sexta-feira, 27 de novembro de 2015

P.E.C. Nº 331: Proto final, parágrafo!



À margem do WRC, uma volta ao redor do mundo com o olhar focado nos Ralis permite perceber que pelos quatro cantos do globo há filosofias distintas de encarar a modalidade. 

Na velha tradição europeia, a realidade que naturalmente conhecemos melhor, com honrosas exceções a regra há cerca de dez anos a esta parte, quando foi criado o Intercontinental Rally Challenge e dada, ao tempo, primazia aos carros S2000 (hoje geracionalmente substituídos pelos atuais R5), é a das principais competições disputadas no velho continente privilegiarem carros pronto-a-vestir, construídos por uma oligarquia de construtores que vem explorando este filão (veja-se o caso da M-Sport e do negócio altamente rentável que concretizou com a venda em dois anos de cerca de 130 unidades do Ford Fiesta R5) não só com a construção dos automóveis como, depois, com a comercialização das respetivas evoluções que se tornam quase obrigatórias para quem pretenda fazer Ralis com garantias mínimas de competitividade. 

Dentro de uma visão quase laboratorial da modalidade foi-se em paralelo concentrando em grandes estruturas, quase em regime de exclusividade, a especialização na preparação e manutenção destas viaturas, de que Portugal, aliás, é um bom exemplo. 

Noutras paragens, a regra geral é diversa. 

Colocando de parte Estados Unidos e Canadá, onde há campeonatos internos de Ralis disputados essencialmente com recurso a carros do agrupamento de produção, mas com pouca expressão mediática e sem conseguirem sedimentar-se nas preferências dos aficionados pelo automobilismo, verifica-se, depois, lá para as bandas do hemisfério sul, haver quem recuse a via do ‘caminho único’ que a Europa propõe e prefira em matéria de Ralis assumir-se como senhor do seu próprio destino. 

Dois exemplos flagrantes de insubordinação a esta ordem instituída partem da Argentina, com os carros ‘Maxi Rally’ do campeonato local, e da Nova Zelândia com a filosofia liberal assente nos bólides ‘Extreme’

São conceitos que têm subjacente um certo princípio de rutura com a tradicional nomenclatura que conhecemos nas competições europeias, mas que alavancados na informação global estão a atravessar oceanos à rapidez de um clique, prometendo, num fenómeno que pode tornar-se em pouco tempo imparável, redefinir os contornos através dos quais se fazem Ralis no velho continente

A ‘vulnerabilidade’ europeia tem nesta matéria razões que vale a pena recordar. 

A FIA tem (em rigor: sempre teve) no seu código genético um profundo horror ao vazio, sobretudo a competições que não pode ou não consegue controlar. 

Após anos em que se partiu de uma belíssima ideia (os carros Kit Car) para se desenhar competições com interessantíssimos rácios entre custos e performance, na Praça da Concórdia sentiu-se necessidade de em alternativa (estamos, nesta altura, algures em 2001/2002) propor algo que se apresentou, então, como automóveis a preços controlados (a fasquia máxima eram € 100.000,00) destinados preferencialmente à iniciação de jovens pilotos: os S1600, de tração dianteira. 

Tal como a esmagadora maioria dos economistas portugueses quando fazem previsões para o cenário macroeconómico, a FIA equivocou-se ao ter avaliado incorretamente a realidade. 

Rapidamente os ‘custos controlados’ aumentaram na exata medida em que foram surgindo novos automóveis nesse segmento. 

Vendo a areia a escapar-se-lhe por entre os dedos ao falhar o propósito inicialmente anunciado, a fuga para frente (leia-se: S2000 e, com muito menor expressão, os RRC – Regional Rally Cars -) foi o passo seguinte. 

Automóveis (pelo menos) o dobro mais caros e uma competição (IRC) incluindo provas fora da Europa desenhada em função deles, provocaria um aumento de custos para se competir com pretensões de vitória, e por arrasto vários dos campeonatos nacionais (o CNR uma vez mais é um bom exemplo) sofreram uma erosão em termos de viaturas de topo. 

