sábado, 16 de maio de 2015

P.E.C. Nº 301: Indo diretamente à Fonte(s) do 'problema'... (2.ª parte)


- continuação da 'P.E.C.' anterior -

 2.ª parte 

Os Ralis nacionais são um meio pequeno. 

Todas as pessoas se conhecem. 

Como em muitas comunidades por esse país fora, o circo da competição alimenta em alguns meandros (pouco expressivos) a conhecida maledicência e pequena inveja nacional.

Esses pequenos núcleos (que existem, não o escamoteemos…) olham para José Pedro Fontes como uma espécie de malquisto do automobilismo português em geral e dos Ralis lusos em particular. 

Fatores de vária ordem alimentam essa ‘malevolência’

Em primeiro lugar, o facto do agora líder do CNR (honraria a que chegou pela primeira vez na sua carreira após o Rali de Castelo Branco recentemente disputado) ser dos poucos pilotos no nosso país a ter um estatuto de verdadeiro profissional das corridas, capaz de a cada ano apresentar aos seus principais patrocinadores projetos credíveis e ganhadores. 

Num país onde encontrar apoios expressivos para o automobilismo é difícil, essa capacidade (e trabalho) de José Pedro Fontes gera um certo desconforto em alguns setores, que gostariam de reunir condições semelhantes às do atual vice-campeão nacional de Ralis e pura e simplesmente não conseguem. 

Uma análise ao currículo desportivo do piloto do Porto, recheado de mais de vinte anos de êxitos nas mais diversas disciplinas, não depõe apenas a favor da sua versatilidade de condução e adaptabilidade às mais diversas competições e géneros de carros.

Independentemente do que venha a conquistar até final da carreira, ele é hoje, aos trinta e nove anos, já portador de um dos mais expressivos palmarés da história do automobilismo português, sobretudo entre os pilotos que nunca ensaiaram com caráter regular uma internacionalização da carreira (não obstante, independentemente de circunstancialismos, ironicamente até deter títulos internacionais na sua sala de troféus)

No seu percurso pelas corridas estão registados bem mais triunfos e títulos que os constantes no palmarés de diversos outros pilotos que, por artes do inexplicável, caem melhor que o atual piloto oficial da DS/Citroen nos favores da imprensa ou na simpatia da generalidade dos adeptos. 

Fontes é objetivamente um piloto com sucesso, e o sucesso em Portugal, mesmo quando alavancado em muita inspiração e transpiração, é muitas vezes encarado com desconfiança quando não mesmo, ainda que não assumidamente, com grande desconforto. 

Por outro lado, o piloto portuense carrega sobre os ombros um dos labéus tão lusitanos que é ser filho de

Nem sempre ser filho de implica necessariamente que o respetivo apelido escancare as portas do êxito. 

Nas corridas ser filho de não produz automaticamente travagens no ponto certo ou trajetórias desenhadas na perfeição. 

José Pedro Fontes é filho de um dos grandes nomes do automobilismo português dos anos setenta e oitenta, mas assumindo a herança genética e os ensinamentos familiares soube, porém, autonomizar-se da sua filiação para se afirmar hoje muito mais como o Zé Pedro que propriamente como o filho de Rufino Fontes

A forma como o piloto ao serviço da DS/Citroen se enquadra no (por vezes difícil e fechado) mundo dos Ralis portugueses é outro dos aspetos que nos apraz salientar. 

Com longa experiência na modalidade, Fontes vem expressando publicamente há diversos anos uma noção muito pragmática daquilo que deveria constituir um modelo equilibrado e sustentável de campeonato nacional de Ralis, direcionando não raras vezes o seu discurso para a valorização dos principais adversários, matéria que nos parece ser de sublinhar na medida em que uma das formas de promover este desporto (também) passa, e muito, por publicamente difundir o talento e mérito dos ases do volante (temo-los felizmente em número abundante) que produzem o espetáculo. 

Em complemento ao que se referiu há, depois, os aspetos de natureza competitiva e a forma como aborda as corridas propriamente ditas. 

Uma das características que há muito nos impressiona em Fontes é a espantosa capacidade de adaptação a novas realidades, sobretudo a carros das mais distintas origens e filosofias. 

Em abstrato entre piloto e automóvel de competição desenvolve-se invariavelmente um clima de tensão

O homem (ou mulher) pretende a máquina ajustada ao seu estilo de condução, algo que muitas vezes não é compaginável com as caraterísticas de pilotagem que o automóvel necessita para ser rápido. 

José Pedro é, nesta matéria, um hábil e astuto negociador com os carros de corrida que tripula, cedendo dentro do possível à natureza dos bólides como forma de extrair deles todo o potencial que possam oferecer. 

A enorme capacidade de adaptação a novas situações, e a rápida perceção (aliada a muito trabalho e treino) de como maximizar o que um bólide pode atingir em matéria de competitividade, são dois dos grandes trunfos do atual campeão da categoria RGT, aos quais se junta uma preparação minuciosa de cada Rali. 

As provas de estrada sempre se caraterizaram pela capacidade de ajustar andamentos em função de determinados contextos. 

Há, se quisermos, diversos Ralis dentro de cada Rali. 

O idílio romântico do flatout permanente desde o primeiro ao último quilómetro de prova não existe, ou quando existe dá bons resultados numa minoria de ocasiões. 

