P.E.C. Nº 314: Reconhecimentos ilegais. Uma selfie dos Ralis nacionais na qual ninguém fica especialmente bem...



"Os reconhecimentos ilegais continuam a dar que falar e no Rali Cidade de Guimarães voltaram a estar na ordem do dia. Sem qualquer controlo por parte da FPAK e das organizações dos clubes, foi possível apurar que, na segundo prova do ano do Nacional de Ralis, pilotos foram vistos a fazer reconhecimentos no próprio dia de arranque do rali, o que parece ultrapassar todos os limites do bom-senso. Se há bem pouco tempo a entidade federativa assumiu não ter meios para controlar as infrações, o que até pode ser, de certo ponto de vista, compreensível, parece deixar de o ser quando elas acontecem no próprio dia do rali, ficando a ideia do que falta mesmo é 'vontade política' para resolver o problema." 
in AutoSport n.º 1946
15 de abril de 2015

A pequena notícia que acima reproduzimos é datada deste ano.

Da presente época desportiva, portanto.

Em concreto: de há meras cinco provas atrás integradas no calendário do campeonato nacional de Ralis de 2015.

Meia-dúzia de frases servem na perfeição para nos relembrar uma realidade pintada em tons de negro mas bem presente e conhecida no meio da modalidade.

Abordar a questão dos reconhecimentos ilegais nos Ralis em Portugal é, desde sempre, invariavelmente tocar num ponto melindroso deste desporto.

Há um desconforto generalizado quando por qualquer motivo o tema ganha expressão mediática e sai do limbo de silêncios a que muitos (todos?) dos principais agentes da modalidade interessa manter esquecido.

Na preparação de cada Rali, o recurso ao admirável mundo das novas tecnologias para identificação e reconhecimento do respetivo percurso é hoje algo comum a todos os concorrentes.

Antecipar cenários e saber previamente com o máximo de detalhe os caminhos que depois se vão pisar em ritmo de competição, não só é mandamento para quem entra em Ralis no intuito de andar o mais rápido possível, como quase obrigação para quem se pretenda credibilizar e ser levado a sério na modalidade.

Não obstante todo um conjunto de ferramentas virtuais ao dispor de quem compete para, por antecipação, preparar o mais convenientemente possível as notas que serão ditadas no dia de prova (matéria com alguma complexidade para a qual, convenhamos, os regulamentos dos Ralis ainda não souberam adequar-se), continua a ser insubstituível a avaliação pessoal das condições dos troços, feita presencialmente através dos reconhecimentos por piloto e respetivo navegador.

Ensinam as normas dos Ralis que, por via de regra, apenas são permitidas duas passagens no percurso de cada classificativa antes da prova propriamente dita: uma, a primeira, para colher as notas que constarão do caderno do navegador para ser lidas em competição, e uma outra, a segunda, para as confirmar ou, se necessário, as corrigir.

Em Portugal tal normativo é, desde há muitos anos, praticamente letra-morta.

Os reconhecimentos ilegais, traduzidos em sucessivas passagens nos troços em regime de clandestinidade antes de prova, são o maior pecadilho dos Ralis portugueses, do qual quase ninguém dentro dos protagonistas da modalidade (pilotos, organizadores e entidade federativa) sai especialmente bem-visto no respetivo retrato…

a) Os pilotos…

Ouvimos e lemos amiúde declarações de quem compete, insurgindo-se contra a rebaldaria de reconhecimentos feitos à base de dezenas de passagens nas especiais no período que medeia a apresentação de um qualquer Rali e as horas imediatamente antes do mesmo começar.

Mesmo dentro do conjunto dos pilotos de topo do CNR, alegadamente com mais meios financeiros que o grosso do pelotão para competir na modalidade, não é difícil encontrar exemplos de críticas com o acréscimo de encargos decorrentes destas passagens ‘extra’ (em orçamentos quase sempre apertados), ou o assinalar da incongruência em haver um conjunto de carros especificamente destinados a reconhecimentos que, somados, fazem corar de inveja o parque automóvel de várias provas do calendário oficial deste desporto em Portugal.

São, em suma, recorrentes as vozes a reivindicar necessidade premente de introduzir moralização nos reconhecimentos realizados à margem da regulamentação que rege a questão.

