quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

P.E.C. Nº 335: O poder do olhar...


Há mais de cinco anos, nos primórdios deste blogue, num curto trabalho abordámos, então, com confesso saudosismo, o tempo em que ao aficionado na berma do troço era permitido ver o trabalho de piloto e copiloto dentro do carro

Na altura ainda não estavam massificadas as câmaras colocadas no interior do carro, viradas para o rosto dos respetivos ocupantes. 

Era apenas do lado de fora que, por vezes em frações de segundo, se conseguia compreender o trabalho de volante e a postura facial de todos aqueles que admirávamos e tínhamos como heróis. 

O tempo (e as imagens que foram sendo entretanto divulgadas por essas redes sociais fora), esse profundo sábio, encarregou-se de ir confirmando algumas das nossas perceções. 

O McRae, por exemplo, enquanto cortava furiosamente cada curva e coreografava os troços com as rodas do carro muitas vezes no ar, guiava com uma expressão tão descontraída como estivesse a meio da tarde a tomar chá e a lanchar uns scones na Versalhes, ali à Avenida da República. 

O Panizzi, outro exemplo, esbugalhava aqueles olhos claros até ao limite das órbitas, num semblante em tudo idêntico aos passageiros das mais íngremes montanhas-russas que encontramos nos melhores parques de diversão. 

Em Portugal os Ralis também tinham rostos impressivos quando, enquanto espetadores, os víamos para lá dos para-brisas dianteiros. 

Nessa área havia alguém que se destacava: o Adruzilo

Em matéria de Ralis nunca fomos especialmente propensos a ter ídolos, nem a seguir empedernidamente apenas o piloto ‘A’ ou o piloto ‘B’

Havia casos de pilotos que admirávamos, só isso.

Como o Rohrl, que conseguia amestrar carros por definição quase indomáveis como os Grupo B, conduzindo-os com eficácia e rigor germânicos. 

A partir de meados dos anos noventa (embora já o tivéssemos em linha de mira alguns anos antes, a partir sensivelmente do saudoso troféu Citroen AX) tínhamos simpatia pelo Adruzilo

Digamos que simpatizávamos com a alegada ‘antipatia’ dele. 

Ao tempo o Adruzilo era tido, quase com foros de lenda, como pouco paciente. 

Tinha um feitio difícil, dizia-se. 

O homem de Regilde ao falar com alguém era invariavelmente, fazia-se crer, com cara de poucos amigos

O tempo, uma vez mais o tempo, haveria de confirmar que tais características não eram, no fundo, mais que um exercício de autodefesa face às exigências da competição, além de funcionarem como uma exteriorização, quase inconsciente, da timidez que, essa sim, é traço marcado no caráter de Adruzilo Lopes

Ao contrário de muito boa gente, era também por essa (mais aparente que real) contínua ‘má disposição’ que torcíamos um bocadinho pelo nortenho, possivelmente porque no nosso próprio núcleo de familiares e amigos mais chegados éramos (e continuamos a ser, pois continuamos, que isto com o avançar da idade até tem é tendência para piorar...) de igual forma carinhosa e amistosamente brindados com ‘mimos’ de conteúdo semelhante. 

Porém, não é a maneira de ser de Adruzilo, hoje, aliás, um comunicador afirmativo nas redes sociais e no contacto com os média, que nos motiva aprofundar. 

Ou se calhar até será, em certo sentido. 

Desde que nos conhecemos como aficionados de Ralis, algumas das imagens, poderosas, que retivemos na memória, estão ligadas ao tricampeão nacional, sobretudo a partir do momento em iniciou a ligação oficial à Peugeot Portugal, primeiro com o incontornável 306 Maxi (entre 1996 e 1999), e depois aos comandos do 206 WRC (em 2000 e 2001)

Vários dos nossos flashes de regresso ao passado dos Ralis nacionais, apontam muitas vezes na direção da expressão facial de Adruzilo enquanto guiava aqueles sensacionais automóveis nos limites. 

