P.E.C. Nº 317: Duelo de t(r)itãs...


quinze anos o campeonato nacional de Ralis vivia, ainda, uma fase de apogeu.

As marcas viam na competição maior da modalidade uma montra preferencial para expor os seus produtos.

O mercado automóvel em Portugal ainda não era (ou pelo menos não parecia…) tão estrangulado fiscalmente como sucede hoje, e o poder de compra dos portugueses era (ou pelo menos parecia…) no essencial mais expressivo que na atualidade.

Nas classificativas nacionais, além de outros automóveis muito bem preparados, evoluíam três WRC (quase) iguais aos das equipas oficiais do campeonato do mundo, de outros tantos construtores (Peugeot, Toyota e Seat), confiados a homens do mais fino quilate que os Ralis portugueses já conheceram: Adruzilo Lopes, Pedro Matos Chaves e Rui Madeira.

Três titãs da condução.

'Tritãs', portanto, navegados por outros nomes não menos incontornáveis da modalidade como, respetivamente, Luís Lisboa, Sérgio Paiva e Fernando Prata.

É certo que não havia a saudosa equipa oficial da Renault, a qual havia encerrado portas no final da temporada anterior quanto ao envolvimento direito e oficial nos Ralis nacionais.

Não havia o furacão (e tornado, e tsunami, e tudo o que são fenómenos – ele próprio era um fenómeno - da natureza a irromper em simultâneo) Macedo.

Também já não havia a rapidez discreta de Azeredo.

Em alta voltagem para esta modalidade despontava, porém, Vítor Lopes ao volante do nervoso (e espetacular) Saxo Kit Car, com o apoio da sucursal portuguesa da Citroen.

Da parte da Fiat a ambição em fazer frente aos homens do double chevron era grande, e esse intento viria em grande parte a materializar-se com o ‘roubo’ à velocidade do campeão nacional do ano anterior, para o sentar ao volante do pequeno Punto Kit Car, transferência entre modalidades que, ironicamente, volvidos quinze anos se verifica também agora mas em benefício da marca francesa, com a curiosidade adicional do denominador comum entre passado e presente se chamar José Pedro Fontes.

No campeonato nacional de Ralis disputado no ano de 2000 pontificavam ainda nomes como o incontornável Fernando Peres, que esporadicamente exibiu em algumas provas nas classificativas lusas o velho Escort WRC, ou Gustavo Louro que com determinação e virtuosismo ensaiava o processo de transição dos Ralis insulares para a realidade dos eventos continentais aos comandos do Ford Escort de grupo A da Peres Competições.

O agrupamento de produção daqueles anos respirava vitalidade.

Se a luta pelo título absoluto envolveu três mosqueteiros, Miguel Campos foi o D’Artagnan capaz de desembainhar a sua espada, o Lancer de grupo N, e bater-se galhardamente e de peito aberto até ao último duelo do ano, ali por terras de Viriato, num pelotão de grande nível onde se destacavam guerreiros como Pedro Dias da Silva, Bruno Magalhães, Víctor Pascoal ou o sempre incontornável e combativo Pedro Leal.

Dezoito classificativas, mais de duzentos e vinte quilómetros de segmentos cronometrados para uma extensão total, percursos de ligação incluídos, de cerca de setecentos e vinte e seis quilómetros, foi o formato que o Rali Rota do Vidro disputado há quinze anos encontrou para afirmar-se, ao tempo como hoje, como uma das mais emblemáticas provas nacionais da modalidade, levando a caravana de concorrentes por um longo périplo com passagens por São Pedro de Moel, Figueiró dos Vinhos e Lousã.

É desse evento, organizado pelo Clube Automóvel da Marinha Grande, que se reportam as imagens que seguem.

Muitos anos passaram neste entretanto.

Muitos Ralis pudemos ver de lá para cá.

Muitos carros no limite.

Os mais incríveis pilotos e navegadores nacionais e internacionais evoluíram a respetiva arte perante os nossos olhos.

Do nosso rol de memórias em trinta anos de Ralis fica, porém, no rescaldo do Rota do Vidro/2000, o mais aparatoso acidente a que assistimos em tempo real, quando logo no primeiro dia de prova, na penúltima curva de uma das passagens (talvez a última…) pelo troço de São Pedro de Moel, Bruno Magalhães (navegado pelo sempiterno Fifé) capotou o Mitsubishi cinzento (cuja foto abre este trabalho) para dentro do ribeiro que serpenteia aquelas matas, aterrando, virado de rodas para o ar, com o tejadilho dentro de água.

Um percalço normal para quem, à época, tinha ainda pouca experiência e procurava afirmar-se andando no limite, deixando com clareza já antever que estaríamos, anos mais tarde, perante um piloto de exceção...

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A FOTO QUE ABRE O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.filipefifefernandes.com/v1/images/carreira/2000/rotadosol2000.jpg

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