P.E.C. Nº 315: Reconhecimentos ilegais. Querer ganhar a batalha sem sair do quartel-general...


... - continuação da P.E.C. anterior - ...
I)

uns anos (a nossa memória é hoje já algo imprecisa para especificar quais) fomos desafiados por duas ocasiões a ir assistir a reconhecimentos de Ralis.

Uma sucedeu através de amigo bem informado que comunga connosco do apego à modalidade.

Outra, ainda que de forma algo indireta, na decorrência de conversa com conhecida figura ligada ao automobilismo.

Sucedeu, podemos precisar, em duas épocas desportivas consecutivas, e em dois Ralis distintos um do outro.

Ao tempo (que não foi assim há tanto…), este período de preparação das provas ainda não tinha generalizadamente o nome de reconhecimentos.

Eram treinos, ponto final.

O repto interessou-nos de imediato, alimentando-nos a curiosidade e o adjacente nervoso miudinho que muitas vezes invade quem tem a rara oportunidade, concedia por norma a núcleos muito restritos, de assistir a algo fora das regras.

Ensina o povo, aliás, que o fruto proibido é o mais apetecido, não é?

Um certo ‘prazer-culpado’ conduziu-nos, pois, aos troços de tais Ralis, quase como se, dentro de um sentimento de pertença à modalidade, intuíssemos também ser prevaricadores e no subconsciente antecipássemos o medo de ser apanhados.

Numa das ocasiões recordamo-nos que os raios do sol faziam a primeira aparição do dia, na outra era o lusco-fusco de final de (fria) tarde que anunciava o anoitecer para alguns minutos depois.

Ou seja: situações ideais e seletivamente pensadas para conduzir ainda sem faróis ligados e com boa visualização da estrada, mas já com luz natural mais baça para ajudar a camuflar a identificação de quem, logo de seguida, apareceria a (muito) bom ritmo na estrada à nossa frente.

Os óculos escuros na cara dos condutores dos três/quatro carros que vimos passar em cada uma dessas ocasiões foram insuficientes para lhes encobrir por completo a identidade, e de imediato se percebeu na perfeição quem estava na nossa presença: destacados pilotos, ao tempo, no contexto do campeonato nacional de Ralis.

A experiência permitiu-nos arreigar uma ideia mais aprofundada deste desporto, longe do brilho glamoroso e cintilante dos Grupos B, do Alén ou do McRae.

À nossa frente ia desfiando um rosário de passagens pelas especiais, atravessadelas em bom estilo, cortes pelo interior de curvas, e carros que pareciam do dia-a-dia mas que pelo andamento e barulho manifestamente estavam faralhados, tipo aquelas mulheres que trajam no quotidiano um discreto conjunto saia-casaco, ao mesmo tempo que envergam como indumentária interior um poderosíssimo cinto de ligas.

Essas duas ocasiões ajudaram-nos a compreender uma série de coisas que os Ralis nacionais não gostam que sejam compreendidas.

A dicotomia públicas virtudes vs vícios privados ficou ali bem à vista, com pilotos a percorrer de forma antirregulamentar troços que disputariam em competição pouco tempo depois, ajudados por amigos e conhecidos a vigiar a classificativa ‘fechando’ cruzamentos e acessos ao troço.

Após a experiência não ficámos especiais entusiastas deste género de práticas.

Ou melhor: no plano dos princípios que devem nortear algo que se pretende afirmar como um desporto, após a experiência ficámos muito pouco (e ainda menos…) entusiastas deste género de práticas.

Pensámos durante algum tempo na desvantagem competitiva de quem entra em competição sem fazer concessões à decência e aos princípios.

Tentámos fazer um esboço mental de quanto se gastaria adicionalmente para quase fazer um Rali antes do próprio Rali.

E, até hoje, vamos por vezes conjeturando sob as melhoras formas (nunca ideais, nem perfeitas…) de, existindo um problema que se encontra perfeitamente identificado, se encontrar maneira de o minorar ou, preferível, resolver em definitivo.

II)

Os reconhecimentos ilegais são a nosso ver um problema central dos Ralis nacionais, que deve ser combatido encarando-o de frente.

O meio diretamente ligado à modalidade conhece múltiplos episódios e peripécias ligadas ao tema, pelo que não valerá a pena escamoteá-lo fingindo que não existe.

Existe.

Aliás, não só existe como é uma realidade bem presente no momento atual do CNR.

Não é fácil mensurar os Ralis portugueses quando estes se recusam permanente autoavaliar-se.

Num enquadramento de reconhecimento das provas que se sabe de antemão ter dados viciados, não há estranhamente uma única voz que esboce um sopro de desconforto ou um laivo de crítica sobre o tema.

É premente que a modalidade lance desafios a si própria, se questione, e a partir daí vá à procura de novos paradigmas que a façam alinhar-se com as melhores práticas em matéria de Ralis que ocorrem por esse mundo fora, campeonato do mundo incluído.

