segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

P.E.C. Nº 347: Mindo & Os Samurais


Imaginemos um passeio da fama para Ralis. 

Com muitas estrelas

Umas maiores, outras mais pequenas. 

Se fossemos nós que mandássemos, uma coisa assim tinha de ser erigida em Portugal. 

Ficava extremamente bem no Confurco

Ou nos Penedos Altos

Até mesmo no cruzamento da Pena, claro! 

Reservaríamos um lugar de destaque aos pilotos portugueses, pois então. 

A nossa história nesta modalidade, sempre que nos medimos diretamente com a concorrência internacional, não nos envergonha. 

É um percurso feito, tantas e tantas vezes, de condições desiguais perante os adversários, de dinheiro contado, mas invariavelmente, em simultâneo, de muita dignidade

Nas estrelas maiores colocaríamos os títulos internacionais conquistados por portugueses: Armindo Araújo e Miguel Ramalho, bicampeões do mundo no agrupamento de produção (2009 e 2010), e Rui Madeira, acompanhado do incontornável Nuno Rodrigues da Silva, enquanto vencedores da Taça FIA de Ralis do mesmo agrupamento em 1995 (na prática, questões de valoração e terminologia à parte, o mesmo que um título mundial)

Depois, nas estrelas intermédias, outros resultados de relevo e vitórias em provas dos nossos ases do volante e da oralidade. 

Desde as aventuras de António Borges nos idos de setenta no europeu de Ralis (com resultados muito interessantes), passando pelos triunfos de Bruno Magalhães, acompanhado de Carlos Magalhães, em etapas do extinto Intercontinental Rally Challenge, ou em eventos do europeu da modalidade em conjunto com Paulo Grave e Nuno Rodrigues da Silva, até às vitórias de Bernardo Sousa dentro do S-WRC (navegado por António Costa) e no renascido campeonato da Europa de Ralis (ladeado por Hugo Magalhães), há diversos outros momentos importantes a assinalar neste trajeto dos pilotos portugueses em confronto com a concorrência internacional. 

Em complemento aos exemplos atrás citados, de memória podemos citar o vice-campeonato da Europa para Miguel Campos em 2003 (em parceria com Carlos Magalhães), com triunfos em Ralis tão prestigiados como as Mille Miglia, o Rali das Canárias, o Rali da Polónia, ou o nosso Rali da Madeira

Não devemos esquecer, neste raciocínio, o quase pioneirismo de António Coutinho em 1993 no campeonato do mundo de produção, em que em cinco Ralis disputados logrou averbar quatro pódios à classe (3.º classificado final em Sanremo; 2.º classificado final em Portugal, Argentina e Córsega)

Momentos marcantes são também as vitórias que compatriotas nossos averbaram, dentro das respetivas categorias das suas viaturas, em edições diversas do Rali de Portugal

Poucos esquecerão, nesse âmbito, a extraordinária exibição de José Carlos Macedo e Miguel Borges na edição de 1994, quando, após intensa batalha com carros oficiais, os levaram de vencida conseguindo um excelente sexto lugar na classificação final geral da prova, ou as vitórias sem mácula de Miguel Campos, dentro do contexto dos «grupo N», operadas em 1999 (com Miguel Ramalho) e 2000 (com Carlos Magalhães) no evento luso. 

Ainda que em contextos muito específicos, deve destacar-se, também, os triunfos de Carpinteiro Albino / Silva Pereira (1967), Francisco Romãozinho / João Canas Mandes (1969), Joaquim Moutinho / Edgar Fortes (1986), Rui Madeira / Nuno Rodrigues da Silva (1996), e Armindo Araújo / Miguel Ramalho (2003; 2004; 2006) no Rali de Portugal, bem como diversos pódios finais no evento obtidos por outras duplas de concorrentes nacionais. 

Passamos agora, por fim, às estrelas mais pequenas deste imaginário passeio da fama

Aquelas que não estão diretamente ligadas a triunfos em Ralis, nem a grandes resultados em competições de proa. 

Estas estrelas de menor dimensão abarcam, por exemplo, vitórias em classificativas, pequenos momentos (mas nem assim menos significativos) em que, num dado Rali, compatriotas nossos expressaram momentos de arrebatamento perante os adversários. 

