P.E.C. N.º 340: Onde se fala do Médio Oriente, de bombas e de Deus...


No âmbito das grandes competições de Ralis, um dos aspetos que mais nos fascina é a ideia de diversidade

Cada Rali tem personalidade própria. 

Cada troço tem um ADN que não se repete. 

É sensacional a perspetiva de numa prova vermos piloto e copiloto a fazerem patinagem sobre o traiçoeiro verglas do Burzet, e semanas depois estarem em animados torneios de salto em cumprimento no Ouninpohja, ou praticando algo parecido com rafting Giulio Cesare abaixo. 

Das Sete Cidades até Sweet Lamb, do Great Olme até Whaanga Coast, em cada canto do planeta onde se pratiquem Ralis há sempre particularidades nos troços que os diferenciam por completo entre si, transformando-os em enormes desafios para quem conduz e para quem dita notas. 

O primeiro desses desafios será o entendimento

Entender a classificativa. 

Perceber que há nela uma abrangência que vai além do ‘manual de instruções’ em forma de caderno de notas. 

Não é exercício propriamente fácil. 

Não o é, antes de mais porque acreditamos haver qualquer coisa de vincadamente ‘feminino’ nas especiais de classificação dos Ralis. 

Dentro dos desígnios da psicologia não nos surpreenderia, até, se na relação entre o binómio piloto/navegador e a classificativa se desenvolvesse uma certa tensão de natureza quase sexual

Sensibilidade é, pois, uma das palavra-chave para quem conduz compreender a natureza do troço. 

Sensibilidade para compreender os estados de espírito da estrada que não raras vezes variam ao ritmo de poucas horas, tão capazes de ser doces na primeira passagem como neuróticos ao segundo encontro com os concorrentes. 

Sensibilidade para tocar a epiderme (por vezes sedosa, noutras ocasiões pouco cuidada, em alguns casos revelando uma inestética acne e em situações mais extremas sem quaisquer cuidados de reparação e rejuvenescimento) do trajeto cronometrado com a intensidade certa. 

Saber explorar as zonas erógenas da estrada, acariciando sem excessos as bermas do percurso, é outro dos predicados para que o desempenho de quem se senta no carro seja satisfatório, e a relação entre classificativa e pilotos se torne gratificante e cheia de plenitude. 

Há, repetimos, algum paralelismo entre os eternos mistérios (para nós, homens…) da condição feminina e os segredos que se escondem para lá da morfologia de um troço de Ralis. 

Aí reside, na dificuldade (impossibilidade?) de tornar tangível algo que não se compreende na perfeição, o encanto do belo sexo e a magia dos Ralis. 

Repare-se em dois exemplos concretos. 

O troço ‘grande’ de Arganil foi no seu tempo muito mais que meia-centena de quilómetros a percorrer. 

Nos montes e vales do Açor e na imponência daquelas paragens havia um desafio tremendo que ia muito além do trajeto propriamente dito que os inscritos no melhor Rali do mundo tinham de cumprir. 

As citadas Sete Cidades também são muito mais que uma estrada. 

Guia-se porventura ali, ao lado daquelas ravinas de centenas de metros, numa ambivalência de sentimentos, onde a excitação alterna com a noção de perigo e o prazer e medo misturam-se na mesma mescla de sensações que o adúltero desenvolve quando consuma a respetiva relação extraconjugal.

Mas deixemo-nos desta questão de feromonas que os Ralis podem produzir. 

Recentremo-nos, portanto, no propósito do presente trabalho. 

Uma das mais-valias no plano desportivo de um campeonato da modalidade é, a nosso ver, a diversidade

Ralis diferentes entre si, colocando desafios distintos a quem neles participa. 

A partir de 2006/2007 e durante um período de 4/5 anos verificaram-se uma série de modificações importantes no ‘tradicional’ calendário do campeonato do mundo de Ralis

Abstraindo-nos de aprofundar crimes como, durante quatro edições, Monte Carlo ter estado afastado do WRC, ou a aberrante e peregrina ideia de se ter transferido o Rali de França da Córsega para a Alsácia (anomalias entretanto corrigidas), é por aquela altura que aparecem na orla do mundial provas como a Irlanda, Noruega, Bulgária, reentram na competição Portugal e a Polónia (esta, ao fim de muitos anos), enquanto perdem fôlego as etapas da Turquia, Chipre e Japão

Neste paradigma de mudanças, em 2008, 2010 e 2011 a FIA apostou em validar uma nova prova realizada em lugar inimaginável anos antes, e foi dessa forma que o Rali da Jordânia, pontuável desde 1983 para o campeonato de Ralis do Médio-Oriente (MERC), deu o salto para o WRC

Ao tempo a decisão da FIA mereceu críticas de diversos quadrantes, 

Tratava-se, afinal, de uma ida da caravana do WRC a uma região do globo desconhecida em matéria de Ralis, conhecida pela instabilidade política e social. 

Colocando de lado questões e interesses de índole comercial para os quais temos pouca apetência em esmiuçar os respetivos contornos, sempre apreciámos o Rali da Jordânia, tal como apreciamos diversas outras provas que se disputam por aquelas paragens. 

