P.E.C. Nº 352: Os «freios e contrapesos» dos Ralis portugueses...


Os analistas políticos apelidam com frequência o ordenamento jurídico-constitucional português como um ‘sistema de freios e contrapesos’

O princípio geral, inspirado nas ideias de Montesquieu, parte do princípio que entre os poderes executivo, legislativo e judicial, independentes na sua função, não devem desenvolver-se relações nem de subordinação, nem de supremacia entre si. 

Cada um de tais poderes é, em suma, autónomo, mas em certo sentido fiscalizado pelos demais, no intuito de se estabelecerem limites de ação e evitar-se absolutismos (ou a tentação deles) indesejáveis. 

Não cuida este blogue de aprofundar temáticas da área da ciência política, mas ainda assim, se estabelecermos um paralelismo com a forma como estão organizados os poderes que norteiam os Ralis em Portugal, verifica-se que institucionalmente os ‘freios e contrapesos’ não funcionam como seria desejável, e que essa disfunção entorpece em parte a forma como a modalidade está organizada. 

Se no passado recente do campeonato nacional de Ralis identificámos a temporada de 2006 como a que marcou uma quebra a vários níveis (no número de inscritos, no desinvestimento das marcas a título oficial, numa certa falta de emoção na disputa pelos diversos títulos, etc…) neste desporto em Portugal, parece-nos que 2013 iniciou a retoma que paulatinamente nos conduziu hoje, volvidos três anos, a um CNR ainda longe do número de concorrentes que seria desejável, mas com um plantel recheado de belíssimas máquinas e pilotos de qualidade superior. 

Dentro das ironias em que este desporto é fértil, curiosamente 2013 é também o ano em que os pilotos, considerados como um todo enquanto o fim último da instituição que os representa, a APPA, pareceram ter desistido (em definitivo?) de se assumir como interlocutores privilegiados nas decisões sobre as grandes linhas orientadoras da modalidade. 

Nos últimos três anos não têm havido quaisquer notícias sobre o trabalho desenvolvido pela Associação Portuguesa dos Pilotos Automóvel

Data de 29 de julho de 2013 um longo comunicado publicado no Facebook pelo anterior (atual?) Presidente da sobredita Associação, o navegador Luís Ramalho, em que são prestados alguns esclarecimentos sobre a relação, visivelmente tensa, que em representação dos pilotos foi mantendo com a FPAK (sobretudo com ela) no período dos consulados de Luiz Pinto de Freitas

Daí para cá, não se conhece qualquer atividade à APPA

As ilações que necessariamente há, portanto, a extrair desta inação da estrutura representativa de quem compete nos Ralis portugueses, passam por concluir que os pilotos no geral estão muito preocupados com os seus projetos desportivos pessoais, mas completamente alheados de pensar este desporto de forma abrangente e nas suas mais diversas vertentes

, naturalmente, exceções. 

quem critique por criticar sem grande consistência argumentativa, mas, em simultâneo, constatamos com agrado haver quem, dentro do leque dos mais importantes nomes das provas de estrada no nosso país, não abdique de um juízo crítico em torno dos problemas e desafios que se colocam aos Ralis nacionais, nem se acanhe em apontar caminhos para construir uma modalidade mais sólida e com maior visibilidade mediática em Portugal. 

São, porém, vozes individuais e ‘isoladas’

Não é a expressão nem o poder de uma voz institucional

Temos sublinhado com alguma frequência que à margem das performances dos R5 e dos Ralis disputados ao segundo até final, há problemas de fundo na modalidade que devem ser debatidos

Os calendários desportivos, os reconhecimentos ilegais, a promoção, o modelo de provas, a estabilidade regulamentar, os custos de competição, a criação de condições para potenciar o aparecimento de novos valores, ou a forma como seduzir marcas para se envolverem mais diretamente na modalidade, são, entre outros, temas que repetidamente se encontram na ordem do dia. 

Quando se pretende vender o CNR como um produto credível e apelativo, a definição atempada das linhas estruturais da modalidade assume importância decisiva. 

Os pilotos em geral parecem (preferem?) não pensar assim. 

É estranho que quem paga não queira ter uma palavra a dizer sobre o produto final que lhe está a ser vendido. 

É, se calhar, a decorrência de uma certa mentalidade que ainda vai fazendo curso em larga escala e custa a desenraizar no automobilismo português: havendo dinheiro para carros tendencialmente vencedores, é melhor ganhar solitariamente com poucos ou nenhuns adversários por perto, que arriscar ser segundo dentro de um plantel de grandes valores à volta

Note-se que temos feito neste espaço muitas vezes a defesa dos pilotos. 

São em diversas ocasiões o elo mais fraco dentro desta intrincada corrente que dá corpo aos Ralis portugueses. 

Por falta de consciência de classe ou por pouca predisposição para refletir conjuntamente sobre os desafios deste desporto, os pilotos estão manietados (porque a APPA está inoperante) na tomada de decisões de fundo sobre assuntos que, afinal, lhes dizem também diretamente respeito

uma clara disfunção quanto à correlação de forças dentro dos Ralis portugueses. 

Num enquadramento em que ainda não se percebeu com nitidez qual o posicionamento da ACOR no xadrez da modalidade, e na qual a APPA se encontra há três anos ausente em paradeiro desconhecido, o plano inclinado do exercício de poder está todo direcionado no sentido da FPAK

Dentro do leque dos aspetos positivos que a atual direção da entidade federativa tem vindo a colocar em prática, salientamos a intenção, que nos parece genuína, em estabelecer processos de diálogo com os diversos agentes ligados ao automobilismo, num virar de página relativamente às más práticas que nesta matéria vigoraram anteriormente. 

No entanto, por muito perfil conciliatório que Manuel de Mello Breyner possa ter (e acreditamos que tem), caso visite um parque de assistência dos Ralis portugueses poderá até colher avulsamente dezenas de opiniões sobre os problemas da modalidade, se calhar para todos os gostos e feitios. 

Não encontra é, quanto aos pilotos, institucionalmente um interlocutor com quem possa estabelecer pontes de concórdia e negociar as traves-mestras deste desporto a curto e médio-prazo. 

A lógica do princípio da separação de poderes e do sobredito ‘sistema de freios e contrapesos’ reside mesmo aí, na tentativa de que a uma mesa de negociações se possam harmonizar e fazer emergir vontades positivas, ainda que antagónicas entre si. 

Esse novo paradigma é não só possível (há agora um clima bem mais distendido que há três ou quatro anos) como acima de tudo desejável, ainda que tenhamos algumas reservas sobre se a modalidade no nosso país estará preparada no seu todo para esse salto

Da parte dos pilotos, e tendo em atenção o total respeito que nos merece o trabalho de quem até 2013 esteve na direção da APPA e procurou, mal ou bem, defender os interesses de quem compete, o desafio que a nosso ver se lhes depara é perceberem, o mais rapidamente possível, que há um tempo novo, e que a lógica de resistência pura e dura às imposições da FPAK em anos anteriores deve dar lugar a um clima construtivo, em que da discussão de ideias e propostas concretas possam sair campeonatos de Ralis ainda mais competitivos e participados

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