terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

P.E.C. Nº 344: I Gotta PHILing...


A colheita de 2002 proporcionou um WRC vintage, daqueles que perduram e refinam com o passar dos anos. 

Não obstante ter sido tirada de produção uma casta excecional como o Rali de Portugal, nesse ano conseguiu-se apesar de tudo um lote de Ralis de verdadeira qualidade premium, enriquecidos por um elevado número de carros e por pilotos de insuspeito talento como poucas edições do mundial da modalidade conseguiram reunir em simultâneo. 

Uma das etapas dessa temporada disputou-se na Grécia, ali paredes-meias com o Partenon, materializada no clássico Rali da Acrópole

Em meados de junho, com o calor mediterrânico a expressar toda a sua força e os troços helénicos a exibirem a lendária dureza de sempre (camadas de pó a servir de lençóis a muita pedra solta…), previa-se, claro, uma prova de desfecho incerto e peripécias mil, dificílima, portanto, para máquinas e homens. 

Contextualizemos: à partida do Rali da Acrópole de 2002 apresentaram-se na respetiva grelha de inscritos vinte e nove carros WRC de oito marcas diferentes (entre equipas oficiais e não oficiais)

Àqueles, entre diversas outras viaturas, designadamente do agrupamento de produção, juntaram-se vinte e sete carros S1600, também de oito construtores distintos entre si. 

Sete campeões do mundo (Blomqvist, KKK, Sainz, McRae, Gronholm, Burns e Makinen) foram cabeças-de-cartaz na prova em torno de Parnassos, mas jovens valores da modalidade como Solberg e Loeb, ou nomes de créditos firmados como Rovanpera, Martin, Loix, Delecour, Eriksson, Schwarz ou Panizzi integraram o elenco do evento recusando à partida a condição de meros figurantes

Atalhando palavras, vamos então para o fim do enredo

Colin McRae, navegado pelo incontornável Nicky Grist, averbaria a vigésima quarta vitória à geral em Ralis do WRC (a penúltima do seu percurso no mundial da modalidade), correspondente ao seu quinto triunfo em terras helénicas. 

A relação entre o escocês e as classificativas gregas é, aliás, daquelas contradições na carreira de Colin que, por quase inexplicáveis, acabam por alimentar a lenda: um piloto que sempre foi visto como esbanjador no acelerador e, portanto, pouco poupado na gestão da mecânica dos carros que tripulou, encontraria precisamente no Rali mais duro do WRC (o Safari é/foi um caso à parte…) o local ‘improvável’ onde conheceu mais frequentemente o êxito máximo na modalidade. 

Sete pilotos ao volante de carros de cinco marcas venceram classificativas na prova ora objeto de análise, o que traduz com clareza aquilo que foi a competitividade do evento. 

Mas no caso que nos interessa para este trabalho, foquemos agora as atenções na prestação de Petter Solberg e Phil Mills no Rali da Acrópole ocorrido há catorze anos. 

A dupla ao serviço da Subaru partia para este Rali à procura da sua primeira vitória no WRC

Ambição legítima. 

Haviam sido segundos classificados na Grécia no ano anterior, tinham paulatinamente adquirido traquejo e se tornado clientes habituais de vitórias em troços e bons resultados à geral nos mais diversos tipos de Ralis, vinham de um segundo lugar na Argentina, pelo que se apresentavam especialmente moralizados à partida para a sétima prova do ano, fecho da primeira metade da temporada. 

Porém, nem nos piores pesadelos Petter e Phil imaginariam um início pior. 

Logo na primeira especial o Subaru fez meio pião, num pequeno erro de condução que em condições normais não traria problemas de maior à exceção de alguns segundos de tempo perdido. 

Porém, a máquina fez birra

O motor do carro nipónico (saudades daquele som…) recusou voltar a trabalhar, não obstante os intensos esforços de Solberg em sentido contrário pressionando o botão start no tabliê. 

A greve ao trabalho do bólide azul duraria cerca de minuto e meio, o tempo para o interior da viatura se encher de um sentimento de forte frustração e incredulidade, que desta forma, ainda a procissão ia no adro, colocava piloto e copiloto praticamente arredados da discussão pelo triunfo. 

Por artes do inexplicável, o Subaru lá decidiu a páginas tantas subitamente cooperar voltando a dar sinais de vida, retomando a marcha para cortar a meta deste primeiro troço (com 24,45 quilómetros de percurso), apenas com o vigésimo sétimo melhor tempo, a 1m:45s do primeiro líder da prova, o estoniano Markko Martin

O Rali foi, no primeiro dia de hostilidades, deveras atípico. 

então, como hoje, a ordem de partida nas provas em terra assumia importância crucial, e nessa medida foi sem surpresa (ou, se o caro leitor preferir, com grande surpresa) que se viu Radstrom no neófito Xsara WRC a ganhar classificativas, ou os anacrónicos Accent de Schwarz e Loix (sobretudo o do belga) a lutarem taco-a-taco pela liderança com Martin e Park

O quadro era, portanto, altamente desfavorável a Solberg e a Mills

Restava-lhes, pois, atacar o máximo que se lhes fosse possível na procura do prejuízo perdido, ainda que nesta fase inicial de prova a ordem de partida para os troços não se revelasse especialmente favorável. 

Após as seis primeiras especiais e à chegada do parque de assistência no final da primeira etapa do Rali grego, haviam subido até ao décimo quinto lugar da classificação geral e, sem nada a perder, pareciam motivados para continuar a recuperar posições. 

Se bem o pensaram, melhor o fizeram. 

No sábado, segundo dia de prova, entram em grande estilo averbando desde logo a vitória no primeiro troço (haviam sido os mais velozes também no derradeiro do dia anterior), subindo assim a décimos da geral. 