Não são muitas as ocasiões em que pilotos portugueses foram os mais rápidos à geral em troços das provas do WRC

Sem investigação muito aprofundada, Luís Netto (em parceria com Manuel Coentro) em 1973, Joaquim Moutinho (navegado por Edgar Fortes), Carlos Bica (copilotado por Cândido Júnior) e Jorge Ortigão (acompanhado por Pedro Perez) em 1986, e Rui Madeira (ao lado de Nuno Rodrigues da Silva) em 1997, são os nossos homens portadores de tal honraria, tendo como denominador comum o Rali de Portugal

Os mais céticos dirão que tais triunfos em troços se deveram ao conhecimento privilegiado do terreno, ou a circunstâncias muito favoráveis em que a concorrência foi especialmente reduzida. 

Em alguns casos, nomeadamente o de Rui Madeira em 1997, parece-nos que não. 

A exibição do almadense em Fafe naquele ano é dos mais sensacionais capítulos da história do automobilismo nacional, comprovando, se necessário fosse, até onde poderia ter ido a sua carreira se a determinada altura tivesse tido o apoio e as condições para dar o salto para uma equipa oficial (que esteve a um passo de acontecer)

No entanto, uma ocasião houve em que outra dupla portuguesa venceu um troço numa prova do WRC

Na presença de praticamente todos os mais cotados adversários. 

Numa outra prova que não o Rali de Portugal

Lá fora. 

No outro lado do mundo. 

No Japão. 

Em 2007. 

Nas estrelas pequenas inscreva-se lá, então, os nomes de Armindo Araújo e Miguel Ramalho

No final da época anterior, 2006, Araújo nada mais tinha a conquistar nas competições portuguesas. 

Habituara-se, fruto de enorme rapidez e capacidade de adaptação aos mais diferentes carros, a ganhar sempre e a ganhar tudo

Em sete épocas completas conquistou treze títulos dentro de Portugal. 

Furacão Armindo

Aos vinte e nove anos, verificando que para a temporada seguinte do campeonato nacional operariam mudanças importantes com a chegada dos S2000, facto que dificultava dentro de portas a manutenção do estatuto de piloto oficial dentro dum projeto ganhador, a internacionalização da carreira era passo lógico, quase ‘obrigatório’

Os apoios financeiros apareceram e a Mitsubishi Portugal envolveu-se fortemente nesta aventura. 

Foi assim que o miúdo magricela e de sorriso traquina iniciou seis anos de presenças no campeonato do mundo, com momentos altos e outros mais baixos. 

No início de 2007, com destino a qualquer parte do planeta onde estivessem Ralis do mundial, partiu de Rebordões, Santo Tirso, um Lancer com bagageira cheia de sonhos e ambição. 

O caminho das pedras nesta modalidade é por definição difícil de percorrer, mas Araújo e Ramalho foram conseguindo resultados interessantes atendendo à total inexperiência nestas andanças. 

Ganharam o agrupamento de produção no Rali do Ártico, prova preparatória para a estreia na Suécia onde, sobre neve e gelo, apostaram em adquirir traquejo e não cometer excessos concluindo em quarto lugar dentro dos carros de «grupo N»

Em Portugal participaram com um pouco competitivo Lancer WRC, desistindo por despiste. 

Na Acrópole, de regresso ao Lancer de produção desistiriam com problemas de motor no carro nipónico e na Nova Zelândia, no meio de um plantel muito forte de adversários, conseguiriam um sexto lugar final na classe, ainda assim à frente, por exemplo, de nomes como Hanninen, Alister McRae, ou o local (a iniciar-se nestas andanças…) Hayden Paddon

Em finais de outubro desse ano, já a época ia muito adiantada, nova viagem até ao outro lado do mundo, ao Japão, para disputar mais uma prova absolutamente desconhecida para a dupla de pilotos, mas importante por se tratar do país de origem da Mitsubishi

No final do primeiro dia de Rali estava reservada aos pilotos, pelo final da tarde e antes da entrada para o parque fechado, uma dupla passagem pela curta superespecial de Obihiro (1,35 quilómetros de percurso), traçada num pequeno complexo desportivo nas imediações da cidade que emprestou nome à classificativa. 

Não tinha sido uma jornada fácil até à entrada desta nona especial do Rali. 

Logo no quarto troço, um arreliador problema ao nível dos diferenciais fez a dupla lusa perder um minuto para os adversários diretos. 

Debelado o contratempo, havia que não baixar os braços e recuperar o atraso. 

O resto do dia foi correndo dentro da normalidade, e assim se chega ao nono troço da prova, precisamente a primeira passagem pelo pequeno Obihiro

Armindo e Miguel simplesmente venceram a classificativa. 

Com um automóvel de produção, e na frente dos melhores carros e pilotos do mundo (consultar quadro de resultados infra)

Talvez os Hirvonens, Loebs e C.ª Ld.ª não tenham querido arriscar em demasia. 

