sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

P.E.C. Nº 345: Já não há almoços grátis. E Shakedowns, muito menos...


Em novembro de 2014 escrevemos neste mesmo blogue:
«Tal como num campeonato do mundo de futebol não é seguramente à FIFA que compete assegurar se as chuteiras do Ronaldo se encontram nas melhores condições, nos Ralis também nunca compreendemos a razoabilidade de terem de ser as organizações a consumir recursos e energias para que pilotos e equipas possam verificar se os carros estão afinados e em bom funcionamento para cada prova. Essa é, a nosso ver, uma matéria da exclusiva responsabilidade de quem entra em competição, que deverá, se o entender, realizar testes (aliás, já muito boa gente o faz) nos dias imediatamente antes do Rali para que a máquina esteja no melhor apuro de forma possível. Na nossa ótica, o Shakedown deveria terminar em todos os Ralis pontuáveis para o CNR.» 

Os Ralis portugueses incorrem com frequência no pecadilho nacional de se discutir o acessório enquanto se descura o essencial. 

Nos últimos dias, andou meio mundo a debater acaloradamente o recurso à designação ‘Monday Test’ (em termos práticos, o Shakedown) que terá lugar na… quinta-feira imediatamente antes do Rali Serras de Fafe (na estrada nos dias quatro e cinco do próximo mês de março), prova de abertura da temporada de 2016 do campeonato nacional de Ralis. 

Convenhamos que apelidar de ‘Monday’ (segunda-feira) um acontecimento que ocorrerá numa quinta-feira não é algo de especialmente conseguido. 

No entanto, é uma questão de mero pormenor pouco ou nada relevante, que de forma alguma justifica o extenso número de carateres que lhe tem sido dedicado por essas redes sociais fora e em alguns fóruns de debate sobre a modalidade. 

Porém, sobre o tema abra-se o parêntesis: não deixa de ser particularmente curioso que a esmagadora maioria dos portugueses, sempre tão veementes a pedir a revogação do famigerado Acordo Ortográfico na ‘defesa da língua portuguesa’, nunca esbocem um gesto de protesto ou uma mera palavra de indignação no (cada vez mais) frequente recurso no nosso país a estes anglicismos dentro do léxico do desporto em geral e dos Ralis em particular

Lá está: o acessório a dar aviadelas ao essencial. 

Para o evento a disputar nos magníficos troços fafenses, a organização da prova, assegurada pelo Demoporto, propõe, então, a realização de um Shakedown, durante quatro horas, na quinta-feira antes da prova. 

Até aqui nada de novo. 

É algo que nos fomos habituando a ver em anos mais recentes nas provas nacionais de maior expressão. 

Só que Portugal é, como sabemos, um país cheio de originalidades. 

Somos um povo que é conhecido por ter uma enorme criatividade nas mais diversas ocasiões. 

Vai daí, dentro desse espírito inovador, a entidade organizadora do Rali decidiu levar avante um Shakedown (ou, se o amigo leitor for dado ao rigor dos conceitos, um 'Monday Test'), mas, estamos em crer que em absoluta estreia mundial… pago pelos concorrentes

É, parece-nos, toda uma nova era que se abre na modalidade. 

Neste rasgo visionário, os concorrentes pagam o valor de inscrição para competir num dado Rali, mas também pagam adicionalmente algo que de forma alguma se pode definir como competição. 

É um pouco como se o caro leitor entrar numa prova de ciclismo, mas ter de pagar para dar umas pedaladas a título de aquecimento e verificar se a bicicleta está devidamente afinada antes do evento.

É, talvez, como se o caro leitor entrar num torneio de futebol, mas ter de pagar para fazer alongamentos e dar uns toques no esférico antes dos jogos. 