A classificativa n.º 8 (‘Drosohori 1’, com 28,68 quilómetros) prometia dar mais um impulso à recuperação de posições para Petter e Phil

Partindo após os adversários mais cotados, esta especial (a mais lenta de todo o Rali) sendo longa e pedindo muita tração à saída das curvas servia na perfeição os intentos do norueguês e do seu assessor galês. 

E é aqui, precisamente nesta classificativa, que ocorreu um daqueles momentos, algures entre o bizarro e o transcendente, que fazem os encantos deste desporto. 

Rodava o Subaru a fundo quando, a páginas tantas, Solberg apercebe-se que o volante se está a desenroscar da coluna de direção. 

O guiador teima em não obedecer às ordens do nórdico, parecendo, enfim, quase querer ganhar vida própria. 

Pelos intercomunicadores, Petter de imediato dá conta disso mesmo a Phil

Profundamente concentrado na sua função, o navegador intui que há um problema mas pensa tratar-se de qualquer anomalia ao nível da direção do carro, talvez um furo lento, a ponto de ter pensado calçar as luvas para, sem perdas de tempo, mudar pneus caso o piloto parasse. 

Solberg percebe que Phil não assimilou o que se passa e, aumentando o tom de voz sem perder de vista a estrada pede incisivamente ao copiloto: Get the tools! (‘prepara as ferramentas!’)

Com uma calma olímpica atendendo às circunstâncias (a probabilidade de despiste, ou, no mínimo, a perspetiva da desistência da prova por avaria) e carregado de diplomacia britânica Phil não vacila: Steering? (‘direção?’)

Petter responde: Yes... (sim…)

Qual bombeiro sempre a postos para toda a ocorrência (não é isso que são os navegadores?) Phil não esmorece e tranquiliza: Ok! I’ll see what I can do (‘vou ver o que posso fazer’)

O que se vê de seguida é soberbo quanto à personificação de perseverança. 

Mills alivia ligeiramente os cintos de segurança, ergue-se um pouco do banco, roda o tronco e braços para trás, e tateia até encontrar a chave de parafusos certa para resolver o problema. 

Frame seguinte, outra imagem poderosíssima do que são os Ralis: Petter guia a toda a velocidade, empurrando o volante contra a coluna de direção enquanto o agarra, ao mesmo tempo que Phil, com o carro a trepidar e o piloto virando o guiador para se manter na estrada, vai apertando o parafuso central. 

Pouco mais de meia-dúzia de segundos depois, a boa-nova: It’s completely tightened (‘está completamente apertado’) sossega o navegador galês, prosseguindo a dupla do Subaru no troço até à tomada de tempos final. 

O episódio é, pensamos, extraordinário. 

É mais uma (entre tantas outras...) demonstração de como neste desporto o querer é condição para nunca deixar de tentar. 

Ralis em estado puro. 

Mas o delicioso da história não fica por aqui. 

Das pesquisas que encetamos, são os próprios protagonistas que estimam ter Solberg conduzido cerca de quatro quilómetros com o volante a desobedecer insolentemente às suas ordens e sem notas ditadas por Mills, a que se juntam mais um par de quilómetros desde que o volante foi aparafusado até o galês encontrar a página certa no caderno de notas passando a cantá-las a partir daí. 

No rescaldo do Rali, Phil esclareceu que neste período de tempo Solberg defendeu-se inteligentemente em termos de condução. 

Não cortou curvas (um exercício arriscadíssimo na Grécia sem notas que o avalizem, pelos calhaus que muitas vezes estão escondidos na berma dos troços debaixo da terra e do pó), mantendo racionalmente o carro a meio da estrada. 

Naturalmente, no final do troço a conclusão a tirar é mais ou menos óbvia: o tempo perdido para os mais rápidos terá sido considerável. 

Não foi. 

Espantosamente, não foi. 

Rezam os registos que Petter e Phil foram os segundos mais velozes na tomada de tempos, apenas perdendo, imagine-se, meros 4,7 segundos para os mais rápidos em Drosohori 1, Martin e Park no terceiro Ford oficial. 

Incrível

A prova continuaria marcada por lutas cerradas até final. 

Sem desarmar nem baixar a guarda, Solberg e o seu pendura ascenderiam à quarta posição após a penúltima classificativa deste Rali da Acrópole, mas depois de duelo sem quartel com Rovanpera na derradeira especial do evento cairiam in extremis, por um segundo, para o quinto lugar final desta frenética edição do evento grego disputada em 2002. 

Dos registos consta terem ficado na conclusão da prova a 1m:58,6s de Colin e Grist

Sem dez segundos de uma penalização atribuída, sem o minuto e quarenta e cinco segundos perdidos ingloriamente no primeiro troço, e sem o tempo perdido (não contabilizado) na primeira passagem por 'Drosohori', tal vez pudessem ter abertamente lutado pelo triunfo, que a acontecer seria, relembramos, o primeiro da dupla no WRC

Conseguiriam tal desiderato meses mais tarde, no fecho da temporada, no Rali da Grã-Bretanha disputado nas estradas de Gales, precisamente a terra natal de Phil Mills

Fica no entanto, da ‘tragédia grega’ que viveram no Rali da Acrópole, um exemplo de todo o fascínio contagiante que esta modalidade encerra. 

Por trás dos grandes resultados e vitórias, na sombra dos palmarés recheados de números gordos, longe das discussões em torno de toques ou acidentes, é neste género de histórias por vezes tão simples (que confessamente apreciamos), as que se conhecem e as que não se conhecem, que se pode encontrar a verdadeira essência dos Ralis.







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