quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

P.E.C. Nº 342: O Rally 2 está de 'saída' do WRC, despedindo-se literalmente 'à francesa'...


O sistema regulamentar anteriormente denominado Super Rally e hoje conhecido como Rally 2 foi implementado em 2005 no campeonato do mundo de Ralis. 

Em 2008 tal normativo sofre alterações: os carros que desistem no último dia de prova não podem voltar a constar da classificação do respetivo Rali. 

Em 2012, novo paradigma: ao invés de uma regra-padrão a vigorar sem exceção para todos os eventos do mundial, a FIA passa a conceder a cada organizador a oportunidade de escolher se à sua prova se aplica ou não essa especificação. 

Desde o início que a adoção do (agora) denominado Rally 2 tem levantado controvérsia. 

Há quem, numa visão mais purista da modalidade, o renegue por alegadamente subverter a verdade desportiva e estar desconforme a realidade regulamentar dos anos de ouro do WRC

Há quem, numa visão mais vanguardista deste desporto, o defenda por beneficiar o espetáculo ao haver mais carros durante mais tempo em competição dentro de cada Rali. 

A nossa opinião relativamente ao tema é clara: somos muito favoráveis à regra do Rally 2, que nos parece em termos da estruturação dos eventos do mundial uma das ideias mais conseguidas que a FIA implementou nos últimos anos

Os Ralis precisam de carros. 

Num cenário global de alguma desertificação nas listas de concorrentes, que, refira-se, atravessa transversalmente quase todos os campeonatos da modalidade que se disputam por esse mundo fora, não é bom para ninguém chegar-se à fase das grandes decisões de cada prova e haver já uma hierarquia na classificação completamente definida fruto de muitas desistências havidas até aí. 

Não é bom para os adeptos (quer os que estão no troço, quer os que estão no sofá), que seguramente se deslocam à estrada ou colam-se ao ecrã desejando ver o máximo possível de bons carros, condição para que as provas do mundial possam ser potenciais réplicas da Nova Zelândia em 2007 ou Jordânia em 2011, com lutas cerradas ao décimo de segundo até final pelas posições de maior destaque. 

Não é bom para os patrocinadores, que quando os veículos que ostentam a promoção dos seus produtos saem prematuramente de cena perdem espaço publicitário e necessariamente o retorno do seu investimento. 

Não é bom para as organizações, que não conseguindo manter o máximo possível de concorrentes até final sofrem com a perda de competição dentro dos seus Ralis e, por arrasto, com perda de espaço mediático e decréscimo na atenção da generalidade das pessoas que giram à volta da modalidade.

Ciente, dentro deste mundo globalizado, que a promoção e o retorno são variáveis fundamentais para se desenhar a regulamentação dos eventos do WRC, a FIA socorreu-se há onze anos do sistema (hoje) designado Rally 2

Em 2015 aumentou de cinco para sete os minutos de penalização por cada classificativa não cumprida em cada etapa pelos concorrentes. 

Para 2016, mais alterações de monta

Não só os concorrentes que regressarem em cada dia de prova através de Rally 2 deixam de abrir a estrada (ideia a permitir todo o género de interrogações sobre se estamos, no fundo, perante mais uma medida artificial destinada a travar a supremacia de Ogier e Ingrassia nos Ralis em terra) e passam a arrancar atrás dos prioritários FIA (os demais WRC em prova), como, pior, prevê-se uma penalização de sessenta minutos (à exceção das Superespeciais, em que serão sete) por cada dia de prova em que cada concorrente não chegue ao respetivo parque de assistência final (recorde-se que a malha é de tal forma apertada que um atraso de vinte segundos na partida para um troço leva à exclusão de piloto e navegador nesse dia de prova)

A ideia é, pensamos, impossibilitar por completo a quem por qualquer motivo não consiga completar cada dia de prova, chegar no final da prova na frente de quem logrou concluir todas as classificativas de um dado evento. 

Parece-nos uma intenção que poderá (o tempo o dirá) conduzir a uma espécie de automutilação do sistema de Rally 2, em que o mesmo continua a existir na letra de lei mas está absolutamente esvaziado na sua aplicabilidade prática. 

Desde que a regra em análise foi implementada no WRC, uma palavra muito simples passou a integrar o léxico de equipas e pilotos: expetativa

Ao longo destes mais de onze anos, habituámo-nos a ver concorrentes regressar a Ralis do mundial com a expetativa de minorar perdas pelo seu abandono no dia anterior de prova, muitas vezes não por erros de condução mas por simples questões decorrentes de falta de sorte, como, por exemplo, avarias mecânicas. 

Num campeonato em que todas as pontuações contam e não há resultados para deitar fora nos respetivos fechos de temporada, esses regressos foram tendo naturalmente como fundamento primeiro a expetativa de poder amealhar-se, afinal, alguns pontos em termos das classificações de pilotos e equipas numa prova, capazes, quem sabe, de fazer a diferença nas contas finais de um campeonato (com todos os milhões de euros de embolso que isso pode significar)

E foi assim, no cenário de pilotos a ter de fazer pela vida, sem nada a perder e com tudo a ‘ganhar’, que nos habituámos a assistir em muitos Ralis a pilotos a andar no limite à procura do prejuízo perdido, dessa forma beneficiando, pela presença e pela toada, grandemente o espetáculo. 

Do recente Monte Carlo vieram já sinais muito claros de um estado agonizante da regra Rally 2

Não entrando sequer na contabilidade dos concorrentes ao WRC2, só nos ditos prioritários 1 verifica-se que Camilli, Bertelli, Bouffier e Kubica abandonaram bem cedo na prova monegasca (não nos parece que em qualquer dos casos os carros tenham ficado irrecuperáveis mecanicamente, longe disso) e não retomaram o Rali nos dias subsequentes de competição

Compreende-se porquê. 

Quando a participação na totalidade do campeonato do mundo de Ralis envolve uma maquia de milhões de euros e os orçamentos de quem compete são geridos numa lógica empresarial, na relação custo/benefício receamos não haver qualquer vantagem em retomar-se agora uma prova com recurso ao Rally 2, uma vez que não há uma tradução prática em termos de classificação final e dos inerentes pontos (sobrarão na melhor das hipóteses umas migalhas da power stage…) e os bólides e respetivos tripulantes nessas circunstâncias passam a encontrar-se mediaticamente subalternizados ao partir depois dos demais adversários. 

As alterações nesta regra introduzidas para 2016 são, a nosso ver, portanto, um erro de monta. 

Jean Todt se hoje fosse ainda diretor de equipa seria talvez o primeiro a reconhecê-lo. 

Provavelmente até uma das vozes mais incisivas a denunciá-lo. 

Michèle Mouton se fosse ainda piloto, idem...

^_^_^_^_

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- https://i.ytimg.com/vi/OVkSELuXM6g/maxresdefault.jpg

Sem comentários:

Enviar um comentário