Há uma ideia pré-formatada que se trata de Ralis essencialmente disputados em estradões rápidos desenhados nas planícies do deserto. 

Ideia errada. 

No acompanhamento que à distância vamos realizando ao MERC, os Ralis do respetivo calendário têm muita condução, requerem empenho dos pilotos, e em grande parte dos respetivos segmentos cronometrados há estradas traçadas em montes e vales com sinuosidade significativa

Um dos mais importantes atestados de competitividade dos campeonatos disputados na região do Golfo materializa-se nos pilotos que ali fazem escola, e depois sobressaem em competições de maior relevância à escala global. 

Os petrodólares ajudam naturalmente bastante. 

Mas numa região onde há diversa rapaziada com imensa propensão para o manuseamento de bombas (para o caso que nos interessa, de preferência as de duzentos e cinquenta cavalos para cima), independentemente do dinheiro há nomes que nos últimos trinta anos adquiriram protagonismo na alta-roda dos Ralis devido à rapidez, desde Mohammed Bin Sulayem no passado aos atuais e muito rápidos Yazeed Al-Rahji, e, claro, Nasser Al-Attiyah

Voltando à Jordânia e ao respetivo Rali disputado nas imediações do Mar Morto, uma das fotos mais sensacionais que conhecemos de Ralis é a que selecionámos (e disponibilizamos em vários ângulos) para abrir o presente trabalho. 

A prova conhecia a edição de 2013, já não integrava o quadro de honra do WRC, mas ainda assim reunia um lote interessante de carros com as especificações ‘RRC’ e ‘S2000’, além de uma série de máquinas do agrupamento de produção que por norma constituem o grosso do pelotão nos Ralis daquelas paragens. 

Ao volante do Citroen DS3 R3 com o n.º 25 estampado nas portas estava Mohammed Al-Sahlawi, coadjuvado por um copiloto europeu (prática que se repete invariavelmente nos Ralis do Médio-Oriente, em que os locais apostam em navegadores experientes e qualificados para ajudar a melhorar performances), ainda que conhecido sobretudo pelo respetivo apelido: Allan Harryman, filho de Terry “Dear God” Harryman que nos anos oitenta ganhou fama e prestígio (provavelmente bastantes sustos, também) ao lado de Ari Vatanen

A ter por boas as explicações do piloto, antes do local do despiste havia uma curva à esquerda ‘cega’, previamente identificada nas notas como problemática

No entanto, como a mesma foi cortada pelos demais concorrentes que o precederam em troço, ao chegar lá não havia referências nem linhas na estrada que pudessem ser seguidas, facto que, ainda que a baixa velocidade, levou o automóvel a sair da trajetória normal, descarrilando para o bordo de um pequeno desfiladeiro com 7/8 metros de profundidade. 

Se há, dizem, a angústia do guarda-redes no momento do penálti, aqui verificou-se talvez a angústia de piloto e navegador no momento em que o melhor que pode acontecer é… nada acontecer

Nos vinte longos minutos que terá demorado a tranquila operação de resgate, é bastante provável que Al-Sahlawi tenha pedido proteção a um dos profetas e Harryman, quem sabe, talvez tenha seguido as pisadas do pai trinta anos antes e clamado também pelos favores do ‘Dear God’

Certo é que, após esta peripécia, puderam retomar a prova concluindo-a num honroso… último lugar. 

Menos sorte teve, no mesmo local, a dupla constituída por Majed Al-Shamsi secretariado pelo irlandês John Higgins, sentados num Subaru Impreza STi N14

Desta vez (conforme as fotos que encerram este trabalho documentam da melhor forma), nesta outra ocorrência, o carro japonês não brindou os espetadores com um apurado exercício de equilibrismo

O eixo posterior entrou numa espécie de voo livre, a frente não teve mãos firmes para se agarrar à terra, e uma coleção de fortes hematomas na chaparia do Impreza aquando da chegada do bólide ao solo foi o resultado da aparatosa saída de estrada, levando inclusive Al-Shamsi ao hospital por precaução devido a fortes dores no ombro na decorrência do acidente. 

Retratam-se neste trabalho duas saídas de estrada. 

No mesmo Rali. 

No mesmo local. 

Com desfechos completamente distintos entre si. 

Sinaliza-se nesta comparação, pensamos, o quão ténue pode ser nos Ralis a fronteira entre um pequeno incidente e um grande acidente

As imagens que se generalizadamente se projetam da modalidade são, entre outras, o movimento, a decisão, a reação ou a dinâmica

Poucas vezes, como nas magníficas fotos que abrem este trabalho, a modalidade foi precisamente o contrário, reivindicando inércia, incerteza, contenção ou imobilismo, relembrando-nos que, mesmo nos seus paradoxos, os Ralis podem produzir, sempre, momentos de sublime fotogenia.



AS FOTOS PRESENTES NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.automobilsport.com/uploads/_neustart2/may-8-2013/M%20Al%20Shamsi%20action.jpg
- http://biser3a.com/wp-content/uploads/2013/05/Jordan-Rally-incidents.jpg
http://www.dailymail.co.uk/sport/othersports/article-2322947/Jordan-Rally-Allan-Harryman-Mohammed-al-Sahlawi-cliff.html

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