Talvez a sinuosidade da classificativa os tenha demovido de ousadias que neste género de especiais por vezes deitam tudo a perder. 

Araújo e Ramalho foram eles próprios, empenhados em fazer o melhor possível. 

Foram os mais rápidos numa classificativa que, antes de tudo o mais, pedia muita condução a todos os concorrentes por igual. 

Com tanta sinuosidade, mesmo num cenário mais conservador por parte dos pilotos do WRC só no arranque e à saída das curvas, sobretudo as mais lentas, os Focus, C4 e Imprezas ganhariam metros atrás de metros ao 'delgadito' Mitsubishi

No entanto, ao fim de 1,35 quilómetros, o cronómetro não mentiu: os mais velozes foram mesmo Armindo Araújo e Miguel Ramalho que, desta forma, fizeram história e escreveram, a nosso ver, uma das belas páginas da história deste desporto em Portugal

Curiosamente na segunda passagem por esta mesma superespecial, disputada minutos depois, conseguiriam melhorar o registo anterior, mas perderam um segundo para o mais veloz (Xavi Pons), cedendo apenas, por exemplo, quatro décimos para Sordo e três décimos para Loeb, averbando ainda assim um sensacional quinto melhor tempo absoluto. 

Foi uma coisa assim como se num imaginário combate de boxe o pugilista Bento Algarvio, num dos rounds, se permitisse dar sem troco uns valentes punches ao Klitschko

Os protagonistas de Obihiro teriam depois sortes diferentes nos respetivos percursos desportivos. 

Armindo Araújo, o mais titulado piloto português nos Ralis, está há quatro anos afastado da modalidade, não havendo indicadores que anunciem um regresso que muitos, como nós, aplaudiriam fortemente caso acontecesse. 

Miguel Ramalho anda (muito depressa…) por aí, e parece não conseguir libertar-se dessa estranha dependência de ganhar Ralis e campeonatos. 

Quanto ao Lancer

Bom, o Lancer parece quase o Clooney: teima em não desaparecer de cena, sabe envelhecer, e com o passar dos anos não perde o charme nem o bom aspeto. 

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 'OBIHIRO 1' / Rali do Japão, 2007 
- vinte melhores tempos finais -


Piloto
Navegador
Carro
Tempo realizado
1.º
Armindo Araújo
Miguel Ramalho
Mitsubishi Lancer
Evo IX
1m:18,5segs
2.º
Dani Sordo
Marc Marti
Citroen C4 WRC
1m:18,9segs
3.º
Sébastien Loeb
Daniel Elena
Citroen C4 WRC
1m:19,1segs
4.º
Mikko Hirvonen
Jarmo Lehtinen
Ford Focus RS WRC 07
1m:19,2segs
5.º
Frederico Villagra
José Luis Diaz
Ford Focus RS WRC 06
1m:19,3segs
5.º
Luis Pérez Companc
José Maria Volta
Ford Focus RS WRC 06
1m:19,3segs
7.º
Xavi Pons
Xavier Amigo
Subaru Impreza
WRC 2007
1m:19,8segs
8.º
Masayuki Ishida
Keiji Seita
Mitsubishi Lancer
Evo IX
1m:20,0segs
9.º
Henning Solberg
Cato Menkerud
Ford Focus RS WRC 06
1m:20,5segs
10.º
Manfred Stohl
Ilka Minor
Citroen Xsara WRC
1m:20,6segs
11.º
Emma Gilmour
Glenn Macneall
Subaru Impreza WRX
1m:20,7segs
12.º
Takuma Kamada
Naoki Kase
Subaru Impreza WRX
1m:20,9segs
13.º
Lezsek Kuzaj
Jaroslaw Baran
Subaru Impreza WRX
1m:21,0segs
14.º
Norihiko Katsuta
Minoru Kitada
Subaru Impreza WRX
1m:21,1segs
15.º
Katsuhiko Taguchi
Mark Stacey
Mitsubishi Lancer
Evo IX
1m:21,3segs
16.º
Patrik Flodin
Maria Andersson
Subaru Impreza WRX
1m:21,4segs
17.º
Osamu Fukunaga
Hisatsugu Okumura
Mitsubishi Lancer
Evo IX
1m:21,5segs
18.º
Martin Rauam
Kristo Kraag
Mitsubishi Lancer
Evo IX
1m:21,6segs
19.º
Matthew Wilson
Michael Orr
Ford Focus RS WRC 06
1m:21,8segs
20.º
Gabriel Pozzo
Daniel Stillo
Mitsubishi Lancer Evo IX
1m:22,0segs



A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.motorsport.com/wrc/photo/main-gallery/armindo-araujo-and-miguel-6/

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