P.E.C. Nº 348: A linguagem própria dos Ralis

Os Ralis têm códigos e linguagem própria. 

Situações há que para o leigo são muitas vezes uma evidência ou uma perplexidade, e relativamente às quais o conhecedor da modalidade sabe não serem mais que coisas dos Ralis

Um exemplo quase académico: não é por numa especial disputada em pinhais o(a) navegador(a) alertar «é p**a!; é p**a!», que o piloto vai olhar para o lado na expetativa de na beira do troço estar sentada uma senhora, digamos, como se costuma dizer, de mau porte, não é verdade? 

E não é por naquelas curvas que parecem não acabar o(a) copiloto avisar «insiste; insiste», que o piloto vai parar o carro e desatar de imediato a fazer séries de flexões e abdominais. 

Vem isto a propósito de momentos ou situações que aos nossos olhos parecem algo, mas que os desígnios do concreto se encarregam de demonstrar não ser bem assim. 

Na edição de 2009 do Rali de Portugal, Bernardo Sousa, navegado por Jorge Carvalho, partiu para a prova certamente apostado em dar continuidade ao processo de aprendizagem ao mais alto nível iniciado no ano anterior. 

A arma escolhida para o efeito foi o Fiat Grande Punto Abarth S2000 preparado pelos italianos da Procar, carro que pedia à dupla portuguesa uma maior exigência e apuro na condução e, por conseguinte, um salto qualitativo quando comparado com o Mitsubishi de produção que haviam utilizado no P-WRC em 2008. 

Jogando em casa, os nossos homens queriam certamente mostrar serviço e posicionar-se nos lugares cimeiros da categoria em que estavam inseridos, perante concorrência muito forte e bastante qualificada (ver lista de inscritos)

Tudo terminaria de forma abrupta e da pior maneira. 

Em pleno shakedown, antes do Rali propriamente dito, um aparatoso capotamento (documentado nas imagens infra) ditou, sem remissão, o abandono imediato do evento dada a impossibilidade de reparação da máquina italiana em tempo útil. 

Não nos é importante (até porque as desconhecemos em absoluto) aprofundar as causas deste acidente. 

Foi uma daquelas coisas dos Ralis

Motiva-nos mais ajudar a perceber o comportamento do copiloto na sequência da imobilização do automóvel após a saída de estrada. 

Os que olhos veem é mais ou menos simples: um carro tombado sobre o seu lado esquerdo no meio do troço. 

De seguida, percebe-se que a porta direita, agora virada para os céus, está a ser aberta com alguma dificuldade, e depois, volvidos uns instantes, o navegador 'ejeta-se’ da viatura saltando para o solo. 

A frente do carro fumega. 

E, aparentemente (só mesmo aparentemente…) o pendura dá às de vila-diogo colocando a pele a salvo, votando ao abandono o piloto dentro do veículo acidentando. 

Imagem ilusória. 

Jorge Carvalho é, ao tempo como hoje, um dos mais qualificados copilotos de Ralis em Portugal. 

Tem inscritos a nível nacional e internacional muitos Ralis no seu palmarés. 

Transporta consigo, com inteira justiça, todo um acervo de respeitabilidade no trajeto que vem realizando até hoje na modalidade, e por isso mesmo é invariavelmente requisitado para projetos com ambições de vitória. 

Como referimos vezes sem conta em ocasiões anteriores neste blogue, o aprofundar de assuntos sobre a modalidade tem-nos conduzido a uma admiração incondicional relativamente à missão de quem se senta no lado direito dos bólides. 

É um trabalho geralmente incompreendido e desvalorizado. 

Não será tanto o cantar de notas (já de si tarefa bastante exigente para ser cumprida com eficácia) puro e duro o fundamento maior da nossa atenção. 

Mais, talvez, a forma como o navegador tem de assumir como um perito em relações humanas, e a habilidade como consegue construir determinados contextos dentro do carro a bem da rapidez e competitividade. 

Conduzir em competição automóvel é por definição uma atividade potenciadora de stresse. 

Um estado emocional de vincada tensão expõe o piloto a reações extremas, e nessa medida o navegador tem de se assumir dentro de automóvel como a consciência e o elemento de ponderação. 

Em cada piloto pode-se encontrar uma pessoa com sensibilidade e feitio peculiar. 

Cabe ao navegador de elite descodificar tais traços de personalidade e pautar o seu trabalho em função deles. 

Há pilotos que se sentem confortáveis em ser corrigidos na condução que estão a realizar em troço. 

Outros, pelo contrário, não admitem quaisquer ingerências na sua missão. 

Há casos de pilotos que melhoram o respetivo desempenho quando estimulados com palavras de incentivo dentro do carro. 

Existem, em simultâneo, exemplos de personalidades que coabitam mal e veem diminuída a autoconfiança em momentos onde o respetivo copiloto valora ou desvalora a sua performance ao volante. 

Gerir tantas vicissitudes não é fácil. 

Trabalhá-las potenciando-as com vista a melhorar o rendimento de quem guia, menos ainda. 

O navegador tem de intuitivamente perceber se o piloto está concentrado nas notas ou a conduzir à vista. 

Tem até por vezes, de acordo com algumas histórias interessantíssimas que em privado nos têm confidenciado, de alterar de improviso o guião para que o piloto aborde e desenhe curvas com maior velocidade. 

Os requisitos para se ser um navegador de topo são, portanto, exigentes. 

Em súmula, o pendura tem de ser um pouco de pai, de mãe, de irmão, de psicólogo, de professor, de chefe, de confidente, de, de, de… 

Tem até ‘de’, como no exemplo que Jorge Carvalho nos dá nas imagens publicadas neste trabalho, ter a frieza de raciocínio para após um acidente deveras violento preocupar-se com questões de segurança. 

É de facto a segurança o tema ao qual se reporta o pequeno filme que de seguida publicamos. 

Verificando que o piloto se encontrava bem (não rezam as notícias que Bernardo Sousa tenha sofrido quaisquer mazelas, exceto talvez no plano da desilusão, no rescaldo desta saída de estrada), a preocupação de Carvalho foi claramente recuar algumas dezenas de metros na classificativa para sinalizar aos concorrentes que se seguiam na estrada ao carro n.º 132 encontrar-se o troço parcialmente (se é que não se estava totalmente…) obstruído. 

O embate de um carro a toda a velocidade no Punto S2000 (veja-se a posição em que o bólide italiano se imobilizou) poderia ter um desfecho muito complicado. 

Foi essa, e não outra, a preocupação do copiloto neste episódio, que se felizmente não atingiu proporções mais graves foi justamente pela sua ação preventiva. 

Às vezes, como neste exemplo, os navegadores, entre todas as outras múltiplas funções que têm de assumir, têm também de fazer até ‘de’ polícia-sinaleiro…

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://3.bp.blogspot.com/_Lue28sGAO9Y/SdTzNpomToI/AAAAAAAABYo/FrsDjvrKdoQ/s400/bernardo+sousa-rally-portugal_2009.jpeg

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