O clima de aceitação tácita relativamente à prática irregular dos reconhecimentos, é o primeiro caminho para as dificuldades que os pilotos nacionais experimentam quando competem em Ralis e/ou campeonatos no exterior.

Confira-se, a título de exemplo, a posição expressa por Diogo Gago sobre a questão, consultável aqui.

O maior erro estratégico em que este desporto sistematicamente incorre, é olhar para a questão dos reconhecimentos apenas sob o prisma regulamentar.

Esse será o problema a montante.

A jusante levantam-se, em simultâneo, interrogações de outra ordem.

Uma das críticas que generalizadamente os pilotos apontam às nossas provas é estas repetirem-se ano após ano, temporada após temporada, com segmentos competitivos (leia-se: troços) que mudam muito pouco ou mesmo nada.

Praticamente todo o pelotão que compete regularmente no CNR conhece quase na perfeição o terreno onde se disputam as provas (exceto as que integram pela primeira vez a competição, ou dela não constam há muitos anos como é o caso do próximo Rali de Mortágua, agora disputado em terra em classificativas outrora selecionadas para o Rali de Portugal), e por conseguinte não tem vantagem competitiva em andar a multiplicar-se em passagens por estradas que se encontram nas mesmíssimas condições do ano anterior, ou, ainda que tenham diferenças, estas por norma são de tal forma inexpressivas que não traduzem qualquer influência nos tempos finais a realizar depois na competição a sério.

Muito mais que colher informação atualizada sobre o estado dos troços, os pilotos socorrem-se do artifício dos reconhecimentos ilegais para treinar a condução em ritmo o mais próximo possível do de competição.

Entra aqui de forma automática o problema a montante.

Os reconhecimentos ilegais não podem ser perspetivados apenas sob o prisma regulamentar: tem de ser encarados em paralelo como uma infração ao código da estrada.

E necessariamente atacados nessa dupla vertente.

Sabemos que a FPAK, entidade a quem funcionalmente compete a gestão deste dossiê, não tem poderes para ir antes das provas (e fora dos períodos expressamente consignados aos reconhecimentos) aos troços intercetar e fazer parar carros onde alegadamente estejam sentados ao respetivo volante pilotos de Ralis.

Mas não obstante essa nuance, talvez possa e deva trabalhar no sentido de, seja em letra de lei, seja em sede protocolar, edificar uma espécie de parceria com os órgãos policiais com competência para a fiscalização do trânsito nas estradas.

Dentro de vários núcleos ligados aos Ralis, em roda livre contam-se muitos episódios de alegados ‘reconhecimentos’ à volta de velocidades desmesuradas dentro de povoações, ultrapassagens ao trânsito civil de cortar a respiração, entre outras violações grosseiras à sinalização horizontal e vertical que disciplina as estradas por onde passam Ralis.

Nos períodos antes de alguns Ralis nacionais irem para a estrada, há recorrentemente verdadeiras corridas automóvel a parecerem quase rivalizar, passe o exagero, com as famigeradas e lúgubres aceleradelas ilegais na A2 ou na Ponte Vasco da Gama.

É aqui que, repetimos, tem que incidir o foco da questão.

A partir do momento em que FPAK consiga sensibilizar as forças da ordem para este tipo de práticas, e se estabeleça no terreno a realização de operações conjuntas com vista a atacar a dupla face do problema, fazendo parar automóveis intercetados em contravenção ou mandando-os encostar à beira da estrada em meras operações de rotina (atacando a PSP/GNR as questões do foro do código da estrada, e em simultâneo um ou mais elementos da FPAK tratando de identificar para efeitos disciplinares quem vai a conduzir), estar-se-á no caminho correto para erradicar os reconhecimentos ilegais dos Ralis portugueses, ou pelo menos fazer pensar duas vezes os pilotos que são useiros e vezeiros no recurso a este tipo de expediente.

Alega a FPAK, com razão, que é impossível fiscalizar em regime de quase permanência os troços de um Rali durante duas ou três semanas (quando não mais) antes deste se disputar.

Por um lado porque, como é evidente, não há efetivos suficientes para poder, em regime de exclusividade, assegurar tal policiamento, sobretudo quando estamos perante estradas secundárias e com fluxos de trânsito diminutos.

Por outro porque, ainda que em tese fosse possível levar à prática o que se referiu na frase anterior, isso implicaria um dispêndio de verbas não compagináveis com o estado atual do automobilismo nacional em matéria de finanças.

A questão central não será essa.

No mundo atual em que se gere cada processo de comunicação para ter eficácia imediata, e se produzem notícias ao ritmo de quem faz pãezinhos-quentes, a prioridade da Federação enquanto entidade fiscalizadora não tem de ser sequer apanhar prevaricadores em flagrante.

Dentro de um conjunto de agentes da modalidade (os pilotos) que não conseguem, ou, pior, não querem autorregulamentar-se quanto à forma de realizar os reconhecimentos das provas, a FPAK tem que de forma incisiva apostar antes de mais é em dar sinais e fazer passar mensagens.

