P.E.C. Nº 354: Os Ralis em Portugal não são caros!

Queixas e lamentações à volta do valor das inscrições nos Ralis em Portugal são tão antigas… quanto os Ralis em Portugal. 

A argumentação, invariavelmente redundante, toca sempre na alegada exorbitância que os concorrentes têm de pagar para disputar provas da modalidade nas nossas competições internas. 

Tudo entronca, sempre o defendemos, numa questão de perspetiva. 

Os Ralis são por definição caros para quem ‘compra’ (pilotos e equipas) e baratos para quem ‘vende’ (os clubes organizadores)

No ponto de interseção entre aquilo que os concorrentes estão dispostos a pagar e o que os organizadores têm como valor mínimo para poderem garantir equilíbrio financeiro às suas provas, está, em tese, o preço justo para se participar na modalidade no nosso país, e se outro critério não houver existe sempre a possibilidade de recurso à ciência exata da conhecida teoria do ‘copo meio-cheio ou meio-vazio’

Sobre esta problemática, a dos valores de inscrição nas provas cá do burgo, demos connosco a recordar algo que se passou no ano passado, por alturas do Rali de Mortágua

Acompanhados de familiar próximo que também tem inculcado este gosto pelo automobilismo, selecionámos como alvo preferencial, para acompanhar parte da prova, o esplendido troço da Aguieira, de retorno à alta-roda dos Ralis após muitos anos de interregno. 

De entre as várias hipóteses para ver os carros na classificativa, uma das opções recaiu num segmento junto às águas do Criz, e de acordo com o plano pré-estabelecido ali chegamos de manhã bem cedo, após longa aventura por caminhos em terra pouco recomendáveis para automóveis do quotidiano. 

Chegados ao pé da classificativa, ali como que a servir de alpendre sobre as águas negras de um dos muitos braços da barragem, um único automóvel estacionado naquele fim-de-mundo. 

Saímos da nossa viatura, do interior do outro automóvel sai também um homem, e de imediato os recíprocos cumprimentos de bons-dias foram o mote para alguns minutos de conversa. 

Tratava-se, afinal, do comissário escalado pela organização da prova para assegurar as comunicações junto ao posto de controlo n.º 1 da especial (situado, talvez, ali pelo quilómetro cinco do percurso)

A cara dele não nos é estranha, pensámos então para connosco, mas em definitivo a nossa memória visual para decorar rostos é pouco menos que paupérrima. 

Informou-nos que vinha de Tábua e que conjuntamente com a sua companheira (conveniente ‘resguardada’ do frio no interior da viatura) tinha ali chegado, aquele ermo, ainda o amanhecer estava muito ténue. 

Iria ficar ali, claro está, ainda um número considerável de horas, uma vez que não haviam arrancado sequer os concorrentes para a primeira passagem e tinha de assegurar as comunicações com a direção de prova até que chegasse o carro-vassoura no final da segunda ronda pela Aguieira

Sintetizou-nos que havia feito o trajeto a partir de casa a expensas próprias (relativamente a despesas de combustível), umas sandes e uns sumos que ornamentavam a mochila tinham, claro está, sido por si pagos, e que a viagem de regresso também seria naturalmente por sua conta. 

A compensação pela meia-dúzia (nivelando por baixo…) de horas ali investidas? 

A resposta foi perentória e mais ou menos óbvia: apenas o enorme gosto pelos Ralis e a vontade de colaborar com quem os coloca na estrada

Naquela manhã, em setembro passado, durante a aprazível conversa os nossos pensamentos recuaram a dado instante alguns anos antes, quando em determinado contexto trocámos pessoalmente alguns pontos de vista com um antigo campeão nacional da modalidade, e ele nos afirmava, com razão, que se todas estas pessoas que colaboram à borla com os organizadores pedissem um valor, ainda que simbólico, a título de compensação para os gastos e tempo perdido, com elevada dose de probabilidade a maioria dos Ralis em Portugal não teria condições para subsistir

Ao adepto comum pode escapar a complexidade de matérias que integram o caderno de encargos para se organizar um Rali, e o número de pessoas necessárias para o colocar na estrada. 