O Demoporto, amenizador, já veio a terreiro tranquilizar as hostes esclarecendo que a participação no ‘Monday Test’ é facultativa e o valor a liquidar pelos concorrentes para o efeito meramente ‘simbólico’: € 100,00 por concorrente

À vista salta desde logo uma contradição: enquanto no Rali propriamente dito vigora em termos de valor de inscrição um princípio de progressividade, em os que os concorrentes aos vários campeonatos terão de liquidar verbas distintas entre si consoante se trate de inscritos ao CNR (€ 900,00 + IVA + Seguro = € 1.214,84), ao CNR 2R/2L e RC2N (€ 800,00 + IVA + Seguro = € 1.091,84), ao TRFPAKT (€ 450,00 + IVA + Seguro = € 661,34) e ao TRFPAKT para carros até 1.400 cc e veículos clássicos (€ 350,00 + IVA + Seguro = € 538,34), já para o ‘Monday Test’ há a aplicação de um princípio de igualdade do género utilizador-pagador, em que todos os participantes liquidarão um valor igual: € 100,00

Suscita-nos muita curiosidade perceber o que nos próximos dias os pilotos dirão (ou não…) sobre esta taxa adicional (somos um país incorrigivelmente viciado em taxas…) que o Demoporto vai aplicar no seu evento

Sabe-se haver muito boa gente que se queixa (embora pouca de forma pública, diga-se…) dos valores alegadamente elevados que se tem de despender a título de inscrição para fazer Ralis em Portugal, mas, facto curioso, ainda não ouvimos ou lemos uma única voz (sublinhamos: uma única…) que se tenha levantado contra o pagamento para participar neste ‘Monday Test’

Nesta matéria, debaixo da semântica de uma pretensa ‘inovação’, o que está verdadeiramente em causa é bastante claro: a organização da prova, qual Estado Português, a arranjar forma de se financiar garantindo umas verbas adicionais

Os pilotos (como sempre) tardam em reagir. 

Talvez porque, com honrosas exceções, estão concentrados (também como sempre) única e exclusivamente nos seus projetos desportivos, alheando-se por completo dos problemas que são comuns à classe, e ainda não terão percebido a dimensão da caixa de pandora que Fafe se prepara para abrir. 

Os dados ficam desde já lançados. 

Sabendo-se que os clubes organizadores de Ralis no geral se veem a braços com algumas dificuldades de tesouraria e equilíbrio financeiro no rescaldo da maioria das provas disputadas em Portugal, não é necessário grandes dotes de adivinhação para prever que o admirável mundo novo dos Shakedowns a pagar veio para ficar e se vai propagar com toda a rapidez aos demais eventos do CNR em 2016 (para nos circunscrevermos apenas a 2016, claro…). 

Nessa medida, os custos de participação na modalidade vão aumentar. 

Quando se aborda a questão dos Shakedown não é apenas (agora…) as respetivas ‘taxas’ de participação que são encargo adicional. 

São também, entre outros, itens na coluna das despesas como o aumento dos dias de prova com todos os encargos ao nível da logística que isso envolve, ou os custos com o consumo de combustível em ritmo de competição (fora ligações, que já nem sequer estamos a incluir)

Já afirmámos anteriormente e mantemos que o maior desafio que se coloca aos Ralis nacionais é encontrar soluções que o tornem atrativo no aspeto financeiro, fomentando o acesso de novos valores, sobretudo jovens, à modalidade

Todo e qualquer sinal que se dê no sentido de encarecer este desporto vai, parece-nos, no sentido errado. 

Com o beneplácito de alguma imprensa, tenta-se fazer passar a mensagem que os valores de participação no ‘Monday Test’ de Fafe são, passamos a citar, ‘simbólicos’

Não vislumbramos qualquer ‘simbolismo’ quando um piloto paga € 350,00 a uma organização para participar num Rali (estamos a colocar de fora os valores dos impostos e dos seguros), e depois lhe é pedido mais quase 30% dessa quantia para entrar em algo que nem sequer envolve competição.

