quarta-feira, 4 de novembro de 2015

P.E.C. Nº 326: Ogierix por terras da Hispânia...


A (meros…) quatro quilómetros do final do recente Rali de Espanha, quando liderava destacado e se preparava para averbar mais um triunfo no mundial de Ralis, Ogier bateu e desistiu da prova, acabando por oferecer de bandeja a vitória a um atónito Andreas Mikkelsen, seu colega de equipa.

A notícia não é ter sucedido em Espanha.

Nem sequer ter ocorrido a quatro quilómetros do final da última classificativa do evento.

A notícia é apenas e tão só Sébastien ter saído de estrada, ponto final.

E talvez apenas seja notícia pelo facto de ser muito raro o tricampeão do mundo envolver-se em acidentes que impliquem o seu abandono em Ralis do WRC.

diversas características na abordagem de Ogier à modalidade, que ajudam a compreender os motivos pelos quais é tão bem-sucedido na competição automóvel.

Várias delas, aliás, já foram afloradas neste blogue.

A insuspeita rapidez nos mais variados contextos.

Uma noção apurada dos limites até onde se pode forçar a si próprio e ao carro.

Ou, por exemplo, a leitura tática quase perfeita de como pautar o andamento em função das necessidades (de cada Rali em particular enquanto enquadrado num campeonato no seu todo).

Mas será talvez o aspeto psicológico uma das características mais fortes do piloto da Volkswagen, sobretudo quando comparado nesse quesito com os adversários mais direitos, a começar pelos (sobretudo, claro está, Latvala) da sua própria equipa.

O campeonato do mundo de Ralis é uma competição muito difícil e desgastante do ponto de vista físico e mental.

São centenas de horas ao volante em testes e reconhecimentos.

São índices de concentração inimagináveis para nós, comuns mortais, nos dias de prova.

É a necessidade de rápida habituação ao jet lag: quer o que resulta das diferenças horárias nos vários pontos do planeta, quer o que resulta dos diversos tipos de piso e de troços nos vários pontos do planeta.

São milhares de horas a trabalhar com engenheiros e mecânicos para que o carro esteja na melhor forma possível.

São as solicitações das marcas e dos patrocinadores.


São os adeptos.

Gerir a contento todas estas matérias obedece a uma estrutura psicológica quase à prova de bala.

É aqui, nos desígnios da mente, que nos parece encontrar-se boa parte da resposta para a supremacia incontestada que Ogier tem vindo a patentear no mundial de Ralis.

Guiar depressa é, claro, fundamental: mas não é tudo.

Uma mente sã é uma componente cada vez mais trabalhada nos atletas de alta competição, que, no caso concreto do WRC, tem um bom exemplo em Jari-Matti Latvala, sendo público o acompanhamento nesta área a que a sua equipa o tem vindo a submeter, com vista a otimizar índices de concentração e minimizar as saídas de estrada que caraterizam a carreira do nórdico.

Desde que o campeonato do mundo instituiu o sistema das power stage em 2011 (última classificativa de cada prova que atribui pontos – 3;2;1, por esta ordem - aos três pilotos mais velozes que consigam nelas superiorizar-se no cronometro relativamente aos demais adversários), o principal ariete da VW tem revelado considerável eficácia (e averbado muitos pontos) neste exercício específico.

Mesmo, note-se, em enquadramentos, bastante frequentes, em que tem a vitória num Rali à sua mercê fruto da vantagem amealhada até ao último troço, e tendo bastante a perder ao arriscar tudo na derradeira classificativa, aumentando exponencialmente as probabilidades de sair de estrada, ainda assim não se coíbe de andar absolutamente no limite, triunfar, e frequentemente averbar mais três pontos no bornal da classificação de pilotos do mundial.

É com este dom para ganhar as power stage que Ogier exerce ascendente psicológico sobre a concorrência.

Sem soundbytes provocatórios na imprensa, sem tiradas polémicas visando criar climas de forte tensão e, dessa forma, desestabilizar os seus rivais, o campeão do mundo opta, a nosso ver bem, por expressar-se ao volante, comunicando através dos pedais e volante.

E aí é caustico quanto baste.

Ao ganhar, muitas vezes sem necessidade de maior, as power stage (matéria em que está especialmente refinado neste ano de 2015), sinaliza com inusitada crueza a todo o plantel que é o mais rápido quando, como, e onde quer, algo particularmente demolidor para a moral de quem queira encará-lo olhos-nos-olhos quanto a vitórias em Ralis e em matéria da classificação pontual de pilotos no WRC.

Falhou em Espanha nesse propósito.

Cometeu um (raro) erro quando forçou o andamento para ganhar um troço.

Reivindicou o direito a (também) falhar.

Entendemos ser sempre espantoso quando, relativamente a pilotos do calibre (atualmente não nos parece que haja algum…) de 'Séb', os adeptos e a imprensa se revelam tão exigentes e ácidos nas críticas quando têm saídas de estrada, ao mesmo tempo que aligeiram e quase desculpabilizam os recorrentes acidentes de outros participantes no mundial de Ralis.

Perfecionista e extremamente autoconfiante nas suas capacidades, se o incidente da Catalunha vai ter efeitos na prestação de Ogier é acicatá-lo para ganhar em Inglaterra e, mais que nunca, conduzir com todo o refinamento para triunfar na derradeira especial do evento.

Até pela motivação adicional em provar que o percalço catalão foi um episódio isolado, as probabilidades de tal acontecer são elevadas.

Mas lá está: se suceder, não será notícia...


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Nota:
- Desde o início da temporada de 2011 até hoje, disputaram-se no campeonato do mundo de Ralis sessenta e três power stage. Se delas excluirmos as treze que correspondem ao mundial de 2012, nas quais objetivamente Ogier não tinha possibilidades de discutir triunfos em virtude de competir nesse ano aos comandos de um Skoda Fabia S2000, verifica-se que nas restantes cinquenta ocasiões em vinte e cinco delas o tricampeão do mundo mostrou-se o mais veloz, mais concretamente em:
2011: Suécia; Jordânia; Acrópole; Grâ-Bretanha.
2013: Suécia: Portugal; Acrópole; Alemanha; Austrália; Catalunha.
2014: México; Portugal; Argentina; Polónia; Finlândia; França.
2015: Suécia; México; Argentina; Portugal; Sardenha; Polónia; Finlândia, Austrália; França.


AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://i.ytimg.com/vi/KUhlh6roWH4/maxresdefault.jpg
- http://images.autosport.com/editorial/1445881914.jpg
- http://images.wrc.com/News/2015/October/7234_ogier-car-crash-spain-2015_321_896x504.jpg

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