P.E.C. Nº 330: José Carlos Macedo: há símbolos que não se apagam...


Ao fundo, a uns bons metros de distância, equipados a rigor com botas e fato de competição distinguiam-se perfeitamente três pilotos em conversa descontraída e num tom coloquial: Adruzilo, Macedo, e Matos Chaves

Três grandes pilotos, melhor dizendo (não, não vamos fazer nenhuma piada com a estatura do antigo piloto de F1 e bicampeão nacional de Ralis…)

Podia tratar-se uma recordação que a nossa memória reteve de um qualquer parque de assistência dos Ralis nacionais no final dos anos noventa. 

Mas não. 

Foi algo que aconteceu ontem, 21 de novembro, na Exposalão, Batalha, durante as comemorações das bodas de prata da comercialização ininterrupta no nosso país do Renault Clio, nas suas diversas metamorfoses e evoluções ao longo destes vinte e cinco anos. 

Sob a égide da Renault Portugal (que há muitos anos sabe, como nenhuma outra marca, colocar no terreno eventos capazes de polarizar a atenção do público generalista, mas sem nunca descorar os aficionados de automobilismo, designadamente os dos Ralis, disciplina relativamente à qual a marca francesa tem enormes tradições e uma impressionante galeria de vitórias e títulos em solo luso), o evento, além de diversos outros motivos de forte interesse, teve, como não podia deixar de ter, vários automóveis de Ralis em exibição, como que a recordar a relevância e legado do modelo Clio no contexto da modalidade, do citado Macedo vai para vinte e cinco anos, até a Marco Cid, João Ruivo ou Gil Antunes na atualidade. 

Para sinalizar a importância da data e imprimir um cunho de prestígio à evocação destes vinte cinco anos de (muitas) vendas de Clios em Portugal, a representante da marca do losango não se fez rogada recrutando, além dos acima citados Adruzilo, Macedo e Matos Chaves, outros dois nomes de proa no presente da modalidade (além do Adruzilo, que esse é nome intemporal e está aí, como de resto se comprovou de novo na Batalha, a conduzir tão bem como sempre e a guiar melhor que nunca), de insuspeito talento, como o são Ricardo Teodósio e Gil Antunes

No dia em que lá fora houve o ROC (Race Of the Champions), por cá, no centro do país, tivemos também o nosso ROC (quem sabe talvez a sigla para Renault Orgulhosa do Clio) feito num traçado misto de cimento/asfalto e terra, que ironicamente esteve bem mais próximo da filosofia e do espírito das primeiras corridas dos campeões disputadas em Telde, Canárias, quando comparado com este formato atual feito dentro de estádios de futebol, a nosso ver pouco apelativo e a dever muito ao espetáculo e emotividade que se pretendem numa mostra de automobilismo. 

De toda a panóplia de acontecimentos ocorridos na Batalha há um que, pelo seu simbolismo, nos apraz destacar: o regresso de ‘Nini’ Macedo aos comandos de um verdadeiro carro de Ralis, volvidos mais de dez anos, segundo pensamos, sobre a sua última aparição em competições disputadas em estrada aberta. 

Sobre o piloto de Braga já muito se escreveu, mas melhor que qualquer texto, por muito inspirado que seja, ainda nos parece ser as imagens e as fotografias quem melhor presta justiça relativamente ao que foi a sua passagem pela modalidade. 

Celebrizam o bracarense, entre outros, epítetos como arrebatador, desconcertante, combativo, e absolutamente espetacular.

Foi depositário de um estilo de condução cheio de alma, transformando cada curva que abordou na carreira desportiva numa espécie de armagedão para Ralis

Ainda hoje é citado como influência e exemplo de profissionalismo para vários pilotos da atualidade. 

Quando se fala numa filosofia de competição virada para guiar sempre de pé em baixo e sem cedências de qualquer espécie, aquela que entronizou, por exemplo, o McRae, o Toivonen ou o Vatanen, no nosso país é em José Carlos Macedo que encontramos o embaixador referencial dessa entrega, do total empenho e de doses massivas de fibra e caráter enquanto desportista

Foi, portanto, com bastante agrado que revimos o antigo piloto da equipa oficial da Renault de novo ao volante de um carro de Ralis, e gostaríamos muito de poder ter testemunhado a conversa, digamos, mais relaxada e grisalha que foi mantendo com o Chaves e o Adruzilo (não, também não vamos fazer uma piada com o ‘não cabelo’ do antigo piloto do Corola WRC…), seguramente recordando os tempos, em 1998 e 1999, em que os três lutavam ao segundo pelas vitórias nos troços e Ralis do campeonato nacional. 

Não se esperava, naturalmente, que Macedo se prestasse a grandes arrebatamentos na Exposalão, até porque a filosofia festiva do evento nem sequer passava por aí. 

Porém, constatou-se que não esqueceu como contrabrecar a rigor e mostrou continuar lesto a puxar o travão de mão no momento e durante o tempo certo. 

Não sabemos as sensações que ‘Nini’ terá interiorizado nesta experiência. 

Em entrevista concedida há uns meses ao nosso companheiro e amigo Nuno Branco, dada à estampa na AutoSport, admitia um regresso, ainda que a título experimental, para medir o pulso ao momento atual da modalidade, necessariamente distinto, muito distinto, daquele que conheceu entre 1992 e 1999 enquanto foi piloto oficial ao serviço da Renault Portugal

Se esta experiência ocorrida ontem servir de condão para lhe reativar o bichinho pelos Ralis, só por isso a ideia e convite da Renault para o efeito já é de enaltecer. 

Para já, ficam as breves imagens que seguem, simbolicamente ilustrativas do regresso de José Carlos Macedo, cinquenta e quatro anos de idade, aos automóveis de Ralis precisamente 4.039 dias depois, tempo demais para um piloto que ainda hoje perdura na memória de todos e na preferência de muitos dos aficionados pela modalidade em Portugal.



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