P.E.C. Nº 329: Param os carros, levanta-se a poeira!


Os Ralis portugueses adoram uma boa polémica. 

Está-lhes na massa do sangue. 

Quando se vivem momentos propícios a uma certa calmaria, eis que, não raras vezes, lá salta para a praça pública uma frase ou determinada situação que põe a modalidade nas bocas do mundo

Se a controvérsia funcionar como adubagem para uma discussão alargada sobre os problemas estruturais deste desporto em Portugal, ótimo. 

Mas caso a polémica venha a público apenas para semear discórdia e criar um clima de tensão generalizada junto dos principais agentes da modalidade, é algo que já nos parece negativo.

Talvez em breve nos dediquemos a aprofundar a celeuma que ocorreu no campeonato nacional de Ralis após o último Rali de Algarve, e os tempos atuais em que nas redes socais (com efeito de contágio em algum jornalismo) se vai construindo uma sabedoria de ‘qwert’ baseada em rumores e convicções, julgando-se sumariamente factos e/ou situações em função de pretensas provas que se viram ou leram algures não se sabe bem onde, e/ou através daquilo que se ouviu já não se sabe bem de quem. 

Fica essa análise para outras calendas. 

Para já, centramos a nossa atenção na forma como o edifício regulamentar que rege a modalidade é, ele próprio, passível de funcionar como fio condutor da confusão e discórdia. 

Na temporada de 2014 foi pela primeira vez introduzida uma bonificação pontual (0,5 pontos) ao piloto que consiga sair vitorioso em cada uma das classificativas que integram os Ralis do calendário do campeonato nacional. 

É um princípio que aplaudimos, não obstante nos parecer, como escrevemos em «CNR com '25% de desconto em cartão'», que se pode ir mais além burilando um pouco melhor tal ideia. 

Esta majoração pontual, num quadro de grande equilíbrio e competitividade no CNR, pode revelar-se absolutamente decisiva na atribuição do título de pilotos. 

Repare-se precisamente no exemplo da temporada de 2015, terminada há poucos dias. 

José Pedro Fontes, não obstante ter vencido menos provas que Ricardo Moura (três para o piloto do Porto; quatro para o piloto dos Açores) triunfou na contabilidade do ano em mais onze especiais que o seu rival (quarenta e uma vitórias em troços para Fontes; trinta para Moura), construindo dessa forma o homem do DS/Citroen DS3 R5 um ganho comparativo de 5,5 pontos que se mostrou crucial para fazer o título pender a seu favor, uma vez que no final das oito provas da época foram meros 1,5 pontos (164 para Fontes; 162,5 para Moura) a separá-lo do piloto do Ford Fiesta R5

Num contexto destes, quando cada classificativa tem pontos extra para atribuir, não é indiferente o número de especiais que constituem cada Rali

As normas regulamentares que regem os Ralis do campeonato nacional, designadamente as Prescrições Específicas de Ralis - 2015 (doravante designadas neste trabalho por P.E.R./2015) aprovadas pela Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, consagram todo um capítulo, o XVIII, à temática das Provas Especiais de Classificação, melhor aclaradas em tal diploma, aliás, no ponto 1.3 do capítulo I (Definições)

Da análise ao quadro anexo ao ponto 18.1 das P.E.R./2015, verifica-se que a quilometragem mínima exigida para um troço integrado num Rali pontuável para o campeonato nacional são cinco quilómetros, e o máximo permitido para segmentos cronometrados são trinta mil metros (sobre esta matéria vide um nosso trabalho anterior, consultável aqui)

No quadro anexo ao ponto 18.3 do citado diploma regulamentar, verifica-se que a extensão total cronometrada para um Rali do CNR oscila entre o mínimo de noventa e o máximo de centro e quarenta quilómetros, excecionando-se deste requisito as provas pontuáveis para campeonatos ou taças de Ralis FIA

Significa isto que um Rali integrado no CNR, não se encontrando imperativamente definido um número mínimo ou máximo obrigatório de classificativas, tanto poderá conter seis ou sete especiais como albergar perfeitamente mais de vinte troços (ainda que, infelizmente, nenhum clube organizador em Portugal, à exceção – ou talvez não… - do ACP, terá hoje por si só capacidade logística e/ou financeira para organizar Ralis com tanta diversidade de PECs)

Imagine agora o caro leitor um cenário (perfeitamente plausível) no qual, conjugados determinados resultados, dois ou mais pilotos partem para a última etapa do CNR separados por uma diferença pontual em que, numa visão mais extrema, a simples diferença de haver dois ou três troços (majorados, recordamos, com 0,5 pontos para quem neles averbar os cronos mais rápidos…) a mais ou a menos na prova de fecho de temporada pode desde logo ditar um campeão por antecipação (caso exista um número de especiais mais reduzido, que dessa forma impossibilite matematicamente de chegar ao título quem está em segundo - ou em terceiro, ou em quarto, ou… - na classificação individual de pilotos), que, assim, até se pode dar ao luxo de primar pela ausência no fecho do ano desportivo, ou, no exemplo contrário, haver um Rali mais robusto no número de classificativas, que por só por isso abra renovadas oportunidades para quem secunde o líder do campeonato poder ainda almejar chegar ao cetro. 

Não é difícil antever o que um enquadramento deste género pode proporcionar. 

Muitas pressões, da mais diversa ordem, sobre o clube organizador do último (e, no exemplo dado, decisivo) Rali da época, oriundas dos mais diversos quadrantes. 

E um rol de acusações de parcialidade e de ‘estar ao serviço de…’ sobre a entidade que põe na estrada o derradeiro evento da temporada, em função do número de troços que ele contemple. 

Para que este tipo de trama não tenha sucesso e o caldo não entorne (há alguns que metaforicamente deixam nódoas difíceis de eliminar, e ninguém decerto deseja um CNR ‘manchado’ por querelas inúteis), afigura-se-nos que o enquadramento regulamentar que norteia a competição maior dos Ralis em Portugal deve prever expressamente esta matéria, consagrando, por exemplo, a obrigatoriamente de antes do penúltimo Rali do ano ir para a estrada ser publicamente divulgado o número de classificativas (ainda que não os respetivos percursos) a disputar no derradeiro evento da época. 

Por uma questão de transparência e de regras claras para todos. 

Para estancar, cerce, focos de querela que possam deflagrar. 

No entanto, os nossos Ralis querem verdadeiramente navegar em águas calmas e translúcidas? 

Estarão sequer interessados nisso? 

 algumas dúvidas

É que está-lhes na massa do sangue…



A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://nunodinisphotos.net/wp-content/uploads/2015/01/fpak-4858-600x330.jpg

Comentários