Sinais suficientemente claros de que há fiscalização no terreno.

Mensagens implícitas que inculquem no subconsciente dos pilotos a possibilidade de serem apanhados e punidos por estas práticas não permitidas nos regulamentos.

Para isso, quaisquer trinta minutos de ação fiscalizadora conjunta entre PSP/GNR e FPAK antes de qualquer prova, feita de forma cirúrgica, sem aviso prévio e com conhecimento reduzido aos elementos indispensáveis para garantir o secretismo e sucesso da operação, tem necessariamente resultados comprovados, sobretudo se, após os respetivos Ralis, diretamente ou indiretamente tal trabalho seja levado ao conhecimento de quem compete.

No primeiro Rali da época pode-se até não intercetar ninguém, mas os pilotos ficam a saber que há pela primeira vez uma intenção de fiscalizar e moralizar os reconhecimentos.

Ao segundo Rali do ano pode-se de novo não intercetar ninguém, mas os pilotos ficam a perceber que o assunto é para ser levado a sério, rompendo com a tradição de absoluto laxismo que tem pautado o tema desde os primórdios deste desporto no nosso país.

Ao terceiro rali da temporada pode-se novamente não detetar irregularidades, mas os pilotos interiorizam que a Federação não desarma no intuito de exercer a autoridade necessária para implementar regras iguais para todos.

E quando alguém por obra do azar for apanhado em pleno troço a fazer reconhecimentos sem estar autorizado para o efeito, sendo em consonância exemplarmente punido por conduta antidesportiva, aí o regabofe termina de vez, depuram-se os Ralis nacionais de velhos vícios que o alimentam há muito tempo, e estarão lançadas as bases para devolver à modalidade a credibilização de que necessita para se expandir e promover.

Sinais e mensagens: o ‘segredo’ começa por aí…

III)

No meio de todas as considerações que atrás se levantaram, há uma questão que inevitavelmente emerge: estão os Ralis portugueses preparados para uma revolução ao nível das mentalidades, desconstruindo-se quanto aos reconhecimentos uma realidade à muito enraizada no espírito de vários dos protagonistas da modalidade?

Temos dúvidas.

Aliás: muitas dúvidas.

O assunto, nas raras ocasiões em que se debate com profundidade a modalidade, é invariavelmente tratado com luvas de pelica, quando não votado a um olímpico (e muito conveniente) silêncio.

As sucessivas candidaturas que de há anos a esta parte têm concorrido aos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, que nos recordemos nunca inscreveram esta problemática com nota de destaque nos respetivos programas eleitorais, muito menos a promoveram como uma bandeira a hastear em caso de eleição.

A tarefa é difícil e exige persistência.

Reivindica pessoas com um perfil resoluto que, a bem dos princípios, se necessário não hesitem em comprar uma guerra com os pilotos até que a questão possa ser solucionada.

Pessoas suficientemente distanciadas do núcleo duro dos Ralis em Portugal, que, por tal via, estejam resguardadas (e acima) de pressões e interesses das mais variadas proveniências.

Pessoas com espírito de missão, que não se desviem um milímetro do propósito de trabalhar para que a igualdade de condições para a prática da modalidade seja um dado concreto, nem façam do seu trabalho uma mera plataforma para reeleições futuras.

Pessoas que cheguem para, se necessário for, cortar a eito sem olhar a credos ou a nomes, caso a via do diálogo redunde em impasses.

Pessoas que, em suma, ousem fazer algumas provocações ao establishment e mexam num certo imobilismo de que esta modalidade enferma há muitos anos.

Os Ralis nacionais nunca encontraram pessoas com essas características.

Nem vão encontrar.

Por um lado porque pessoas com tais características possivelmente não existem.

E se existem, os Ralis estão tudo menos interessados em puxá-las para o seu naipe de principais decisores.

Nessa medida tudo vai alegremente continuar como está, com uma ou outra voz crítica de premeio à qual ninguém prestará atenção nem se dignará rebater argumentos.

Por isso, caro leitor, desde já se lança a sugestão.

Esqueça tudo o que leu neste e no nosso anterior trabalho.

Finja, simplesmente, que ambos nunca existiram…

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Nota:
- A foto selecionada para abrir este trabalho reporta-se ao período de reconhecimentos definidos pela organização (completamente em conformidade com os regulamentos, portanto) ocorridos no Rali Serras de Fafe em 2014. De forma alguma se pretende sugerir, implícita ou tacitamente, qualquer ligação do piloto e copiloto que na imagem aparecem no interior do Subaru (pensamos, sem certezas, tratar-se, respetivamente, de Américo Antunes e João Serôdio) a práticas menos regulares ou, se quisermos, ilícitas, em matéria de reconhecimentos de classificativas.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://autosport.pt/iv/1/53/541/img1521-4b6f.jpg

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