Agora estamos perante o tempo dos R5

Com eles houve, uma vez mais, a ideia de procurar baixar os valores de participação nas provas de estrada. 

A adoção de um motor 1,6 turbo derivado dos carros de série, o aumento da durabilidade do mesmo através de revisões mais espaçadas no tempo, suspensões menos elaboradas e diferenciais (dianteiro e posterior) mecânicos, são os traços diferenciadores dos carros homologados na categoria R5 relativamente aos seus predecessores. 

Um olhar breve pela internet incidindo sobre os preços de transação destes automóveis, permite concluir que o intento de reduzir encargos, mantendo-os em cifras abaixo do € 200.000,00, está também a claudicar. 

Chegados aqui, a um paradigma onde o dinheiro para investir no automobilismo se encontra em retração e as marcas se veem a braços com um mercado de vendas que em definitivo já conheceu melhores dias, contexto que tem dimensão mais significativa nos países do sul da Europa, tradicionalmente menos endinheirados, é de forma natural que vão ganhando terreno novas ideias para fazer Ralis a custos mais comedidos.

Em Itália (menos...), Espanha (mais…) e em Portugal (com pouca intensidade, para já…) estão a aparecer com crescente enfoque algumas bolsas de resistência aos diktats da Praça da Concórdia, sem esquecer até ideias trabalhadas em países mais a norte, como a do Peugeot 306 com motor Cosworth (viatura que deixou de competir em 2011, mas cujo conceito nem por isso deixa de permanecer atual) desenvolvido pelo britânico Andrew Burton, cujas sensacionais prestações poderão ser visualizadas mais abaixo neste trabalho. 

Um dos mais qualificados pilotos italianos, Giandomenico Basso, é o rosto principal do projeto posto em prática pela equipa italiana BRC, que faz correr no campeonato transalpino um Ford Fiesta movido a gás, um primeiro e entusiasmante passo para, dentro de poucos anos, talvez se assistir a uma mudança completa no paradigma dos combustíveis para automóveis de competição (e do apetecível negócio com a respetiva comercialização)

Espanha é, nesta matéria, um país diferente, no qual a discussão relativamente ao futuro dos Ralis é fervilhante e está hoje num patamar mais avançado quando comparado com o resto da Europa. 

O campeonato de Espanha de Ralis em Terra tem sido desde a sua criação, em 1983, subalternizado mediaticamente em detrimento do seu congénere realizado em asfalto, mas sempre se assumiu como um verdadeiro bálsamo redentor para quem gosta de protótipos e valoriza o talento e a imaginação para construir, por vezes de forma artesanal e caseira, bons carros de competição. 

Foi aquela competição do país vizinho que, em 1987, quando todos os males do mundo dos Ralis pareciam obra e graça dos ‘Grupo B’, funcionou como uma espécie de casa de refúgio para várias unidades das bombas provindas do WRC, sinalizando com estrondo (ou, se quisermos, com rateres…) e de forma clara a sua autonomia regulamentar em relação ao poder da então FISA

De lá para cá, diversos carros em forma de protótipos têm animado os tramos em gravilha aqui ao lado de Portugal (o regulamento técnico aprovado pela RFEdeA pode ser consultado AQUI), num campeonato que continua a ser olhado de soslaio em vários quadrantes mas é a nosso ver, enquanto meros adeptos, pela diversidade de propostas, pelo passado muito interessante de perscrutar e pela liberalidade regulamentar, um package bastante atrativo e a merecer por tal facto especial atenção.

Mas Espanha enquanto país de Ralis não se esgota nas particularidades do seu campeonato de terra.

Na comunicação social especializada e nas redes sociais há hoje um amplo debate sobre o futuro da modalidade, centrado nos caminhos a trilhar nas respetivas competições internas a curto e médio prazo.

Ciente da necessidade de introdução de reajustamentos e uma vez mais liberal e flexível em matéria regulamentar, a RFEdeA já fez saber as linhas gerais orientadoras dos regulamentos para Ralis na temporada de 2016, havendo notícias, ainda não confirmadas, da intenção em fazer-se um novo campeonato multidisciplinar oficial destinado a acolher os automóveis com a homologação E2, designadamente juntando os protótipos que competem no nacional de Ralis de terra, os carros do nacional espanhol de montanha, e as máquinas que evoluem nas competições de autocross. 

