P.E.C. Nº 302: Medo? Medo é cena que não lhes assiste...



Há duas semanas um grupo de pilotos e copilotos que competem de forma regular no campeonato nacional de Ralis alertou, de forma pública, para os perigos em matéria de segurança que constituem os três primeiros quilómetros da classificativa das Sete Cidades, integrada no Rali dos Açores a disputar no final da próxima semana. 

A chamada de atenção foi realizada de forma cordata e num tom que interpretamos como construtivo. 

Nenhum dos subscritores de tal manifesto (chamemos-lhe assim) referiu sequer equacionar não participar na prova (as presentes linhas estão a ser redigidas antes de se conhecer a lista oficial de inscritos), caso tal segmento, já há vários anos não utilizado em percurso cronometrado (justamente pela sua perigosidade, estamos em crer…), permaneça integrado dentro de dias na lendária especial da ilha de São Miguel, versão/2015. 

Alexandre Ramos, Carlos Martins, Diogo Salvi, Gil Antunes, João Correia, Luís Mota, Ricardo Teodósio e Paulo Babo expressaram uma opinião, revelando a frontalidade que, neste assunto em concreto, vai faltando a muitos outros seus pares que têm as mesmíssimas reservas quanto à segurança daqueles três quilómetros (alguns deles confidenciaram-nos isso mesmo em privado), mas que por interesse, para não gerar melindres, ou simplesmente por falta de coragem e solidariedade preferem primar pelo silêncio num assunto que também lhes toca diretamente, numa reminiscência da crónica falta de sentido de classe de quem compete que também é um dos problemas estruturais dos Ralis portugueses. 

A partir do arquipélago, as respostas que atravessaram o Atlântico oscila(ra)m entre o irresponsável, o risível, o arrogante e o infantil, sobretudo as provenientes do Diretor de Prova, António Andrade, e do Presidente do Grupo Desportivo e Comercial (entidade organizadora), Francisco Coelho, ampliada, claro está, por um coro ‘viral’ de pretensos adeptos de Ralis nas redes sociais, que da modalidade e das suas nuances manifestamente conhecem muito pouco ou nada. 

Podia-se esperar que os mais destacados responsáveis do Sata Rallye dos Açores dissessem estar em desacordo com os subscritores do 'polémico' (que de polémico tem muito pouco…) comunicado

Seria normal que ao alerta formulado pelos oito nomes atrás mencionados, de forma também pública passassem uma mensagem tranquilizadora, garantindo total segurança naquele local, designadamente no que respeita à queda dos carros várias centenas de metros a pique em caso de saída de estrada a grande velocidade. 

Porém, a estratégia adotada foi diferente. 

Assentou numa truculência inusitada, pouco condizente com uma prova internacional e integrada na segunda mais importante competição de Ralis em todo o mundo. 

O primeiro arremesso atirado contra os subscritores do manifesto dos oito passou por sugerir que teriam 'medo'

Nesta matéria socorramo-nos, por exemplo, de Paulo Babo

O experiente navegador de Marco de Canavezes já vi(ve)u um pouco de tudo em matéria de Ralis, das provas internas aos mais emblemáticos e difíceis palcos internacionais. 

Sentou-se ao lado de José Pedro Fontes a 200 quilómetros/hora nas rapidíssimas especiais de São Pedro de Moel, balizadas por pinheiros a meio-metro do asfalto, raciocínio que se aplica, com as necessárias diferenças, aos troços, entre outros, do Rali da Alemanha ou de França. 

Competiu em Arganil das ravinas mil. 

Andou a fundo na Finlândia dos 1000 lagos e dos 1000 saltos. 

Conhece, portanto, várias das mais conhecidas classificativas ao redor do planeta. 

Daquilo que conhecemos das intervenções públicas de Babo em matéria de Ralis, sempre retivemos um registo sereno, construtivo e particularmente lúcido na abordagem à modalidade. 

Sugerir-se, portanto, estarmos perante alguém com ‘medo’ de entrar num carro de Ralis para andar no limite, é um discurso no mínimo insultuoso para todos aqueles (os concorrentes) que se afirmam como o sustentáculo e a razão de ser de cada prova, raciocínio que também pode aproveitar, por exemplo, a Ricardo Teodósio, ironicamente conhecido por ser um dos mais temerários pilotos do plantel atual dos Ralis nacionais. 

