sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

P.E.C. Nº 333: One hit wonders...


I)
Chamam-se one hit wonders aquelas bandas ou artistas a solo que compõem e gravam uma canção que se torna um êxito radiofónico e de vendas estrondoso (fenómeno que atingiu o seu expoente máximo nos anos oitenta e noventa, na altura em que ainda se vendiam discos em quantidades que se vissem…), tornando-se por tal facto fenómenos de popularidade, mas que depois, logo após o ritmo vertiginoso da ascensão, sofrem uma queda abrupta no plano mediático e nunca mais conseguem na respetiva carreira (nos casos em que após este apogeu chega sequer a haver carreira…) replicar tal hit

Sem prejuízo de diversas clarificações que irão operar nas próximas semanas, com vista a saber-se em concreto quem serão os pilotos a competir com regularidade no WRC em 2016, pode-se dizer que em sentido figurado o expoente máximo da modalidade também tem os seus one hit wonders

cinco pilotos que nos respetivos palmarés ostentam uma única vitória absoluta em provas do campeonato do mundo de Ralis. 

O ‘quem’, ‘onde’ e ‘quando’ vêm discriminados de seguida. 

Quanto ao ‘como’, já lá iremos. 

Ostberg (n: 11/out/1987, 28 anos), em Portugal, no ano de 2012; Sordo (n: 2/mai/1983, 32 anos), na Alemanha, em 2013; Neuville (n: 16/jun/1988, 27 anos), na Alemanha, em 2014; Meeke (n: 2/jul/1979, 36 anos), na Argentina em 2015; Mikkelsen (n: 22/jun/1989, 26 anos), em Espanha, neste ano de 2015

Na carreira de qualquer piloto é sempre um momento muito alto obter uma vitória à geral em eventos do WRC

Independentemente das circunstâncias em que a consegue. 

É um galardão tipo ‘tripla platina’ que atesta que um dia, numa prova, num Rali, esteve efetivamente no top da tabela dos artistas preferidos daquela 'semana'

Se no patamar dos pilotos que regularmente competem para chegar aos triunfos (os pilotos oficiais de fábrica, claro está) o primeiro sucesso retira-lhes um grande peso dos ombros, por outro lado pode ironicamente significar pressão acrescida para conseguir um segundo êxito e, desse modo, demonstrarem que têm talento para ser clientes regulares do lugar cimeiro nas tabelas de classificação final dos Ralis, além de desmontarem eventuais desconfianças de que a sua única vitória se deve, afinal, à soma de um conjunto favorável de acontecimentos em dada prova. 

Vamos então contextualizar o ‘como’ a que fazemos alusão mais acima. 

três anos Mads Ostberg ganhou no nosso país, naquela edição da prova que ficou célebre pelas impiedosas chuvadas na sexta-feira de prova. 

Loeb desistiu após despiste logo na noite de quinta-feira, ainda o Rali mal tinha saído do parque de assistência no Estádio do Algarve

Sordo (seis vitórias em troços ao longo da prova) atrasou-se irremediavelmente também logo aí, quando os faróis do Mini não colaboraram obrigando o piloto espanhol a percorrer vários quilómetros na noite alentejana a ‘tatear’ terreno. 

Os pilotos oficiais da Ford, Solberg (oito vitórias em troços no total do evento) e Latvala, despistaram-se na manhã de sexta-feira regressando, depois, com recurso ao sistema de Rally 2 nos dias seguintes de prova, mas já sem aspirações a ganhar. 

Tanak, solidário com os seus companheiros da marca da oval azul, caiu num buraco também na fatídica manhã de chuva e nevoeiro, quando por sinal até lutava pela liderança da prova. 

Com tamanhas peripécias foi Hirvonen quem aproveitou para se instalar no comando, com volante numa mão e calculadora na outra. 

Ganhou o Rali na estrada. 

Viria a perdê-lo na secretaria, no período de verificações técnicas pós-prova, após alegada desconformidade do DS3 WRC com os regulamentos. 