O problema que se levanta é na passagem das palavras para os atos.

Perdoe-se a nossa frieza, mas a observação que fazemos da realidade dá-nos conta de um cenário carregado de cinzentismo, em que a generalidade dos pilotos e navegadores ao invés de trabalhar no sentido de mobilizar os seus pares para o combate conjunto aos reconhecimentos ilegais, opta na esmagadora maioria das situações por fazer exatamente o contrário dos princípios que apregoa, sucumbido à tentação de incumprir regulamentos.

Há muito poucos impolutos nesta matéria.

Num meio pequeno, em Ralis quase sempre iguais e em itinerários sobejamente conhecidos, os telhados de vidro quanto a reconhecimentos fora das regras são uma generalidade.

Para combater os vícios e esquemas dos outros, o elenco dos concorrentes aos Ralis portugueses escolhe quase sempre o conforto e a comodidade de se deixar deliberadamente levar pela onda de tais vícios e esquemas.

O velho adágio, carregado de alguma ironia, que incita a que ‘faz o que digo: não faças o que faço’, tem nos Ralis portugueses uma admirável expressão prática.

Quando seria expectável que partisse dos próprios pilotos um elã firme e determinado em por cobro a práticas ilegais em matéria de reconhecimentos, colocando-os todos em pé de igualdade na preparação de cada prova, o contexto demonstra precisamente o contrário, caminhando-se quase sempre, em linhas gerais, no sentido de engrossar a anarquia desregrada e sem quartel que pauta este tema.

Nas diversas reflexões que temos promovido neste espaço acerca do campeonato nacional de Ralis, fomos fazendo feito inúmeras vezes a defesa de quem compete, por entendermos que há bastante trabalho a fazer no sentido de recentrar o foco da modalidade nos seus protagonistas, muitas vezes o elo mais fraco de todo o ordenamento que norteia este desporto no nosso país.

No aspeto em particular da irregularidade dos reconhecimentos nas provas, lamentamos, porém, que pilotos e navegadores recusem de forma séria assumir-se enquanto parte da resolução do problema.

E quando espartilhados numa tão confrangedora quanto lamentável APPAtia não pretendem ser parte da resolução do problema, então necessariamente passam a tornar-se de imediato parte integrante do problema.

b) Os organizadores…

Não fazemos uma leitura segundo a qual deva ser quem organiza Ralis a assumir as dores de fiscalizar a regularidade dos reconhecimentos nas respetivas provas (ver mais abaixo declarações de Joaquim Capelo, diretor FPAK com o pelouro dos Ralis).

Há um edifício legislativo geral e abstrato que rege esta matéria, pelo que tal ónus recai, a nosso ver, na entidade federativa.

As entidades organizadoras não têm interesse em entrar num processo de hostilização relativamente a quem (os concorrentes) lhes garante o sustentáculo dos respetivos eventos, pelo que sugerir-se que devam ser parte ativa nesta matéria não só nos parece pouco sensato como até ser algo claramente a evitar.

Aos clubes que colocam os Ralis no terreno devem ser pedidas meças por tudo aquilo que decorre durante a prova (incluindo os reconhecimentos oficiais) e não por aspetos extradesportivos à margem do evento.

Não é difícil antever, dentro de toda uma teia de pequenas tramas e maquinações que os Ralis nacionais alimentam há muitos anos, que uma participação direta ou indireta dos organizadores no processo de fiscalização aos reconhecimentos ilegais iria em muitos casos necessariamente originar fugas de informação, bem como prejudicar o efeito-surpresa que o combate a qualquer comportamento à margem das normas tem obrigatoriamente de ter para se tornar eficaz.

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"Os reconhecimentos de ralis em Portugal e, em particular, no Campeonato Nacional têm regras definidas mas que estão longe de ser cumpridas. Por isso, há quem considere que se não é possível controlar os reconhecimentos ilegais, mais vale liberalizar as regras definitivamente. Uma questão polémica e que, em última analise, aparece como uma pedra no sapato de muitos pilotos e, sobretudo, de jovens que se quiserem ter sucesso nos ralis internacionais têm que se habituar a não fazer mais do que duas passagens de reconhecimentos, como acontece na maior parte das provas internacionais. Principal responsável pela regulação dos reconhecimentos, a FPAK afirma-se impotente para controlar as investidas fora de horas pelos troços dos pilotos. Conforme confessa Joaquim Capelo, diretor da FPAK e um dos principais responsáveis pela ‘pasta’ dos ralis, “praticamente todas as semanas falamos deste assunto nas reuniões e a verdade é que não temos a solução ideal para acabar com os reconhecimentos ilegais. Os pilotos jogam ao rato e ao gato e faltam-nos os meios para poder controlar os seus passos. Até poderiamos limitar mais os reconhecimentos nos dias que as organizações os agendaram, mas isso implicava que as organizações tivessem mais custos e muitas delas já estão no limite do que podem gastar. Na verdade, isso também só resolveria uma parte do problema pois não podemos pagar às forças de autoridade ou às organizações para uma semana ou um mês antes do rali estar a identificar pilotos na zona dos troços”. Sob esta perspetiva, “se não temos os meios de exercer um controlo é apelar ao bom senso  e coração das equipas e esperar que os pilotos respeitem o regulamento”. Mas aquilo que, no fundo, está a ser pedido é uma mudança de mentalidade e isso, infelizmente, não se faz de um dia para o outro..." 
Notícia publicada no site da revista AutoSport em 1 de abril de 2015

c) A Federação…

A notícia data de 1 de abril do corrente ano.

Podia-se lê-la à luz de uma qualquer inócua mentira a que associamos a tal data.

Mas não.

É real.

No contexto de uma série de declarações então proferidas sobre a temática dos reconhecimentos nos Ralis, Joaquim Capelo, Diretor da FPAK a quem está confiada a pasta alusiva à modalidade, abordou o problema publicamente de uma forma que, analisada e lida sob o ponto de vista institucional, é grave.

Talvez possamos enquadrar o pensamento expresso por Capelo no âmbito de uma frontalidade quase ingénua.

É admissível que se possa justificar o ponto de vista do homem-forte da Federação para os Ralis à luz de uma inabilidade comunicacional, ou dentro de uma incapacidade para medir o efeito e alcance das respetivas palavras (algo que ainda assim seria pouco compaginável com as altas-funções a que está acometido).

Da súmula do que foi referido à AutoSport, evidencia-se a ideia de que a FPAK não tem meios (técnicos? humanos? financeiros?) para controlar as diatribes dos pilotos quanto a reconhecimentos às classificativas fora dos períodos expressamente consignados para o efeito.

Soluções milagrosas e ideais para por cobro a estas práticas, de facto, não existem, uma vez que a questão é em si própria complexa.

Joaquim Capelo pode até no seu íntimo estar convicto que a entidade federativa não tem mesmo forma de dar a volta ao problema.

Pode, por exemplo, em privado e dentro do seu círculo de amizades confidenciar que o assunto é uma doença para a qual a FPAK não encontra cura.

Jamais pode é dizê-lo publicamente!

Em meia-dúzia de frases, Capelo conseguiu desencadear aquilo que nos meios de comunicação se costuma apelidar de ‘tempestade perfeita’.

Em algumas dezenas de minutos de declarações públicas à imprensa especializada, sinalizou, de forma clara, que os regulamentos não são para cumprir, e que a FPAK (à partida a entidade máxima a quem compete zelar pelo respetivo cumprimento) se demite, sem mais, de continuar a exercer a ação fiscalizadora que lhe está confiada, abrindo a caixa de pandora (a entrevista de 1 de abril não é alheia à notícia publicada quinze escassos dias depois que abre o presente trabalho) para uma verdadeira liberalização nos reconhecimentos das provas, para a qual Capelo não está mandatado, não está prevista em qualquer parte de todo o edifício regulamentar que a própria Federação fez aprovar para 2015, e nem sequer consta, tão-pouco, do ‘programa de governo’ com que a atual direção se apresentou a sufrágio no último ato eleitoral aos órgãos sociais da FPAK.

Se tudo isto somado já é profundamente perturbador, junte-se-lhe o facto da capitulação confessa do Diretor da FPAK para os Ralis quanto ao problema deitar completamente por terra o efeito dissuasor que qual norma regulamentar necessariamente produz quando a determinados comportamentos (no caso, a realização de reconhecimentos antes do tempo definido para os realizar) faz subsumir a respetiva sanção.