Os cavalheiros Andrade e Coelho, secundados servilmente pelo antigo (?) piloto Luís Pimentel, lá continuaram a sua sanha arrogante contra os oito pilotos/copilotos atrás citados, por entre insinuações de 'problemas do foro emocional e psicológico' e a recomendação, boçal, de que se dediquem ‘à prática do golfe’

Ter consciência do perigo é diferente de ter ‘medo’

O condutor comum pode andar no seu carro do dia-a-dia a 200 quilómetros/hora sem quaisquer receios na ‘Segunda Circular’, na ‘EN 125’, ou na ‘VCI’, mas ainda assim ter noção dos elevados riscos que isso implica. 

Ao contrário do que António Andrade e Francisco Coelho ardilosamente tentaram fazer crer, não está, nem nunca esteve, em causa a segurança do Rali dos Açores, nem sequer a da especial das Sete Cidades

Aliás, nenhum dos subscritores do comunicado (à exceção de Salvi em 2014, que nos pareceu ao tempo uma voz isolada e talvez desacertada com a realidade) em anos anteriores beliscou uma vírgula que fosse quanto ao esquema de segurança do evento. 

As oito vozes que se levantaram nesta questão fizeram-no apenas relativamente à primeira cumeeira, correspondente aos três primeiros quilómetros da versão da lendária classificativa traçada para a edição do Sata Rallye dos Açores em 2015. 

Parece-nos evidente que se trata de um excerto de classificativa muito perigoso em caso de violenta saída de estrada, que nem as garantias de estreitamento do troço e a profusão de fardos de palha na respetiva berma sossegam na totalidade. 

Num quadro destes, com a obstinação da organização em manter em trajeto cronometrado os três quilómetros da celeuma, seria de esperar que a FPAK interviesse com alguma firmeza. 

Manuel de Mello Breyner deslocou-se aos Açores, mas fê-lo, na nossa leitura, mais como uma ação de pré-campanha com vista à reeleição no próximo escrutínio eleitoral que propriamente com o intuito de estancar em definitivo o problema. 

Em matéria de segurança não há possibilidade de acordos, concessões ou cedências: ou há, ou não há segurança, ponto. 

Ao invés de se deslocar ao arquipélago e, cerce, exigir do GDC garantias sólidas de que não há risco para a integridade física dos concorrentes naquele excerto cronometrado das Sete Cidades, transferindo para a organização do Rali o ônus da questão, Breyner apostou em não afrontar em demasia um reduto que lhe poderá render decisivos votos em próximos sufrágios eleitorais, lá referindo que o troço foi vistoriado pelos responsáveis pela segurança locais e internacionais, haverá um reforço da berma da classificativa com fardos/rolos de palha (não se percebeu se na totalidade do troço ou apenas no setor agora envolto em polémica), mas curiosamente nunca em momento algum se referiu diretamente ao comunicado em questão nem comentou a posição nele expressa pelas respetivos signatários. 

A controvérsia parece ter entretanto estancado. 

Pensamos que os oito pilotos e copilotos terão intuído ser preferível remeter-se ao silêncio e não alimentar um clima de beligerância de que a modalidade seguramente prescinde.

Talvez porque tenham percebido o estilo dos seus interlocutores. 

Talvez por respeito a uma instituição quase a celebrar as bodas de ouro

O Sata Rallye dos Açores é (e, confiamos, continuará a ser por muitos e bons anos…) um dos mais sensacionais Ralis do planeta, repleto de estradas soberbas para a prática deste desporto. 

Tem com inteira justiça uma projeção e prestígio internacional enormes, de que a região açoriana e o resto do país se devem fortemente orgulhar. 

Liderar um evento desta grandeza pressupõe ser-se sábio nas declarações que se profere e assertivo nas relações com quem rodeia a prova, sobretudo com quem paga, e bem, para nela participar e nessa medida ter toda a legitimidade para reivindicar elevados padrões de segurança. 

Ser o rosto de uma prova como o Sata Rally dos Açores pressupõe, em suma, estar-se à altura dos pergaminhos do evento. 

Tudo o que os cavalheiros Andrade e Coelho não conseguiram perceber neste episódio deveras escusado e claramente evitável.

ï ðï ðï ðï ð

A FOTO PUBLICADA NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://aminus3.s3.amazonaws.com/image/g0010/u00009738/i00403847/05b0f50247863769be49079358d86ba1_large.jpg

Comentários

  1. Recorrer a um advogado e ir à televisão é construtivo? Só mesmo em Portugal...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário