P.E.C. Nº 339: A 'ditadura' dos grandes...


i)

Dentro do que vamos lendo em alguma imprensa e pelos contactos que temos estabelecido com diversas pessoas ligadas aos Ralis nacionais, está instalado um clima generalizado de grande confiança, senão mesmo de alguma euforia, relativamente ao que poderá vir a ser o parque automóvel do campeonato nacional de Ralis em 2016. 

Como é natural, todos os agentes direta ou indiretamente ligados a este desporto desejam ver nas nossas classificativas um plantel o mais recheado possível de bons carros e bons pilotos, proporcionado espetacularidade e luta apertada pelas vitórias em cada prova. 

Porém, aos nossos melhores desejos nem sempre (melhor dizendo: muitas vezes) corresponde, depois, a realidade. 

A velha e conhecida tradição lusa relembra-nos, se necessário, que a clarificação dos projetos desportivos para competir nos nossos Ralis é feita (com honrosas exceções) em cima do início dos campeonatos, algo que torna especialmente complexa a tarefa de antever com exatidão que carros e pilotos evoluem, posteriormente, no campeonato maior da modalidade em Portugal. 

O afã de produzir notícias sobre o CNR conduz por vezes a algum jornalismo de oráculo (de que não somos especiais entusiastas…), capaz de elaborar muitas especulações e interrogações, desenhando todo um conjunto de cenários que nem sempre têm a necessária conformidade com os desígnios do concreto. 

Que existem muitos pilotos com vontade de evoluir a sua pilotagem para os carros de tipologia ‘R5’, disso não temos qualquer dúvida. 

Querer participar na totalidade do campeonato com um automóvel topo de gama, capaz de proporcionar entrada na luta pelos melhores resultados, é, aliás, ambição tão legítima quanto saudável. 

O entrave está, porém, invariavelmente no mesmo e por demais conhecido problema de sempre: dinheiro! 

ii)

À data em que o caro amigo leitor der uma olhadela por estas linhas, há ainda muitas incertezas sobre o plantel do campeonato nacional de Ralis para a temporada de 2016. 

Encerrado o pano relativamente à época desportiva anterior e após cessarem do ponto de vista mediático as polémicas em torno do último Rali de 2015, tem vindo a ser alimentada em diversos quadrantes uma narrativa virada para um certo fausto quanto a carros ‘R5’ e, em menor escala, ‘S2000’ que alegadamente animarão as provas do CNR no ano desportivo já em curso, a iniciar no início de março próximo nas clássicas especiais de Fafe. 

À margem de um conjunto muito grande de rumores e suposições, o momento atual ajuda a perceber que há desde já diversas confirmações e, sem certezas definitivas, fortes probabilidades quanto a alguns nomes que estarão presentes ou primarão pela ausência no escalão maior da modalidade em Portugal na época que se avizinha. 

Começamos pelas notas de destaque pela positiva. 

iii)

O regresso de Fernando Peres ao CNR é claramente uma delas. 

O tricampeão nacional absoluto (entre muitos outros títulos que ostenta no respetivo palmarés) é uma referência da modalidade, mantém intactas as qualidades de pilotagem, e será seguramente um motivo de interesse, agora que dispõe de um automóvel potencialmente ganhador, perceber como se vai entrosar com uma máquina da nova geração e medir-se frente aos nomes mais fortes dos Ralis nacionais da atualidade. 

Carlos Martins evoluirá do Skoda S2000 campeão de 2014 para o Citroen DS3 R5 campeão de 2015, corolário quase lógico de uma carreira ascensional que agora, pela primeira vez, lhe permite pensar em vitórias à geral e quem sabe até almejar a algo mais. 

Carlos Vieira é aquele tipo de piloto relativamente ao qual se costuma dizer ser uma força da natureza

Muito ambicioso, determinado, portador de insuspeito talento, na temporada passada deu claros sinais quanto ao que vem e ao que quer nos Ralis. 

Não se pode dizer, em rigor, que tenha feito um upgrade relativamente à sua montada para 2016, uma vez que já vinha de um ano ao volante do Porsche e do Fiesta R5, mas tendo acumulado experiência e saber ao vencer troços e liderado Ralis, é quase certo que vamos vê-lo como cliente regular dos lugares cimeiros no CNR, quer em terra, quer em asfalto. 

Manuel Castro dá o salto do Mitsubishi de produção para um (mais) exigente Skoda Fabia S2000, e será interessante verificar como se vai medir com Joaquim Alves, que manterá viatura idêntica que já pilotou em 2015. 

No campeonato de duas rodas motrizes/dois litros, sabe-se para já que Paulo Neto vai manter o automóvel com que competiu na última temporada. 

Um piloto em percurso ascensional no nosso país, André Cabeças, fará a estreia na totalidade do CNR aos comandos de um Citroen C2 R2 Max

Estamos convictos que irá dar bastante nas vistas e confirmar o seu nome enquanto valor sólido da modalidade. 

Miguel Carvalho, tudo o indica, assesta baterias na tentativa de evoluir para um Clio R3, ao passo que Filipe Madureira exibirá nas provas lusas um Fiat Abarth 500 equipado com caixa sequencial. 

Em paralelo a estas confirmações, há, depois, todo um imenso mar de indefinição. 

iv)

Por esta altura ‘fala-se’ em vários nomes. 

Nada de nomes novos. 

Acima de tudo regressos, que naturalmente se saúdam caso se confirmem. 

‘Fala-se’ em Miguel Campos e Paulo Meireles poderem vir a competir com máquinas 'R5' (ambos fizeram-no em 2015, numa única prova, o Serras de Fafe)

‘Fala-se’ num hipotético regresso de Bruno Magalhães, caso o seu projeto internacional não chegue a bom porto. 

Bernardo Sousa também talvez não deva ser nome a descartar nesta equação, após uma temporada internacional em 2015 que só pode ter sido frustrante para o piloto madeirense. 

houve quem alvitrasse, até, um regresso de Armindo Araújo

Com um projeto já em marcha para um programa completo em 2016, alavancado numa ambiciosa quão inédita campanha de recolha de fundos, está Ricardo Teodósio, após ter feito o gosto ao dedo no Rali Casinos de Algarve que encerrou a época desportiva anterior. 

Diogo Salvi 'pode' transferir-se da Ford para a Skoda

Víctor Pascoal 'pode' aparecer nas provas de asfalto aos comandos de um Porsche

De nomes como Paulo Moreira ou Marco Reis ainda pouco se sabe de concreto. 

Quanto a Renato Pita, passa-se mais ou menos o mesmo. 

João Ruivo em novembro passado referia ter intenção de vender o Clio R3 e passar para um veículo de quatro rodas motrizes, possivelmente no agrupamento de produção. 

v)

A somar a tantas interrogações a próxima temporada vai perder, pelo menos a tempo inteiro, dois dos três primeiros classificados absolutos do campeonato do ano passado. 

Ricardo Moura parece apostar prioritariamente no campeonato regional dos Açores (decorrência natural dos interesses dos respetivos patrocinadores), e em paralelo fazer algumas provas isoladas no estrangeiro. 

João Barros afina pelo mesmo diapasão, pretendendo experimentar as exigências de Ralis fora de Portugal e sinalizando de premeio que só pontualmente comparecerá (se comparecer) em eventos do CNR, agora que até cedeu a sua viatura a Fernando Peres

Mas a sangria de nomes fortes da modalidade pode não se ficar por aqui. 

Marco Cid, o campeão em título das duas rodas motrizes, ambiciona legitimamente dar um impulso internacional à sua carreira, parecendo-nos ser esta a altura certa para o efeito assim apareçam os apoios indispensáveis para que tal se torne realidade. 

Outro campeão em título, o eterno Adruzilo Lopes, tem-se remetido ao silêncio no que respeita aos seus planos para 2016. 

Competitivo por natureza, não é piloto para participar por participar. 

Necessita de motivação. 

Necessita de contendores. 

No atual cenário, não é portanto de estranhar que alegadamente não se sinta mobilizado em repetir o nacional com o Subaru de produção, como de resto terá já dado a entender. 

Rafael Cardeira, campeão na classe RC5, tem como objetivo para a época vindoura integrar o Challenge DS3 R1, pelo que caso tal intenção se confirme só episodicamente alinhará nos Ralis do CNR

vi)

Por tudo o que desenvolvemos mais acima (e de acordo com a informação concreta de que neste momento está disponível) não nos parece que se deva, pelo menos para já, olhar o CNR/2016 em clima de efusiva celebração. 

Até março, como é lógico, haverá projetos que confirmam presença, outros que nem por isso. 

Vai haver quem participe, em programas completos ou parciais, no CNR

Vai haver quem fique infelizmente de fora. 

O normal quando se está perante algo condicionado a questões de dinheiro. 

Não olhamos, nem nunca olhámos, para o CNR em função só de quem ganha ou tem pretensões a ganhar. 

Sempre defendemos que uma competição de Ralis enriquece-se pela diversidade de carros que tem para mostrar, e tanto respeito, consideração e interesse nos merece quem anda sentado nos 'R5' à procura da glória, como quem, com carros menos evoluídos, roda, muitas vezes em comparação de escala também bastante rápido, nos lugares mais lá para trás do pelotão. 

Não nos parece um fator positivo para o campeonato nacional de Ralis que se exacerbe mediaticamente quem vai continuar com 'R5' e quem evolui para os 'R5' (por muito que admiremos, como de resto admiramos, todos os pilotos que em 2016 irão tripular tais bólides), ao mesmo tempo que em simultâneo se vota a um silêncio quase sepulcral do ponto de vista noticioso quem vai (ou se encontra a tentar) participar nas outras categorias (produção, dois litros, RC3, RC4, RC5) do CNR

neste momento, assuma-se sem tibiezas, uma certa ‘ditadura’ mediática direcionada quase em exclusivo para os projetos potencialmente vencedores no nacional de Ralis, quase transformando a modalidade na idiossincrasia do futebol em que praticamente tudo gira à volta de Benfica, Sporting e Porto, secando-se ao interesse e à atenção dos adeptos aquilo que se vai passando nos demais clubes

Como lucidamente frisou José Pedro Fontes em recente (e admirável) entrevista à AutoSport, o CNR tem de ser encarado como um produto potenciador de espetáculo e emoções, e promovido enquanto tal. 

Não sendo nós, de todo, candidatos a pilotos, uma vez que o nosso talento ao volante esgota-se quando muito na manobra de carros-de-mão (ou nem isso…), parece-nos, porém, que o atual clima torna difícil a qualquer concorrente que pretenda competir nas divisões ‘inferiores’ do CNR, explicar a (potenciais) patrocinadores a viabilidade de investir num projeto que, depois, é absolutamente secundarizado em detrimento dos carros, equipas e pilotos que se batem pelas vitórias à geral, ainda que tal projeto até esteja alicerçado em bases sólidas para chegar aos triunfos à classe. 

Nos últimos anos, o nacional da modalidade tem vivido num minguar contínuo de participantes. 

categorias que têm tido nas mais recentes temporadas um número risível de concorrentes, de que o exemplo dos RC5 em 2015, em que apenas um único piloto participou no campeonato, é o exemplo mais (mas não único) flagrante. 

Ao passo que nos regozijamos com a aparição de projetos para competir com os mais competitivos bólides que os regulamentos permitem em Portugal, causa-nos assumida apreensão aquilo que poderá vir a (não) ser o campeonato do agrupamento da produção, das duas rodas motrizes ou dos RC5 (na presunção que este último se manterá), e não deixa de ser a nosso ver perturbadora a falta de capacidade do campeonato em regenerar-se e trazer mais concorrentes para o seu seio

O problema é estrutural. 

E resolve-se, repetimos, com recurso a um conjunto de medidas (que anteriormente elencámos mais detalhadamente) que visem tornar o acesso ao CNR bem mais atrativo do ponto de vista financeiro, sobretudo nas classes mais baixas que são, por definição, as que permitem o acesso de novos valores ao campeonato. 

Andamos todos numa contagiosa alegria sobre aquilo que poderá ser o CNR/2016 quando a carros com as especificações ‘R5’, estado de alma que para já até parte mais de expetativas que de confirmações. 

Venham de lá todos os 'R5' possíveis e imaginários, que cá estamos para aplaudi-los nas bermas das classificativas portuguesas. 

O problema, a nosso ver, é que ao mesmo tempo que se vão construindo cenários, por vezes quase efabulações, em torno das hipóteses de quantos 'R5' é que veremos em ação nos Ralis nacionais para a temporada que se está a iniciar, está-se a esquecer tudo o que não é 'R5' e que constitui, afinal, a base de sustentabilidade do campeonato

Portugal tem, comparativamente com o resto de Europa, um belíssimo campeonato em termos de qualidade quanto a carros e pilotos/copilotos. 

Portugal tem, comparativamente com o resto da Europa, um fraco campeonato em termos de quantidade quanto a carros e pilotos/copilotos. 

O cerne da questão reside nisto: saber se o que se pretende para o futuro é haver, a título exemplificativo, oito, nove, ou dez 'R5' a competir no CNR, e o campeonato estar cingido a um número igual ou pouco maior de participantes além desses. 

Soluções e ideias precisam-se. 

Um debate alargado em torno do futuro do campeonato a médio-longo prazo, e predisposição geral para estabelecer ‘pactos de regime’ regulamentares e alargados no tempo entre FPAK, preparadores, organizadores e pilotos, mais ainda.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.revistascratch.com/internacionales/noticia/video-carlos-martins-prueba-el-ds3-r5-en-presencia-de-sergio-vallejo-29690

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