Há que avaliar previamente, dentro de cada tipo de Rali e das respetivas caraterísticas, os momentos certos para andar a fundo e as fases em que o piloto se deve resguardar colocando-se a salvo de contratempos. 

Em suma: há que ter uma estratégia delineada e capacidade de executá-la. 

José Pedro Fontes, nas declarações produzidas publicamente em jeito de rescaldo aos Ralis de Guimarães e de Castelo Branco, foi elucidativo quando explicou quais os troços que selecionou para atacar procurando fazer a diferença (as tabelas de tempos mostram que foi precisamente aí que cimentou a liderança em ambos os Ralis), e onde apostou em jogar pelo seguro para não comprometer as suas pretensões. 

A tática escolhida mostrou-se correta: pelo menos os resultados (duas vitórias) assim o demonstram, não obstante a excelente réplica dada por João Barros no Minho e Beira Baixa. 

Fontes não tem nada a provar relativamente à aptidão para disputar Ralis em parâmetros elevadíssimos de competitividade. 

Já foi em três ocasiões vice-campeão nacional absoluto (2007, 2008 e 2014)

Tem outros tantos títulos averbados no seu palmarés (em 2005 nas categorias S1600 e Turismos; em 2014 na categoria RGT)

Lidera atualmente a tabela pontual do campeonato nacional reservado a pilotos, e é seguramente um dos mais sérios candidatos ao cetro máximo no final do ano. 

Com este e o anterior trabalho não se pretende de forma alguma embarcar em exercícios comparativos entre pilotos, tão-pouco glorificar o José Pedro Fontes ou depreciar os seus principais rivais (vários deles também com tremenda qualidade)

O nosso intento, pelas ideias que fomos desenvolvendo, passa acima de tudo por fornecer alguns dados e detalhes, vários deles por vezes desconhecidos do grande público ou de análise pouco cuidada pelos adeptos de Ralis, que ajudam a compreender a forma como se constroem os pilares de um palmarés repleto de vitórias e honrarias. 

Acabamos como começámos. 

Alguns (reduzidos) núcleos dos Ralis portugueses alimentaram (sobretudo) em 2014 uma mensagem quase subliminar, assente na hiperbolização das performances de um carro (o Porsche 997 GT3 que (ou)vimos nos troços nacionais) como forma de desvalorizar a mestria de quem o pilotou. 

Uma vez que os indicadores que vão sendo fornecidos em 2015 dão conta que não é pelo carro que o piloto (agora) ao serviço da DS/Citroen vence e domina Ralis, não se estranhará que tais núcleos possam em breve vir a terreiro talvez reivindicar a interdição de carros oficiais no campeonato nacional e Ralis, ou quiçá mesmo até, hipótese a não descartar, sugerir a proibição em definitivo e com efeitos imediatos da participação de José Pedro Fontes em provas da modalidade no nosso país…

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Mera curiosidade estatística. 

José Pedro Fontes detém sete triunfos em termos absolutos no CNR até à data (2008: Rali Casinos do Algarve. 2010: Rali Centro de Portugal. 2014: Rali da Vinho Madeira, Rali Vidreiro, Rali Cidade de Castelo Branco. 2015: Rali Cidade de Guimarães, Rali de Castelo Branco)

Já em 2015, conseguiu o feito de ter obtido tal somatório de vitórias acompanhado de quatro navegadores diferentes (a saber: António Costa, Paulo Babo, Inês Ponte e Miguel Ramalho), empatando nesse item com José Miguel Leite Faria, que ostentando nove triunfos no seu palmarés em provas pontuáveis para o campeonato nacional de Ralis (1988: Rali Alto Tâmega. 1991: Rali Sopete/Póvoa de Varzim, Rali das Camélias, Rali Alto Tâmega. 1992: Rali Esso Futebol Clube do Porto, Rali Rota do Sol. 1993: Rali Esso Futebol Clube do Porto, Rali dos Açores. 1995: Rali dos Açores/BCA), partilhou-os com António Manuel, Luís Lisboa, Carlos Magalhães e Ricardo Caldeira

Leite Faria e Fontes em toda a história do nacional de Ralis (desde 1966) só são superados neste particular por Américo Nunes, que nos dezasseis triunfos à geral (1967: Volta a Portugal, 1000 kms do Benfica. 1968: Volta a Portugal, 1000 kms do Benfica. 1969: Rali das Camélias, Volta à Madeira. 1970: Rali das Camélias, Rali Rainha Santa, Volta ao Minho, Rali da Montanha, Volta à Madeira. 1971: Volta a Portugal, Rali das Camélias. 1973: Rali Rainha Santa. 1977: Volta à Madeira. 1978: Rali Rota do Sol) registados no seu palmarés, fê-lo tendo como parceiros cinco copilotos distintos (Evaristo Saraiva, João Batista, Fernando Fonseca, F. Castelo Branco e António Morais), sendo nesta matéria o mais ‘versátil’ piloto de sempre Giovanni Salvi, que nas nove vitórias à geral inscritas no respetivo currículo desportivo (1971: Rali às Antas, Rali Rainha Santa, Rali da Montanha, Volta à Madeira. 1973: Volta ao Minho, Volta a São Miguel. 1976: Volta a São Miguel, Volta à Madeira. 1978: Rali da Figueira da Foz) partilha os louros com seis penduras que dão pelo nome de Pedro de Almeida, José Ferreira, José Arnaud, Barbosa da Costa, Luigi Valle e António Morais.

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