Ostberg não ganhou nenhum troço. 

Em momento algum se bateu pela liderança da prova. 

Caiu-lhe uma vitória no regaço, talvez ainda hoje sem saber bem ‘como’

II)


Um salto de mais de ano leva-nos a aterrar no Rali da Alemanha em 2013. 

Loeb era passado. 

Ogier conjugava agora o verbo dominar no modo presente. 

Rei morto, Rei posto, como sói dizer-se. 

A hegemonia francófona (Citroen...) que vigorava no WRC há nove temporadas, era agora fortemente ameaçada pela armada germânica da Volkswagen

Dani Sordo voltava ao seio da marca do double chevron após dois anos de interregno. 

Cumprir o velho e adiado sonho de chegar ao primeiro triunfo no WRC talvez estivesse na mente do homem de Cantábria quando chegou à região de Trier, quem sabe também motivado pelos pergaminhos da sua equipa na etapa teutónica do campeonato do mundo, ainda para mais no terreno, asfalto, que sempre assumiu ser o da sua predileção. 

Na fase inicial da prova, jogando em casa, os homens da VW (Ogier e Latvala) cedo imprimiram uma toada ofensiva acercando-se dos lugares cimeiros da tabela classificativa. 

O francês tomou a dianteira, mas bateu. 

O nórdico seguiu-se-lhe no comando, mas bateu. 

Neuville, trajando as cores da M-Sport, dava mostras de virtuosismo nas difíceis estradas do Rali alemão, somando vitórias em classificativas, mas saiu ligeiramente de estrada na mesma especial em que Latvala o fez, secundado, aliás, por Ostberg

Sordo, no quarto posto da geral, via os adversários à sua frente somarem asneiras e, melhorando as suas prestações, subia à liderança do Rali com menos de um segundo de vantagem à melhor sobre Neuville no arranque para o derradeiro dia de hostilidades. 

Nuestro hermano, intuindo poder estar a chegar o seu momento, atacou forte na fase final da prova germânica. 

Neuville, claro, também não se ficou nas covas. 

Porém, mais uma saída de estrada do belga no último troço do evento selaria o primeiro triunfo e o trigésimo quinto pódio do homem da Citroen

‘Como’ seria caso os homens da Volkswagen (Latvala concluiu em 7.º; Ogier terminou em 17.º) não tivessem saído de estrada na fase inicial da prova? 

Ninguém sabe. 

III)


Fast forward no calendário 365 dias (ou coisa que o valha) para a frente. 

Rali da Alemanha de 2014. 

A época estava a ser totalmente dominada pela Volkswagen, e os comandados de Jost Capito naturalmente confiavam dar continuidade em solo alemão a tal hegemonia. 

Porque jogavam em solo pátrio. 

Porque tinham, em simultâneo, certamente contas a ajustar com a pálida dada aos seus compatriotas no ano anterior. 

A coisa até nem começaria mal. 

Ao domínio inicial de Ogier, liderando nas primeiras cinco especiais, sucedeu Latvala que se manteve na frente até à 14.ª classificativa, a segunda passagem pela icónica Panzerplatte

Ao finlandês sucedeu Meeke no topo da hierarquia de pilotos. 

E só após o 16.º troço (de um total de dezoito…), o único na prova em que foi o mais veloz, é que Neuville se acercou do comando para não mais o largar até final. 

A torrente de acontecimentos resume-se assim: Ogier liderou até se despistar (somaria nova incursão aos terrenos adjacentes às classificativas mais perto do final da prova), cedendo a primazia do Rali a Latvala até este se… despistar, aproveitando Meeke para espreitar a vitória até ao momento em que se… despistou, pelo que Neuville não se fez rogado (nem se despistou…) e venceu mesmo pela primeira vez um evento do WRC (o segundo belga a conseguir tal feito, após François Duval na Austrália, em 2005), na frente do seu colega de equipa Dani Sordo, invertendo-se quanto aos dois lugares mais altos do pódio o resultado do ano anterior nesta mesma prova. 