Mesmo nas situações dos pilotos que se sentam nos veículos R5, ter de liquidar mais de 10% do valor da inscrição na prova (€ 900,00) para fazer 4/5 passagens (em quatro horas, pensamos que não serão mais que isso…) no percurso do Shakedown, só talvez com o recurso ao telescópio Hubble se possa ver aí algo de ‘simbólico’

Já para o Demoporto (e os ‘Demoportos’ que se lhe seguirão no calendário do CNR), se calhar as coisas deverão ser vistas de forma diferente. 

Basta, num cenário nivelado por baixo, haver vinte e cinco inscritos no Rali Serras de Fafe (desejamos, naturalmente, que sejam muitos mais…), para a organização amealhar, em termos brutos, mais € 2.500,00 no balancete das contas finais do evento, não perdendo de vista que as despesas, sobretudo com policiamento, serão incomensuravelmente mais simpáticas no trajeto do ‘Monday Test’ que nos troços cronometrados da prova. 

Contas feitas por alto, no final do ano, se a moda vingar e o Shakedown 'simbolicamente' pago se tornar (como vai tornar…) regra, os pilotos dos R5 poderão ter de desembolsar, somadas, quantias equivalentes à inscrição numa prova (para os demais concorrentes, o cenário é comparativamente ainda mais agravado). 

Talvez aí, quando se sentarem a uma mesa para fazer contas, percebam a dimensão ‘inovadora’ da ideia e o que no fundo lhe subjaz. 

Poderá invocar-se que muito poucos pilotos ou até mesmo ninguém deixará de integrar o ‘Monday Test’ por lhe ser pedido € 100,00 para o efeito.

Nós próprios esperamos que ninguém fique de fora por tal facto. 

No entanto, emerge aqui também uma questão de princípio. 

É que no dia em que um piloto português, seja ele quem for, venha publicamente dizer que não participa num Shakedown porque o orçamento para fazer Ralis já não estica a esse ponto, será o mesmo dia em que, por fatores meramente financeiros, uma organização, seja ela qual for, promove uma discriminação nas condições de acesso à sua prova em função do dinheiro. 

Será, se isso eventualmente ocorrer, a machadada final na trave-mestra duma modalidade que se pretende afirmar como desporto: garantir que à partida para um Rali todos dispõem, da parte do organizador, das mesmíssimas condições e oportunidades para dar o seu melhor

Note-se que nesta matéria não está em causa o Shakedown em si mesmo, mas sim o facto de passar a ser pago. 

Nem está em causa o Rali Serras de Fafe, disputado dentro de dias em troços sensacionais e perante uma grande moldura humana de adeptos entusiastas, no qual pilotos que são excecionais ao volante exibirão todos os seus dotes e virtuosismo, num parque automóvel, pelo menos em qualidade, como há diversos anos não se vê em Portugal. 

Resta esperar que a entidade organizadora possa aproveitar este encaixe adicional para investir na segurança da prova quanto ao público e aos concorrentes, item que em edições anteriores do evento deixou algo a desejar.

nnnnnnnnnnnnnnnnnnnn

A FOTO PUBLICADA NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.multidesportos.pt/wp-content/uploads/2016/02/RaliSerrasFafe2016-640x715.jpg

2 comentários:

  1. «não deixa de ser particularmente curioso que a esmagadora maioria dos portugueses, sempre tão veementes a pedir a revogação do famigerado Acordo Ortográfico na ‘defesa da língua portuguesa’, nunca esbocem um gesto de protesto ou uma mera palavra de indignação no (cada vez mais) frequente recurso no nosso país a estes anglicismos »

    Mas quem lhe disse isso? Na verdade, o que mais se vê por aí é gente que achou muito bem essa suposta "simplificação" da língua, mas escreva em inglês a torto e a direito, nessa ortografia que não muda há séculos e cheia de consoantes mudas e duplas. Afirmar uma coisa não significa que seja verdade. Lance lama para outro lado.

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