terça-feira, 1 de dezembro de 2015

P.E.C. Nº 332: 'Dar a mão' pode tornar-se, por vezes, 'meter os pés pelas mãos'...


A situação é clássica

Numa etapa de montanha em ciclismo, daquelas duras para as pernas e ásperas para a alma, os corredores trepam o monte com um esgar de tremendo esforço. 

Ladeia-os uma multidão à beira da estrada. 

De onde invariavelmente saltam alguns elementos, que, durante alguns metros (muitas vezes não tanto ‘alguns metros’, mas mais ‘um número considerável de metros’), metem a mão no selim das bicicletas e correm ladeira acima, empurrando ciclistas em apuros para manter a pedalada. 

Instalados no sofá frente à TV, manifestamos a nossa indignação. 

Afinal, trata-se (como de facto se trata) de uma ajuda artificial que subverte a verdade desportiva. 

Mantemos atualmente uma relação algo 'conturbada’ com as corridas de bicicletas. 

Por gostarmos muito da essência da modalidade, mas estarmos em permanente desconfiança se nas pernas de cada ciclista não se esconde, afinal, um sofisticado laboratório de dopagem. 

Nestas alturas, quando vemos aqueles ‘diferenciais’ em forma braçal a colaborar ativamente na tração dos homens do pedal até ao alto do Col du Galibier (que classificativa aquela estrada dá…) do Mont Ventoux, do Angliru, ou da Senhora da Graça) ficamos orgulhosos do nosso desporto. 

Nos Ralis, pensamos com os nossos botões, não há nada destas ajudas artificiais. 

Porém, há. 

Quando se aborda a questão do público nos Ralis, invariavelmente faz-se sob um duplo prisma. 

Os espetadores mal colocados na berma do troço e, por isso, em potencial situação de perigo em caso de acidente. 

E, numa visão mais retro ou vintage (que ainda hoje, mesmo que esporadicamente, ainda se verifica…), os espetadores que se colocam irresponsavelmente na estrada para apenas sair uma fração de segundo antes dos bólides passarem a toda a velocidade. 

Como denominador comum entre ambas as perspetivas, a questão da segurança. 

Porém, há outra área na qual o comportamento dos aficionados pode subverter, ainda que se pense o contrário, o espírito desta modalidade que, não obstante tudo o resto, ainda pretende ter um cunho predominantemente assente nos valores do desporto, enaltecendo o esforço e mérito. 

Desde os eventos do campeonato do mundo até ao Rali pirata mais manhosinho há, sempre houve, momentos de saídas de estrada em que os concorrentes ficam impossibilitados pelos próprios meios de regressar à classificativa. 

Pode ser um capotamento

Por vezes, é a queda do automóvel num buraco ou numa ravina. 

Bólides atascados em bancos de neve é seguir as indicações de «Suécia», s.f.f. 

Muito em voga está também, sobretudo ali para os lados da Alemanha, os despistes levarem os carros a embrenhar-se vinhedos dentro de onde já não saem. 

Neste género de ocorrências, quando os bólides não ficam com mazelas graves que os impeçam por completo de caminhar, na esmagadora maioria das ocasiões lá aparecem voluntariosamente espetadores, em maior ou menor número, para recolocar a máquina na estrada. 

Ao assunto, aliás, melhor que nós responde a antropologia. 

São as ciências comportamentais quem pode ajudar a compreender esta pulsão irresistível, à qual muitos aficionados sucumbem sem explicação plausível à vista. 

Talvez seja a expressão de uma vontade intrínseca em ajudar. 

Talvez seja um sentimento de poder e/ou de pertença inculcado no subconsciente de quem assiste aos Ralis, impelindo a que o espetador se assuma parte ativa e, não raras vezes, decisória, no desfecho de uma prova. 

A questão que se levanta, é se os espetadores que estão numa classificativa devem comportar-se como uma espécie de apanha-bolas, cuja função é recolocar os carros o mais rapidamente possível dentro do terreno de jogo

É matéria que se encontra por norma na zona cinzenta dos regulamentos. 

Se a filosofia dos Ralis tem mudado no sentido de sinalizar ao piloto e navegador que, desde que saem do parque de assistência até nele voltarem a entrar, estão entregues quase por completo à sua sorte, acabando-se com as assistências móveis e proibindo-se qualquer auxílio direto em caso de avaria mecânica, não se percebe muito bem a condescendência e um certo encolher de ombros com que as entidades tutelares da modalidade olham para as ajudas do público na reposição dos bólides na estrada, após despiste. 

Que a matéria é nebulosa em termos regulamentares e subverte a verdade desportiva, parece-nos mais ou menos pacífico. 

Que há uma aceitação generalizada desta prática, é algo que salta à vista de forma bem evidente. 

Note-se que há múltiplas imagens conhecidas, captadas a partir do interior dos bólides, em que se vê os próprios tripulantes a gritar e/ou a gesticular para quem está entre público, solicitando colaboração para que o veículo seja reposto de forma a retomar o normal curso do Rali. 

Em situações de perigosidade evidente, quando é posta em causa a integridade física ou até a própria vida da dupla de pilotos que está dentro do carro (um encarceramento, um incêndio, o carro a submergir em águas mais ou menos profundas) a questão do auxílio externo nem sequer se coloca. 

Em todas as outras, porém, há muitos pontos de interrogação que, do ponto de vista desportivo, necessariamente têm de se levantar. 

Vamos pegar num exemplo. 

Dois pilotos lutam pela vitória num Rali, decisivo para as contas finais do respetivo campeonato. 

A páginas tantas um deles sai de estrada, por erro puro de condução ou nota mal cantada pelo pendura. 

Como a coisa se verificou numa zona onde se encontram espetadores, estes arregaçam as mangas, rapidamente voltam a por a viatura pronta a andar, e os ocupantes perdem algum tempo mas retomam o Rali. 

Umas classificativas depois, o outro adversário sai de estrada, não por erro próprio ou do respetivo copiloto, mas antes por súbita falha mecânica. 

A máquina está bem do ponto de vista mecânico: apenas necessita de ser colocada de novo nos trilhos.

Por infortúnio, não há por perto ninguém. 

Não consegue(m) recolocar o bólide em troço. 

Desiste(m) do Rali, perdendo um campeonato. 

Um dos pilotos, portanto. saiu de estrada por erro próprio e continuou em prova. 

O outro saiu de estrada após avaria e teve de desistir. 

A diferença entre ambos os exemplos está no público. 

Que objetivamente interferiu, ainda que de forma inconsciente, no resultado final de um Rali e de um campeonato. 

Este é um assunto que tem rapidamente de ser delimitado com rigor em sede regulamentar. 

Saber, em suma, se os espetadores podem ou não intervir em situações de saídas de estrada. 

Para já a ideia que fica é que podem mas não devem

Pensamos que seria preferível deverem mas não poderem


A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
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