta daquilo que conhecemos em anos anteriores, quando a prova se desenrolou no Alentejo e Algarve), parece estar com evidentes dificuldades em antecipar a enorme quantidade de adeptos, portugueses e não só, que seguramente acorrerão às especiais nortenhas no quarto fim-de-semana do próximo mês de maio, e demonstra um grau de nervosismo que apenas se compreende à luz de um clima de fim de ciclo, talvez já num enquadramento, o futuro o dirá, de puro estertor do Barbosismo enquanto modo de ser, de estar, e de intervir no âmbito do automobilismo português.

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Nota:
Temos sido acusados nas últimas semanas, através de mensagens privadas que nos têm sido dirigidas, de ‘estar ao serviço’ de uma das listas concorrentes aos órgãos sociais do ACP, cujo sufrágio eleitoral está agendado para trinta de abril. Este blogue dedica-se em exclusivo à causa dos Ralis, é absolutamente livre e independente nos seus propósitos (algo que talvez estes nossos 'interlocutores' não possam dizer de si próprios), produz opinião própria que pode e deve ser contraditada em múltiplos locais, pelo que os remoques que nos têm sido lançados estão a falhar por completo o alvo, quanto mais não seja porque não somos associados do Automóvel Club de Portugal, não conhecemos pessoalmente nem temos relações próximas com nenhum dos candidatos que se apresentam a escrutínio, nem temos qualquer interesse direto ou indireto naquele que vier a ser o resultado final do mencionado ato eleitoral. Para que conste!

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://rallydeportugalspecial.wordpress.com/tag/acp/

Comentários

  1. Caro amigo, devia ser possivel subscrever o blog, fosse por email ou RSS!
    Fica a sugestão, e parabéns pela paixao pelos rallys, que demonstra e que partilho!

    1 abraço

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