‘Como’ é que o piloto da Hyundai chegou a esta vitória? 

As explicações podem, se assim se quiser, ter origens diversas. 

Porém, nenhuma alinhará na tese que tal honraria se deveu ao facto de Thierry se ter mostrado regularmente mais veloz que os principais rivais no asfalto germânico. 

IV)


Por uma vez viajamos para fora da Europa. 

Para o lado de lá do Atlântico. 

Para a Argentina

Em abril do corrente ano, na quarta ronda do WRC/2015, as duras especiais do país das pampas (só quatro WRC passaram incólumes sobre as sevícias do percurso…) faziam adivinhar um poker para Ogier no final do evento. 

O campeão do mundo havia puxado dos galões para triunfar em Monte Carlo, Suécia e México, pelo que nas entrelinhas estava mais ou menos estabelecida a hipótese do piloto do Polo WRC averbar novo êxito, o quarto do ano, e prosseguir a caminhada triunfal rumo à renovação do título. 

Logo na segunda classificativa do evento, com 52 quilómetros de percurso, as baixas foram-se sucedendo a cadência vertiginosa. 

Ogier desistiu (embora regressasse no sistema de Rally 2 no dia seguinte) com problemas na injeção do motor, 

Ostberg deparou-se com um motor afónico e Mikkelsen e Neuville furaram. 

Na terceira especial, Sordo não escapou também a problemas. 

O quarto troço foi madrasto para Latvala, Tanak e Mikkelsen

No final do terceiro dia de evento, Paddon saiu de estrada colhendo diversos espetadores, e Sordo e Ogier também desistiram. 

No último dia de prova Latvala abandonou com problemas de motor, e Mikkelsen e Neuville baterem na mesma pedra já em plena Power Stage pelo que também não chegariam ao parque de assistência final do Rali. 

Tantas desventuras necessariamente premiaram quem, com mérito ou sorte, se soube colocar a salvo delas. 

Conduzindo com as mãos no volante, pés nos pedais, e cabeça em Lanark (terra natal de McRae, seu mentor confesso, a quem, aliás, dedicaria de forma emocional o triunfo…). Kris Meeke cedo chegou confortavelmente à liderança da prova para mais não a largar até à tomada de tempos final. 

Deu a primeira vitória em dois anos (a última havia sido em 2013, na Alemanha, já escalpelizada mais acima neste trabalho) à Citroen

Voltou a colocar a Union Jack no lugar mais alto do pódio, treze anos após idêntica façanha sob a chancela de Colin McRae no Rali Safari de 2002. 

‘Como’ é que uma prova (Argentina/2015…) foi tão fértil em surpresas e logrou provocar tantas baixas no pelotão do WRC

São assim mesmo os Ralis… 

V)


De regresso à velha Europa e a outubro passado, mais concretamente à costa mediterrânea de Espanha

O Rali da Catalunha não conteve nenhum ingrediente especial quanto aos mundiais de pilotos e marcas. 

Os títulos de 2015 estavam já entregues. 

Bem entregues, sublinhe-se. 

Liberto de quaisquer pressões, a etapa hispânica do calendário do campeonato do mundo prometia à partida um Rali relativamente sossegado para Sébastien Ogier na busca da trigésima segunda vitória do seu pecúlio em matéria de WRC

A prova foi correndo de feição ao francês da VW

O campeão do mundo, no seu timbre característico, dominou às ocorrências ao redor de Salou com autoridade e sem veleidades aos principais rivais. 

Com novo brilharete à vista a pouquíssimos quilómetros do final do Rali, Ogier teve um encontro imediato com os rails delimitadores da estrada, vendo-se obrigado a entregar de bandeja a vitória a um atónito Mikkelsen

‘Como’ é que Sébastien perdeu um Rali desta forma, logo ele que, além de todos os outros predicados, é justamente conhecido nas estatísticas pelo reduzido índice de acidentes/saídas de estrada? 

Acontece

São Ralis. 