Mas como no país vizinho tudo parece ser preparado atempadamente, trabalha-se afincadamente no terreno para trazer o formato Maxi Rally já em 2016 às provas em asfalto e terra de nuestros hermanos, dentro do intercambio que para o efeito alguns preparadores espanhóis e argentinos vêm encetando para o efeito. 

Aqui ao lado, portanto, el futuro es mañana, e labora-se nesse sentido. 

E por cá, em Portugal

Por cá vamos andando benzinho, obrigado. 

Quando no país vizinho já se sabe a filosofia de base que norteará a regulamentação das provas de Ralis para 2016, permitindo a equipas e pilotos atempadamente gizar e desenvolver os seus projetos desportivos, por cá, se tudo correr normalmente e dentro da tradição lusa, serão publicamente divulgados os regulamentos umas semanas antes dos primeiros Ralis da próxima época irem para a estrada. 

Ainda e sempre 'por cá', tivemos em 2015 um emocionante campeonato nacional na categoria RC5, muito disputado, onde terminaram classificados…. um único piloto! (que, como é evidente, não tem qualquer responsabilidade em não ter tido nenhum adversário ao longo do ano).

A divisão mais baixa e acessível de todas quantas são admitidas no CNR, e que devia, em tese, assumir-se como a base de iniciação à modalidade, viu no ressurgido o campeonato nacional de iniciados (um propósito da FPAK que nos mereceu e merece o maior aplauso, mas que deverá ser melhor trabalhado já a partir da próxima época) um 'adversário' muito mais expressivo em termos de inscritos, cuja classificação final na temporada revela terem ficado escalonados na tabela pontual o impressionante número de… cinco pilotos!, com o apontamento de apenas um deles ter participado em todas as seis provas do ano, isto quando parados na oficina temos os nossos próprios protos Fastbravo F1000 e S1000, extremamente bem conseguidos atentos os valores para os fazer correr e o índice de prestações que proporcionam, e o Challenge DS3 R1, posto na estrada pela Inside Motor, que não mereceu junto dos pilotos o acolhimento em larga escala que claramente justificava, uma vez que tem condições muito favoráveis, sobretudo quanto a custos, para se constituir como viveiro dos futuros grandes valores da modalidade em Portugal.

É este clima de desarticulação entre o órgão decisório do automobilismo nacional e quem tem carros para colocar na estrada, que muitas vezes entorpece a nossa modalidade. 

Somos o país dos opostos, tão depressa capaz de permitir a realização anual de cerca de setenta Ralis Sprint (um bom número deles no plano organizativo e quanto a segurança só com muito otimismo se podem qualificar como Ralis), como a seguir assobiar para o ar quando em algumas provas aparece um número de inscritos digno de um qualquer jogo de bilhar ou de ténis de mesa. 

muita gente em Portugal que adora Ralis. 

seguramente muita gente que adoraria experimentar as delícias da competição em bólides com prestações elevadas, mas simplesmente não tem nem consegue encontrar € 300.000,00 para adquirir um R5, ou, em alternativa, arranjar verbas para alugar um carro dessa categoria para toda uma temporada. 

Parte dessa gente está ligada direta ou indiretamente a quem tem conhecimentos sobre mecânica automóvel. 

Pensamos que uma das mais admiráveis expressões da capacidade de improviso e de desenrascanço que por norma se associam aos portugueses, encontra-se precisamente em muitas das oficinas de automóveis que se espalham um pouco por todo o território deste retângulo a sudoeste da Europa.

Acreditamos sem pestanejar que se não houvesse uma rigidez e conservadorismo regulamentar em Portugal no que toca aos Ralis, muita gente ligada à mecânica automóvel teria jeito e talento bastante para desenvolver protótipos competitivos, fazendo-os evoluir, passo a passo, peça a peça, à medida da disponibilidade financeira para o efeito, processo no qual os próprios grandes preparadores nacionais (ARC Sport; P&B Racing; Sports & You) poderiam estar também envolvidos, como é bom exemplo, uma vez mais aqui ao lado, a AR Vidal, que além de intervir em carros já construídos para Ralis desenvolve o seu próprio protótipo, o VW Polo N1, já inclusive visto em ação em classificativas a norte do nosso país. 