Dos mais altos dignatários dos Ralis em Portugal espera-se determinação e firmeza, nunca a capitulação perante situações pouco edificantes que têm marcado a modalidade, mancham a sua credibilidade, e perturbam de premeio a verdade desportiva.

Num quadro destes, manifestando Capelo falta de condições para continuar o trabalho no combate aos reconhecimentos antirregulamentares, dentro de uma certa ética e noção de serviço aos Ralis seria então de esperar que cedesse de imediato o lugar a qualquer outro agente que estivesse em melhores condições de levar a cabo tal missão (ou pelo menos demonstrasse férrea vontade nesse sentido).

À margem da espetacularidade dos carros e do virtuosismo dos nossos melhores pilotos (temos felizmente um acervo admirável de talentos a disputar as nossas provas e campeonatos), na subcave dos Ralis portugueses respira-se uma realidade pouco dada a mediatismos, onde comungam os velhos vícios e tiques de sempre, muitos interesses (por vezes conflituantes) em osmose plena, e em determinados setores uma crónica incapacidade em separar as águas do ponto de vista institucional, materializada em diversos dos mais destacados agentes da modalidade a claramente não destrinçar onde acaba o seu papel no enredo deste desporto e começa o do demais elenco.

Se a modalidade fosse autocrítica o suficiente para perceber e discutir os problemas que a toldam, desde abril do corrente ano que a alguém já teria ocorrido questionar se Joaquim Capelo tem condições para continuar a desempenhar o cargo que ocupa na estrutura da FPAK.

Em nossa opinião, por tudo o que desenvolvemos supra, dificilmente tem.

A autoridade disciplinar da Federação encontra-se agora ferida da morte.

Agravou-se uma certa fragilização da entidade máxima que dirige os destinos dos Ralis em Portugal (FPAK), aos olhos de todos os intervenientes direta ou indiretamente ligados à modalidade. 

O próprio Presidente da Federação, Manuel Mello Breyner, sai também chamuscado de todo este processo dado o silêncio a que se tem autorremetido sobre a questão, não se percebendo se cauciona a posição expressa por Capelo ou se dela discorda.

Não hostilizar em demasia os pilotos pode, de forma calculista, render dividendos no jogo de equilíbrios que irá operar nas próximas eleições aos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, caso, como desejamos, apareça uma multiplicidade de ideias, programas e projetos a apresentar-se a sufrágio.

Cruzar os braços perante o problema dos reconhecimentos ilegais (que há muito são prática nos Ralis portugueses) é, em definitivo, prestar um mau serviço a este desporto.

Se Joaquim Capelo não tem no seio da Federação meios para debelar este quisto da modalidade, compete-lhe trabalhar para consegui-los ou ceder o seu lugar a quem esteja disposto e motivado a alcançá-los.

Tão simples quanto isto.

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Nota 1:
A falta de cultura democrática que o nosso país ainda tem bem presente em muitos setores, leva muitas vezes a que se confundam críticas institucionais com ataques de natureza pessoal. Nessa medida, para que não exista qualquer tipo de dúvida na interpretação que cada leitor fará relativamente ao fomos escrevendo ao longo deste trabalho, queremos deixar bem claro que nada no plano pessoal nos move contra Joaquim Capelo (que nem sequer temos a grata honra de conhecer), que temos total respeito pelo seu percurso desportivo na modalidade, e que relativamente ao qual não temos a menor dúvida tratar-se de pessoa proba, estimável e séria. Todo o elenco de críticas que agora damos à estampa não são, como nos parece evidente, contra a pessoa ou o cidadão Joaquim Capelo, antes dirigidas ao Diretor FPAK para os Ralis. Por vezes pode parecer a mesma coisa, mas não é.

Nota 2:
Por entendermos desde sempre que a crítica pela crítica é indesejável, e que só tem um tom construtivo quando vem acompanhada de soluções passíveis de corrigir os contextos objeto de análise, entendemos ser nosso dever em breve apresentar neste mesmo blogue algumas ideias eventualmente úteis para ajudar a ultrapassar, no todo ou em parte, o problema dos reconhecimentos ilegais dos Ralis em Portugal, algo que vamos concretizar numa das nossas próximas ‘P.E.C.’

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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