VI)

A magia que enleia a modalidade está, também, no mistério do inexplicável e nas ironias em que o destino é fértil. 

Como vimos, Ostberg, Sordo, Neuville, Meeke e Mikkelsen têm hoje, cada um deles, uma vitória em matéria de Ralis pontuáveis para o campeonato do mundo da modalidade. 

As circunstâncias em que obtiveram tais triunfos vivem muito, como vimos, de uma série de acontecimentos favoráveis. 

Este género de assunto pode sempre ser encarado sob um duplo olhar. 

Por um lado, defender-se que um hit ninguém lhes tira, e que seguramente não são responsáveis, nas provas que ganharam, por os rivais não se terem conseguido manter na estrada ou sido alvo de contratempos mecânicos nos respetivos carros. 

Não deixa também de ser verdade que, neste jogo do ‘deve’ e ‘haver’, vários (ou quem sabe mesmo todos...) deles até já talvez pudessem ter, antes ou depois das vitórias que conseguiram, chegado ao lugar mais alto do pódio noutros Ralis do WRC

No entanto uma vitória deve ser, antes de mais, uma decorrência de supremacia perante a concorrência.

Os cinco pilotos em apreço têm de facto um hit registado nos seus palmarés, mas falta-lhes um segundo (ou terceiro, ou quarto…) hit, de preferência obtido perante todos os mais cotados adversários em prova, que transforme uma conquista fugaz num enquadramento em que se mostrem capazes de se tornar clientes regulares das listas de vencedores de Ralis no mundial da especialidade. 

Acreditamos que dentro de algum tempo algum ou alguns deles possam ‘descolar’ deste triunfo conjuntural e conquistar novos êxitos. 

Andreas Mikkelsen será no papel, pelo menos no futuro imediato, quem tem melhores condições para o conseguir. 

Porque tem mais tempo (é o mais jovem de todos) e tem, exceto surpresa de maior para 2016, mais carro. 

No entanto, Neuville já mostrou em diversas ocasiões, sobretudo em 2013, ter rapidez e estofo para grandes acometimentos, desde que integrado numa estrutura onde se sinta motivado. 

Sordo tem muita experiência e, ao volante de um bom carro e numa prova (sobretudo em asfalto) em que esteja confiante, pode também ganhar. 

De Ostberg, agora regressado a uma equipa que já conhece, espera-se que combata uma aparente tendência de ‘Hirvonização’ (optando pela regularidade em detrimento de cadências sistemáticas em maximum attack) que parece ter tomado de assalto a sua carreira, e demonstre a determinação que lhe conhecemos em anos anteriores. 

A melhor resposta do norueguês aos céticos, aliás, reside no facto de na temporada de 2015 ter concluído o campeonato do mundo na quarta posição final, sendo o melhor dos pilotos ‘não VW’

Kris Meeke é de todos o menos jovem. 

Mas talvez, dentro deste quinteto, aquele que compete com mais irreverência juvenil

Garra e determinação não lhe faltam. 

São esses os atributos para ganhar Ralis. 

Falta-lhe talvez mais regularidade. 

Mas consistência é coisa que fica mais para quem pensa em função de treze Ralis integrados num campeonato. 

Meeke compete aparentemente sem preocupações com esse tipo de contabilidade

A sua postura é tipo dar sempre o máximo e as contas fazem-se no fim. 

Veremos, então, o que o saldo final das carreiras destes cinco pilotos ditará quanto a triunfos absolutos averbados no mundial de Ralis. 

Para já, cada um tem, como se viu, uma vitória no bornal. 

Merecem, em abstrato, todos repetir tal façanha.

Sobretudo para que as interrogações em torno do ‘como’ possam ter uma resposta quase intocável, baseada em oito simples palavras: porque foram mais rápidos que todos os adversários.

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 RALI DE PORTUGAL > 2012 






 RALI DA ALEMANHA > 2013 





 RALI DA ALEMANHA > 2014 









 RALI DA ARGENTINA > 2015 









 RALI DE ESPANHA > 2015 





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