sábado, 27 de junho de 2015

P.E.C. Nº 308: Este estranho vício luso de legislar...


Explorando as admiráveis ferramentas que o mundo da informática hoje oferece, designadamente o recurso a imagens colhidas através de satélite nas mais conhecidas plataformas existentes para o efeito, andávamos recentemente às voltas com o percurso do Rali da Sardenha disputado há duas semanas quando constatámos um aspeto curioso: um troço pequeno, com pouco mais de dois quilómetros e quinhentos metros de extensão e disputado em linha (ver mapa AQUI), distinto, portanto, da classificativa em regime de circuito fechado que vulgarmente se conhece como superespecial.

Tal facto chamou-nos a atenção.

Não só por ser pouco comum, pelo menos em anos recentes, haver nos eventos do WRC especiais com percurso tão reduzido.

Mas, acima de tudo, por aquilo que pelos vistos é possível numa prova do campeonato do mundo ser completamente interdito nas etapas do campeonato nacional de Ralis.

Dentro do emaranhado (muitas vezes confuso e mal redigido…) de regras, regrinhas, imposições, obrigatoriedades e, anacronicamente, respetivas exceções que vão regendo a modalidade no nosso país, o legislador português de Ralis, não se sabe bem quando e sobretudo não se sabe porquê, lá sacou da cartola a impossibilidade de um troço integrado numa prova do CNR ter menos de cinco ou mais de trinta quilómetros de percurso cronometrado, conforme determina o quadro anexo ao ponto 18.1 das Prescrições Específicas de Ralis a vigorar na época desportiva de 2015 (documento consultável na íntegra AQUI).

A razão de ciência para estas medidas standard ninguém a sabe.

Porquê cinco (e não quatro, ou seis, ou sete…) quilómetros como mínimo exigível para desenhar um troço, bem como trinta (e não vinte e cinco, ou trinta e cinco, ou quarenta…) como teto máximo para colocar uma tomada de tempos final, são questões a que nenhum dos agentes mais diretamente ligados aos Ralis consegue dar resposta concreta.

Caso um organizador pretenda minimizar incómodos para as populações (matéria não despicienda no caderno de encargos para esquematizar uma prova, devendo entender-se como ‘incómodos’ não só os que decorrem do dia de prova, mas também aqueles que advém dos reconhecimentos ilegais feitos muitas vezes a tarde e a más horas, e a tarde e a más velocidades… ) e fazer um troço com 4,5 quilómetros cheio de zonas repletas de interesse para público e concorrentes, expurgando-lhe quinhentos ou seiscentos metros a percorrer dentro de aglomerados populacionais, está impedido de o fazer.

Se um organizador quiser, por exemplo, reproduzir num dos eventos do CNR as classificativas de Vieira do Minho e/ou Fridão nos moldes em que foram desenhadas para o Rali de Portugal de 2015, cheias de desafios em termos de pilotagem e visualmente ótimas para o comum dos aficionados, estará a extravasar os limites do regulamentarmente admissível.

Numa modalidade que se deseja o mais diversificada possível e na qual cada Rali possua carácter próprio, edificar uma prova repristinando, por exemplo, a velha matriz britânica (assente em eventos com um grande número de pequenos troços) é inviável.

Uma hipótese mais concreta: quem queira em Portugal colocar na estrada um Rali pontuável para o CNR, com 130 quilómetros de segmentos cronometrados, divididos por um grande troço de cinquenta quilómetros e vinte outros troços com uma média de quatro quilómetros cada (quem desdenharia uma prova tão desafiante assim?), pura e simplesmente pode guardar tal projeto na gaveta que os regulamentos não o aceitam.

Em suma, para a FPAK o tamanho conta.

Ninguém que se dê ao cuidado de analisar as vicissitudes deste desporto, percebe o nexo de causalidade que justifica a limitação em cinco e trinta quilómetros como, respetivamente, balizas mínimas e máximas para se traçar especiais na competição maior de Ralis em Portugal.

Não descortinamos que daqui resulte algo de especialmente positivo para a defesa das provas do CNR.

A não ser que, condescendemos, se trate de algo no domínio do inconsciente, talvez uma reminiscência da adoração em legislar (muitas vezes legislando-se mal) que há muitos anos faz curso neste nosso país, visando projetar uma imagem de planificação e organização que é tudo aquilo que enquanto sociedade não somos.

Ou então, hipótese a considerar, o citado ponto 18.1 das Prescrições Específicas de Ralis a vigorar na época desportiva de 2015 não é mais que novo momento, a somar a tantos outros, em que a modalidade liga o complicómetro a alta-rotação…

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