P.E.C. Nº 325: Futura dinastia de Reis D. Carlos?


I)

Se a memória não nos atraiçoa, José Pedro Fontes iniciou-se nos Ralis em 1997.

Nesse ano, realizou algumas provas ao volante de um Seat Ibiza integrado no troféu que, ao tempo, o importador da marca espanhola fazia evoluir nas provas de estrada em Portugal.

Um ano antes, em 1996, Pedro Meireles dava ainda os primeiros passos na modalidade quando se sagrou campeão nacional de Iniciados, seguindo as pisadas do seu irmão Paulo que tinha, nos anos imediatamente anteriores, conseguido nota de grande protagonismo no nacional de Ralis.

O (ainda) campeão nacional em título e o atual líder da classificação de pilotos do CNR/2015, ainda que com uma ligação regular mas não ininterrupta aos Ralis, levam já, portanto, praticamente vinte anos (o tempo passa…) nestas andanças.

Ricardo Moura, tricampeão nacional (2011, 2012 e 2013) e candidato a ampliar o seu pecúlio ainda na época em curso, deu as primeiras aceleradelas em competição na viragem de século, e logo em 2001 conseguiu conquistar o campeonato açoriano de Ralis para carros de duas rodas motrizes.

Excluindo desta análise Bruno Magalhães e Bernardo Sousa, que têm tido nos últimos anos as respetivas carreiras desportivas direcionadas para o exterior, a ideia que pretendemos sublinhar é esta: três dos maiores protagonistas do momento atual nos Ralis em Portugal são pilotos que se iniciaram em competição aos 22/23 anos, e congregam, hoje, um enorme capital de experiência na modalidade.

Escrever ‘maiores protagonistas’ implica ter de juntar-se ao lote de notáveis deste desporto o nome de João Barros.

O piloto de Paredes, após uma carreira particularmente frutuosa no karting, começou a sua ligação aos Ralis bem mais tarde.

Percebendo que o traquejo em competição é crucial para se fazer Ralis com ambições de sucesso, construiu uma estratégia bem conseguida ao acelerar o seu processo de aclimatação às provas de estrada.

Nos últimos anos tem participado em muitas provas.

Fez, neste percurso, vários Ralis integrados em campeonatos distintos do CNR, sem pressão quanto a resultados ou pontuações.

O somatório de muitas dezenas (centenas?) de horas ao volante, deram-lhe rapidez e consistência de andamento.

Elevaram-no, portanto, à condição de legítimo candidato a ganhar provas e as competições onde se insere.

Moura, Meireles, Fontes e Barros (e respetivos copilotos) são, portanto, as atuais referências do campeonato nacional de Ralis, se por referências entendermos os contendores ao título absoluto de pilotos.

São, e continuarão certamente a ser nos próximos anos, dado se encontrarem a conduzir extremamente bem (talvez, melhor que nunca) e em condições normais ainda longe de pendurarem luvas e capacete (Adruzilo e Peres são barómetros de exceção para se medir a forma como se pode guiar com todo o virtuosismo após os cinquenta anos de idade).

No entanto, sendo muito bom haver um quadro de quatro candidatos assumidos ao título de campeão nacional de Ralis (2016 pode vir a ser uma temporada entusiasmante…), não nos parece que a modalidade se deva demitir de prospecionar outros valores para se juntar (ou substituir, caso por algum motivo os pilotos que no presente dominam o campeonato deem por suspensa ou terminada a respetiva ligação a este desporto) a tal galeria de notáveis.

Sem esquecer que uma trajetória ascendente nos Ralis nacionais depende, tantas e tantas vezes, muito mais do dinheiro que se consegue amealhar para conseguir um automóvel de topo que propriamente do mérito enquanto piloto, no atual contexto há dois nomes que se encontram em grande crescendo e vão nos próximos anos, caso os patrocínios não lhes faltem, chegar a patamares muito elevados.

São os Carlos.

Martins e Vieira.

Algumas notas sobre ambos.

II)


Se tivéssemos de sintetizar numa única palavra o piloto do Skoda Fabia S2000, provavelmente escolheríamos carácter como o mais eficaz adjetivo para caracterizar a forma como aborda a modalidade.

Se há algo que impressiona no piloto de Serpa é, além dos grandes predicados na arte de fazer girar o volante, acreditar sempre que pode chegar mais longe (ou, se quisermos, mais rápido).

A máquina de que dispõe, não obstante transportar consigo o selo de garantia made (ou mais concretamente, prepared…) in Sports & You e ser para todos os efeitos a unidade (ainda) portadora do título nacional, por ser um carro de final de geração só em contextos muito específicos pode ombrear diretamente com os recentes e modernos R5.

Em condições normais esse óbice seria um excelente pretexto para refrear os ímpetos de Martins.

Porém, ao invés de competir colhendo os louros de ser o melhor ‘não R5’ (aquilo que objetivamente lhe pode ser exigível face à correlação de forças atual do CNR), de Serpa vem, todavia, atitude diversa.

Martins, provocatório, compete acreditando que pode cutucar a concorrência mais apetrechada.

se expressa, então, o tal caráter: a procura de superação quando dos ventos contrários sopra adversidade.

Além dos fundamentos básicos da condução em Ralis (travar no momento e com a dosagem certa, contrabrecar com o recurso a reflexos e intuição apurada para evitar a sobreviragem do automóvel), o piloto do Skoda (carro que é considerado de feitio difícil para se extrair dele todo o potencial que pode oferecer) exibe ainda em troço de forma notória uma forma nervosa de acelerar, como se o animal checo devesse ser espevitado com umas verdascadas para andar melhor.

Se Martins conseguir viabilizar um projeto a tempo inteiro para 2016 ao volante de um R5, como confiamos que será seu intento, tem condições para ser cliente regular de vitórias em troços e candidato aos lugares do pódio, seja em Ralis de terra, seja nos de asfalto.

A experiência adquirida na temporada ainda em curso ser-lhe-á muito útil para o efeito.

É um pouco como no futebol: quando se tem mesmo talento e se ganha traquejo nas equipas de média valia, exibir qualidade nas equipas de grande dimensão acaba por se tornar mais fácil e quase, diríamos, natural.

III)


Sobre Carlos Vieira há algumas ideias comuns ao que atrás desenvolvemos relativamente ao seu colega de equipa na Sports & You.

quem apelide o piloto de Braga de ‘Kubica português’, pelas semelhanças, pensamos, de percursos entre ambos (carreiras bem-sucedidas nas provas de velocidade como prenúncio de mudança para os Ralis, e uma rapidíssima adaptação às exigências de condução nas provas de estrada).

No entanto, fazendo um exercício de escala e salvaguardando a necessária distância e dimensão (não esquecendo, até, as limitações físicas do polaco), sendo uma consideração que reconhecemos subjetiva entendemos, porém, que Vieira tem condições para no futuro imediato ser bem melhor piloto no CNR que aquilo que Kubica tem sido até agora no WRC.

Ambos são inegavelmente velozes.

É redundante discutir-se a capacidade que um e outro têm para andar depressa.

Porém, onde o antigo piloto de F1 soma desistências por acidentes que começam a atingir proporções quase confrangedoras, Vieira revela, comparativamente, uma noção apuradíssima de tempo e de espaço: o tempo dentro do qual se exerce a condução e cujos vértices são volante, acelerador, travão e caixa, e o espaço (os limites da estrada) a respeitar para chegar a determinados objetivos.

Kubica faz lembrar aquele tipo de médio-ala no futebol que é reconhecido por ser rapidíssimo com a bola nos pés, mas que sistematicamente se perde em fintas para lá da linha lateral ou da linha de fundo.

Vieira, continuando a metaforizar um pouco, não tem menos rapidez.

A diferença é que tem a capacidade de perceber que por vezes, quando joga demasiado encostado à linha lateral e há risco de perder o controlo da bola, o melhor mesmo é pisar o esférico, abrandar o ritmo, e infletir para o centro do terreno para melhor dar sequência à jogada.

Aquilo que Vieira tem conseguido neste seu ano de estreia nos Ralis é sensacional.

Competindo no pináculo da modalidade em Portugal e tendo como antagonistas os mais sólidos valores deste desporto cá do burgo (citados acima neste trabalho), o homem oriundo de Braga não se atemorizou nem deixou deslumbrar.

Com a ajuda preciosa de Luís Ramalho, parece-nos ter intuído a necessidade de acumular quilómetros e não querer, nesta temporada, andar mais que aquilo que seria recomendável.

Encontrar o ponto de equilíbrio entre conduzir de forma fiável e conduzir de forma rápida (variáveis tantas vezes antagónicas, até para quem tem muita experiência neste desporto) não é fácil para ninguém, mas Vieira conseguiu chegar a esse compromisso de forma extraordinária, só ao alcance de quem é muito bom na arte de guiar carros de corrida.

Conseguiu em 2015 vencer troços em asfalto e terra.

Conseguiu ser mais rápido que a concorrência (no Vidreiro – asfalto – e Mortágua – gravilha - em momentos em que ambos os Ralis estavam longe de estar decididos e havia muita gente a rodar a fundo) ao volante de carros tão antagónicos quanto o Porsche e o Fiesta, o que confirma uma enorme adaptação a novas realidades, vital para se praticar esta modalidade em patamares elevados de sucesso.

Como nos parece estar muito motivado com esta mudança para os Ralis e integrado no ambiente que rodeia a caravana do CNR, Vieira terá vindo para ficar, e se essa ideia se confirmar não será estranho vê-lo, já a partir de 2016, a causar sérias dores de cabeça aos adversários com maior cotação.

IV)

por isso, por este elã criado junto dos ‘Carlos’ e pela perspetiva do lote de candidatos a títulos e vitórias poder engrossar num horizonte temporal que está mesmo aí ao virar da esquina (ou do apex, para utilizarmos linguagem 'técnica'…), a época desportiva ainda em curso (e prestes a finalizar) já é portadora de bons e importantes motivos de interesse para os Ralis portugueses.

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SOBRE CARLOS MARTINS



















SOBRE CARLOS VIEIRA




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