Enquanto na nação vizinha se lançam as bases para trazer para a orla dos Ralis carros que habitualmente militam nas provas de montanha e nas competições off road, por cá permite-se que o carro de Tiago Reis, piloto do campeonato de montanha, anime Ralis Sprint, mas já se o interdita por completo de integrar as listas de inscritos nas provas do campeonato nacional, ainda que, se necessário e se houvesse tal possibilidade, se lastrasse o seu Fiesta de molde a nivelá-lo em termos de prestações com os R5 que disputam o CNR

Pensamos que diversas das matérias elencadas no presente trabalho devem estar na agenda de quem venha a perfilar-se enquanto candidato aos órgãos sociais da FPAK, nas próximas eleições a disputar para o efeito. 

Para procurar combater uma certa desertificação de inscritos nas provas do CNR e tentar estimular um princípio de diversidade de carros em compita, dotando-os de um elemento diferenciador entre si, parece-nos que seria positivo liberalizar (ou pelo menos equacionar liberalizar) o acesso ao CNR de protótipos criados de raiz ou desenvolvidos a partir de automóveis já existentes noutras competições. 

As únicas três restrições que teriam obrigatoriamente de cumprir seria não terem uma performance superior aos R5 (equiparando-se andamentos com o recurso a lastragens nos protótipos, se necessário), contemplarem escrupulosamente todas as regras de segurança observadas nos campeonatos FIA para Ralis, e terem um desenho de chassis e elementos estilísticos em tudo idênticos aos carros de série que lhes estão na génese, para uma imagem do CNR moderna e em linha com a atualidade, e num intuito comercial e publicitário para as marcas que desta forma, quem sabe, se poderiam sentir impelidas a desenvolver os seus próprios projetos para as provas de estrada aberta disputadas em Portugal. 

Pode-se afirmar que esta será uma visão demasiado liberal dos Ralis nacionais. 

Talvez

Mas parece-nos que o tempo atual da modalidade necessita de uma terapia de choque regulamentar, com vista a tirá-la de um certo torpor que a tem limitado e a preparar convenientemente o futuro, processo que os nossos vizinhos do lado já iniciaram como vimos acima.

Trata-se, no fundo, de saber o que queremos. 

Se pretendemos continuar a comprar e a preparar carros de Ralis previamente concebidos nas Zaras, Quebramares ou Bershkas do automobilismo, ou se em paralelo é-nos livremente permitido ir aos alfaiates da mecânica desenhar e costurar um carro feito à medida do nosso gosto e disponibilidade financeira. 

Estarão os Ralis nacionais pro(n)tos para iniciar tal debate?

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Nota
Vária da valiosa informação que compilámos para formular a opinião e ideias que agora veiculamos ao longo do presente trabalho, tem-nos chegado através da partilha de diversas notícias que José Bandeira (que não temos o grato prazer de conhecer pessoalmente), colunista regular e dinamizador do portal ‘Fórmula Rali', tem partilhado na sua página pessoal no facebook. Basta ser uma das poucas pessoas em Portugal a dedicar-se à análise e reflexão sobre Ralis para, só por isso, já ser credor do nosso maior apreço intelectual. No entanto, vai mais longe e será provavelmente quem dentro do nosso país mais e melhor se dedica a acompanhar e observar o fenómeno dos Ralis do lado de lá da fronteira portuguesa. Nessa medida, porque nos parece muito importante estabelecer termos de comparação e perceber com rigor o que se vai passado nas competições em Espanha (se aprendemos alguma coisa e sabemos tirar ilações com o que se lá passa, essas já são contas de outro rosário…), o trabalho de José Bandeira nesta matéria é absolutamente notável, algo que, em jeito até de agradecimento, não pretendemos deixar passar sem a respetiva nota de destaque.

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 F O T O S 
(passar com o rato do computador sobre as mesmas, com vista a aceder à informação que contém)








 V Í D E O S 


















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