P.E.C. Nº 351: A defesa do produto nacional...


Na recente P.E.C. Nº 347 deste blogue, identificámos um momento em concreto em que através do mérito os portugueses podem, no âmbito dos Ralis, afirmar-se e dar nas vistas lá por fora. 

Não gostando de entrar naquele género de exercícios, a roçar o provinciano, em que ‘o que é nacional é necessariamente bom’ (ou, na versão oposta, ‘necessariamente mau’), ou aprofundar minudências em torno de sermos ou não ‘os melhores do mundo’ (deixemos essas coisas para outras áreas...), entendemos, todavia, que os nossos mais talentosos pilotos de Ralis têm qualidade para, em igualdade de condições com os principais adversários, se bater por grandes resultados nas competições internacionais. 

Faltar-lhes-á, apenas, o traquejo e as rotinas de competir num contexto mais exigente e, por maioria de razão, completamente distinto dos Ralis nacionais. 

Falta-lhes seguramente, em muitas situações, orçamento para entrarem em troço sem receios que um eventual acidente mais aparatoso possa comprometer toda uma temporada. 

Mas quanto ao ato de conduzir com eficácia e rapidez, aí não temos dúvidas que os pilotos nossos compatriotas têm no geral uma valia muito grande, e não se ficam atrás dos rivais com quem competem para lá das nossas fronteiras. 

Se em 2007 Armindo Araújo e Miguel Ramalho conseguiram vencer, com inteiro mérito, uma classificativa de um Rali (Japão...) do WRC, três anos depois Bernardo Sousa, acompanhado de Nuno Rodrigues da Silva, quase conseguiu proeza idêntica. 

A temporada de 2010 do campeonato do mundo de Ralis começou na primeira quinzena do mês de fevereiro daquele ano, nas classificativas geladas da Suécia. 

Decisões de natureza política interditaram, entre 2009 e 2011, as estradas de Monte Carlo à tradicional abertura de hostilidades entre os concorrentes do mundial, pelo que seria por paragens nórdicas que a caravana deu, há seis anos, as primeiras aceleradelas a sério da época. 

Vice-campeão do mundo na temporada anterior (2009, quando viu o título escapar por um mero ponto) e embalado pelo importantíssimo triunfo na edição do Rali de Monte Carlo de 2010 (que não contando para o WRC, integrou, então, o calendário do IRC), Mikko Hirvonen não se vez rogado no país vizinho ao seu e averbaria, logo de seguida, novo êxito máximo, aqui na frente de Loeb

Porém, dentro daquilo que para já nos interessa, coloquemos os holofotes no Rali da Suécia disputado em 2010 sim senhor, mas com o foco apontado para Bernardo Sousa e Nuno Rodrigues da Silva

Não se pode dizer que os Ralis nórdicos fossem, naquele ano, completamente desconhecidos do piloto natural da Madeira. 

Afinal, nos dois anos anteriores, havia já participado na etapa sueca do WRC (2008), bem como na prova mais ou menos decalcada a esta que teve lugar em 2009 na Noruega. 

A dupla de pilotos envergando a bandeira das quinas partiu certamente com ambições rumo a Estocolmo, embora ciente das dificuldades que a esperavam dentro do contexto da categoria S-WRC, não só pela especificidade dos troços e pela condução em neve, mas também pela lista de inscritos recheada de nórdicos rápidos, experientes, e profundamente conhecedores do terreno. 

A décima sexta classificativa das vinte e uma que compuseram a prova contemplava a segunda passagem dos concorrentes pela curta e conhecida Superespecial de Hagfors Sprint, antes do merecido descanso no final do terceiro dia do evento. 

Um pequeno troço, com 1,87 quilómetros, especialmente lento (cumprido pelo vencedor a menos de 50 quilómetros/hora de média-horária), a priori terá sido encarado por todos os pilotos que se mantinham em prova com alguma atenção, uma vez que a história da modalidade está repleta de exemplos em como uma desconcentração nestas especiais pensadas para o espetáculo pode deitar tudo a perder. 

Loeb havia ganho, menos de seis horas antes, a primeira passagem por Hagfors Sprint, em pleno calor da luta com Hirvonen pelo primeiro lugar da classificação de pilotos, pelo que não estando o Rali decidido as bolsas de apostas para esta segunda incursão à sinuosa especial recaiam nos grandes animadores do evento até à altura: Mikko e Séb

Rezam as crónicas que a surpresa foi grande após o alinhamento dos tempos finais realizados em Hagfors Sprint 2

Uma insubordinação dos pilotos aos comandos dos S2000 levaria a que Martin Prokop triunfasse na classificativa, seguindo de Bernardo e Nuno, na frente de toda a restante armada WRC, sobretudo dos pilotos com estatuto oficial. 

Uma revolta momentânea dos pequenos, logo numa prova tão específica e exigente. 

Se compararmos um normal Rali do campeonato do mundo a uma partida de snooker, então a prova da Suécia tem tudo para ser algo de muito próximo ao bilhar às três tabelas, dada a técnica que os pilotos mais experientes empregam atirando (na dose certa) os carros contra os bancos de neve para ajudar a perder velocidade sem recurso excessivo aos travões. 

Nessa medida, a prestação do piloto e copiloto portugueses há seis anos nos troços escandinavos foi deveras positiva. 

Dentro da classe conseguiram o sexto posto final (19.º lugar da geral), suplantados apenas por um não nórdico (precisamente Prokop) dentro dos concorrentes que terminaram à sua frente. 

Se Hagfors Sprint 2 não foi uma vitória, o simbolismo do crono realizado equivaleu a tal. 

Seria, talvez, o mote para o título de campeões nacionais absolutos que averbariam nesse mesmo ano, e um tónico galvanizador para o crescendo de bons resultados internacionais que Bernardo Sousa conseguiria a partir daí, com vitórias em provas no S-WRC e ERC, e um andamento muito forte aliado a um conjunto de exibições particularmente interessantes alcançadas no WRC2, que, claro, se espera possam ter continuidade no decurso da presente e vindouras épocas das competições nacionais e internacionais. 

Qualidade há. 

Rapidez para dar e vender, também. 

Resta aparecerem as condições, materializadas num projeto credível e ganhador para o efeito.

















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