P.E.C. Nº 346: Octogenário

O Rali do México (terceira etapa do WRC/2016) está por dias, e com ele, uma das classificativas mais extensas dos últimos anos no mundial da modalidade. 

Do alto (literalmente, uma vez que se disputa entre 1.800 e 2.500 metros de altitude) dos seus oitenta quilómetros de percurso, Guanajuato introduz um elemento de novidade no mundial de Ralis que nos parece muito positivo. 

Se a memória não nos atraiçoa, desde o traumático Rali da Córsega disputado em 1986 que não se vê no WRC uma especial com percurso tão longo. 

Após o acidente de Joaquim Santos na Lagoa Azul também há trinta anos, dentro das medidas então colocadas em prática com vista a procurar disciplinar o público nas provas mundialistas, sobressaiu a ideia de não permitir classificativas muito acima de trinta quilómetros de extensão. 

Os Ralis começaram a ser padronizados em função dos ditames da FISA/FIA, vários deles perdendo identidade própria. 

Neste percurso de tempo não foram só as classificativas que minguaram

Progressivamente perderam-se na modalidade noções como as assistências móveis, troços noturnos ou etapas em linha

Ganharam espaço conceitos como parque de assistência, zonas-espetáculo, super rally ou power stage

Somos desde sempre defensores que um campeonato de Ralis será tanto melhor quanto mais diversificado for nos desafios que lança aos concorrentes. 

É bom que numa competição haja Ralis com os mais diversos tipos de piso, ou disputados debaixo de condições climatéricas diferenciadas. 

É ótimo que haja troços rápidos e troços lentos. 

É excelente que apareçam mesclas de especiais curtas e longas como a de Guanajuato dentro de alguns dias. 

Se fosse para ser tudo igual e padronizado, chamava-se o arquiteto Tilke para desenhar os eventos do WRC e ficava a questão resolvida. 

Mas a realidade dos Ralis, ao contrário das corridas disputadas em circuito fechado, tem códigos próprios. 

Há neste desporto um apelo ao improviso e à capacidade de reação. 

Deve estar inscrito no manual dos bons Ralis um forte estímulo aos pilotos para encarar e ultrapassar situações novas. 

Do México vem esse repto a pilotos e equipas. 

Uma classificativa de oitenta quilómetros lança nuances no terreno de jogo que os concorrentes desconhecem e vão ter de superar. 

Gestão vai ser uma palavra prioritária na forma como se parte para este troço gigantone

O piloto tem de gerir o esforço físico suplementar relativamente ao que está habituado, não só pelo tempo adicional de condução mas também pelo calor que se estima poder rondar os trinta graus centígrados, mas, talvez mais exigente, coordenar em simultâneo a necessidade de manter elevados índices de concentração durante os 45/50 minutos que a classificativa demorará a cumprir. 

O navegador, por seu turno, está obrigado a utilizar a voz ininterruptamente durante um período de tempo consideravelmente maior do que aquilo que está habituado. 

Num cenário, em altitude, em que se estima os carros perderem cerca de 20% de potência devido à rarefação do ar, quaisquer erros levam a mais dificuldades e tempo para recuperar um bom ritmo, pelo que haverá que evitá-los a todo o custo. 

Os pneus serão peça-chave no puzzle para chegar a um bom crono final em Guanajuato

Como é pouco provável que a durabilidade dos mesmos se mantenha em ótimas condições durante a totalidade da classificativa, terá de ser encontrado um rimo de compromisso que mantenha uniformidade de performance das borrachas durante os oitenta quilómetros. 

Entrar ao ataque vai levar a que não haja pneus no final da classificativa, e começar numa toada demasiado conservadora pode significar perda de tempo para os mais velozes que não será recuperável na parte final do troço. 

Com tantas variáveis em equação, Guanajuato, cujo mapa interativo poderá de seguida consultar, é em definitivo uma especial desenhada à medida de Ogier e Ingrassia, se é que há alguma que não o seja…

 MAPA INTERATIVO 


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