Cá de fora, em curtas frações de segundo, percebia-se no olhar do piloto de Regilde um poder tremendo, capaz de transpor os limites do vidro dianteiro das suas máquinas, como se tivesse na estrada à frente do carro um inimigo a derrubar

Foram anos e diversas ocasiões (enquanto os carros não começaram a fechar as persianas...) em que nos deparámos frente-a-frente com o rosto de Adruzilo em troço. 

Cruzámo-nos invariavelmente com a já típica feição dura

Com os olhos semicerrados, e as maçãs do rosto comprimidas. 

Talvez com os dentes cravados de nervo e raça

Por trás da balaclava não seria difícil imaginar a presença de lábios prensados e queixo firme que nem aço. 

Era, não nos cansamos de dizer, uma expressão tremenda de determinação

Como se de uma estratégia de intimidação à estrada se tratasse. 

Temos bem presente na memória o primeiro Rali que 'Aduzer' venceu à geral. 


Para quem conhece as especiais de São Pedro de Moel, estávamos naquele ano no cruzamento à saída das matas nacionais (estrada São Pedro → Praia da Vieira), mesmo em plena ponte. 

De dentro do arvoredo, ouve-se um rugido progressivamente a aumentar de tom. 

Se quisermos, um leão a fazer-se anunciar ao público da prova. 

Dois leões, melhor dizendo: um chapado no capô frontal do 306 Maxi, outro sentado aos comandos do saudoso bólide francês. 

Com a prova já praticamente ganha, eis que aparece em grande estilo o proeminente carro branco e azul. 

No seu interior, Adruzilo agarra o volante como o recém-falecido raguebista Jonah Lomu pegava na bola ovalizada antes de embalar para um ensaio. 

Os olhos do regildense não enganam. 

Como o neozelandês do desporto das formações ordenadas, o piloto do Peugeot demonstrava naquela expressão um arrojo inquebrantável, capaz, se necessário, de levar tudo e todos à frente

O carro passa, sobe a pequena reta da estrada atlântica, e lá ao cimo, na abordagem à curva à esquerda (curva da Praia Velha) que leva os concorrentes de novo ao interior das matas, o Peugeot torna-se o único automóvel de entre todos em prova que recusa exibir aos adeptos (que agora o olham para a sua traseira) as luzes vermelhas sinalizadoras de stop/travagem. 

Nesse preciso momento, há quase vinte anos, pelo olhar transbordante de vontade de vencer, e pelo olímpico ignorar do pedal do meio onde todos os outros abrandavam o ritmo a olhos vistos, intuímos de imediato que os Ralis portugueses estavam perante um piloto fabuloso, impressão que o tempo se encarregaria de confirmar e reconfirmar. 

Passados todos estes anos, deparámo-nos de novo há uns dias com o semblante de sempre de Adruzilo Lopes quando sentando aos comandos de um carro de competição. 

Foi nas celebrações dos vinte e cinco anos da comercialização do Renault Clio em Portugal, evento a que já aludimos anteriormente neste blogue

Nas imagens onboard que a Renault Portugal disponibilizou relativamente a uma série de co-drives então ali realizados (selecionámos cinco exemplos que disponibilizamos mais em baixo neste trabalho), é percetível a eterna expressão felina que é modo de ser do atual campeão nacional de produção. 

Continua lá tudo. 

Talvez com uma ou outra ruga a mais, mas continua lá tudo. 

Os olhos transbordando necessidade de guiar depressa, mesmo num evento de demonstração, sem contar para nada e nem sequer com cronómetros ligados. 

Não somos peritos em perscrutar segredos nas expressões faciais.

No rosto de Adruzilo, porém, permanece, porventura inconscientemente, impressa uma certa ideia de coação aos caminhos que vai percorrendo em ritmo competitivo, materializada naquele olhar fulminante dirigido dez ou vinte metros à frente do carro. 

Mas não será o constante sobrolho franzido, afinal, a imagem de marca dos predestinados?


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Da série Adruzilo Lopes, consultar também:

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://www.facebook.com/photo.php?fbid=292600777449551&set=a.261844843858478.61623.100000988940622&type=3&theater
- http://www.tudosobrerodas.pt/img/tsr-a/z/30797.jpg

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