O concorrente tem a obrigação de conhecer todos esses requisitos, mas por vezes prefere dar a entender que não os conhece. 

Afastando desta análise todos os encargos, elevados, que uma organização de um qualquer Rali tem pela frente para o fazer chegar a bom porto, há, de forma quase ‘escondida’, muito trabalho que não é registado no balanço final contabilístico de cada prova

Se o fosse, provavelmente os valores de inscrição tinham de refletir essas despesas e ser revistos em alta relativamente à bitola que hoje se vai praticando em Portugal. 

Sabendo-se que um Rali digno desse nome demora muitos meses de trabalho intenso a estruturar e envolve direta ou indiretamente dezenas de pessoas, é extremamente difícil mensurar a quantidade e quanto vale o trabalho ‘pro bono’ que lhe está subjacente. 

Quanto custaria, se fosse pago, o tempo despendido em dezenas de horas de reuniões e em contactos com diversas entidades pelo staff principal da prova? 

Quanto valerão os (muitos) litros de combustível que se consomem em carro próprio pelos elementos responsáveis por um Rali (sem esquecer o desgaste que tais automóveis adicionalmente têm) para tratar dos diversos assuntos ligados à prova, as resmas de papel lá de casa que utilizam em prol da organização do evento, o voluntariado em forma de comissariado desportivo género ‘posto de controlo n.º 1 da classificativa de Agueira’, ou as horas empregues no telemóvel privado dias e noites a fio para que tudo corra na perfeição quando os carros começarem a competir? 

De quanto trabalho gratuito e bens consumíveis não pagos dependem, em suma, os Ralis em geral, e em que medida dessa forma sai favorecido o valor das respetivas inscrições em particular? 

Defendemos, quase em desuso, que toda e qualquer atividade, física ou intelectual, que traga valor acrescentado ao contexto em que é produzida, merece e deve ser paga

É possível que muito do trabalho gracioso que sustenta em parte as nossas provas, se alimente do fervor que a modalidade consegue despertar em Portugal. 

Esta é, felizmente, uma modalidade movida mais por interessados que por interesseiros

Convirá, talvez, recordar é que quando se criticam os valores supostamente elevados para inscrição nos Ralis portugueses, há uma miríade de gastos realizados antes do produto final ser comercializado que o concorrente não está a pagar. 

Isso leva-nos a afirmar perentoriamente algo muito claro: os Ralis portugueses, atendendo a tudo aquilo que foi sendo desenvolvido ao longo do presente texto, tendo bem presente em cima da mesa os encargos, consideráveis, que as entidades organizadoras em regra não têm porque uma série de pessoas a título individual os assumem, saem a preço de amigo aos respetivos participantes. 

Acaba por ser um pouco como o preço final daquelas berlinas topo de gama das marcas premium

O que é pedido pela respetiva venda não é caro (atento o produto proposto e o seu valor intrínseco): o que sucede é que a bolsa da esmagadora maioria dos portugueses é curta para esse padrão de gastos. 

Percebendo-se que as entidades organizadoras de Ralis não têm qualquer margem para baixar valores de inscrição nas suas provas, parece-nos que seria desejável abrirem-se fóruns alargados de debate na procura de soluções para diminuir os custos noutros itens de participação na modalidade

Porém, nesse cenário e caso por absurdo o mesmo se confirmasse, estar-se-ia a tocar em áreas algo cinzentas deste desporto no nosso país, aquelas que se prendem com interesses e bons negócios em torno do automobilismo, ou seja, em suma, entrava-se nas questões onde se pode (e deve…) cortar, mas nas quais ninguém quer verdadeiramente cortar.

<><><><><>  <><><><><>  <><><><><>  <><><><><>  <><><><><>

A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://image.slidesharecdn.com/campeonatoopenderalis-130516093939-phpapp02/95/campeonato-open-de-ralis-21-638.jpg?cb=1368697293

Comentários