P.E.C. Nº 362: As ironias de que o WRC/2016 é feito...


I) Sopram ventos de mudança no WRC. Ou serão só ligeiras brisas?...

Há mudanças no mundial de Ralis do presente ano, quando comparado com a época anterior.

O novo modelo da Hyundai é um passo em frente em matéria de performance, começa a demonstrar a fiabilidade necessária para concluir Ralis, e encurtou bastante, se é que não diminuiu por completo, a diferença que separava a marca coreana da todo-poderosa Volkswagen na hierarquia do WRC.

A Citroen, após um período de alguma orfandade desde que Loeb e Ogier saíram da estrutura sedeada em Versailles, encontrou finalmente, após várias experiências falhadas (Hirvonen, Ostberg, Sordo) um piloto-âncora com perfil para liderar o projeto conduzindo-o (literalmente) a bom porto: Kris Meeke, claro está.

E o obituário da Ford/M-Sport, como o recente Rali da Sardenha demonstrou, talvez seja conveniente adiar-se algum tempo para ser redigido.

Pode-se dizer que temos mundial em 2016.

Está a ser uma temporada em que nas seis provas disputadas até ao momento cinco pilotos (Ogier - o único repetente -, Latvala, Paddon, Meeke e Neuville) ao serviço de três marcas diferentes (Vw, Hyundai e Citroen) lograram chegar ao lugar mais alto do pódio.

"No atual paradigma regulamentar, a ideia latente é simples: os pilotos são todos iguais, mas há um menos igual que os outros."

Essa incerteza quanto ao que pode ser o desfecho final de um Rali do WRC, pelo menos (e para já) em gravilha, é positiva.

Aliás, a ironia reside precisamente aí: nos Ralis em terra das últimas três temporadas (praticamente) só um podia ou conseguia ganhar, ao passo que na época agora em curso (quase) todos podem ganhar exceto um (justamente o ‘um’ que ganhava nos anos anteriores).

No atual paradigma regulamentar, a ideia latente é simples: os pilotos são todos iguais, mas há um menos igual que os outros.

Não nos repugna, pelo contrário, que possam existir mecanismos regulamentares para equilibrar performances e resultados no WRC.

É, aliás, prática comum dentro das corridas de velocidade.

A questão central que deve ser discutida nesta matéria é a razoabilidade em penalizar o líder do mundial (e só ele) em todos os Ralis disputados em terra, obrigando-o a abrir a estrada à exceção do último dia de prova (por norma o que até tem menos extensão quilometrada e em algumas ocasiões quase apenas serve para cumprir calendário), ou se deveria ser encontrado um sistema, por exemplo através de lastragens, que penalizasse os melhores classificados no Rali imediatamente anterior, ficando a escolha da ordem de partida em cada prova a cargo dos pilotos em função dos tempos realizados no Shakedown (chame-se-lhe, caso se prefira, Qualifying Stage), ou então em alternativa, como há vozes a defendê-lo, através de sorteio puro e duro. 

II) Nem tudo o que parece é... 

À margem da discussão sobre estas questões, o campeão do mundo de Ralis parece estar a ter vida mais difícil na temporada ainda em curso quando comparada com anos anteriores, dada a intromissão de uma série de adversários na discussão pelas vitórias em cada prova.

Será mesmo assim?

Não.

Não é.

Numa análise estatística relativamente ao que tem vindo a ser a prestação de Ogier e Ingrassia na temporada de 2016, após o segundo Rali do ano (Suécia) constata-se que a dupla francesa conseguiu a pontuação máxima possível no seu bornal (56 pontos), garantindo aí 23 pontos de vantagem sobre os segundos classificados na tabela de pontos, Mikkelsen e o respetivo navegador, Anders Jaeger.

No final da terceira prova (México), os campeões do mundo somavam 77 pontos, detendo uma supremacia de 35 pontos à melhor sobre Ostberg e o respetivo pendura, Ola Floene.

Após a conclusão da quarta etapa do campeonato (Argentina), averbaram 96 pontos, correspondente a um avanço de 39 pontos sobre Paddon e o seu copiloto, John Kennard.

No final da quinta prova (Portugal), tinham somado 114 pontos, equivalentes a uma supremacia de 47 pontos sobre o binómio Mikkelsen/Jaeger.

No momento em que redigimos estas linhas, e após a conclusão do sexto evento do WRC/2016 (Itália), somam 132 pontos, o que se traduz num ganho de 64 pontos sobre Sordo e Marti.

Tudo isto obedece a uma leitura que para nós é clara: não obstante a limitação de abrir a estrada nas provas cujo piso é em gravilha (cinco das seis provas disputadas até ao momento foram-no nesse contexto), Ogier tem conseguido a proeza notável de ainda assim, a cada prova, aumentar a distância pontual para o prosseguidor pontual mais direto (que vão alternando à cadência de um por Rali), à medida que diminuem os eventos (logo, as chances dos adversários recuperarem o atraso para o líder do mundial) até final da época.

Mas há mais dados que não deixam de ser irónicos.

A tentativa de travar a supremacia do francês por via regulamentar em 2015 e 2016, redundou no seguinte: de entre todos os anos (2013; 2014; 2015 e 2016) em que esteve/está ao serviço da Volkswagen, após as seis primeiras provas da temporada é precisamente nas temporadas atual e anterior que o recruta da equipa alemã logrou conseguir mais pontos de avanço sobre os respetivos segundos classificados na tabela do mundial de pilotos.

Em 2015, após os seis primeiros Ralis, tinha 133 pontos (mais um que em 2016) e Ostberg encontrava-se em segundo lugar com 67 pontos (menos um que Sordo em 2016).

Em 2014, cumpridas a mesma meia-dúzia de provas, averbava 138 pontos, mas a diferença para o segundo classificado (Latvala) era ‘apenas’ de 33 pontos.

"Ogier no presente ano (e não obstante as tentativas de lhe travar o passo) está perfeitamente alinhado com o domínio que vem patenteado no WRC nos últimos quatro anos."

Em 2013 reunia no mesmo período 126 pontos, sendo então a diferença para o seu sucessor na classificação (Latvala) de 52 pontos.

A ilação a extrair é simples: Ogier no presente ano (e não obstante as tentativas para lhe travar o passo) está perfeitamente alinhado com o domínio que vem patenteando no WRC nos últimos quatro anos.

Continua perfeitamente no radar do título que, a confirmar-se, será o seu quarto consecutivo.

Se não estamos perante um 'Séb' tão esmagador na sua supremacia, isso dever-se-á com grande dose de probabilidade ao facto do francês, dentro do elevado sentido estratégico que lhe é caraterístico, ter percebido que num cenário de haver muita gente a poder ganhar a regularidade assume contornos de redobrada importância.

Se o campeão do mundo assim efetivamente o pensa, melhor o tem feito.

Nos seis Ralis cumpridos em 2016 tem sido um pêndulo em matéria de resultados, terminando sempre, e sempre, dentro dos lugares do pódio (duas vitórias; dois segundos lugares e dois terceiros lugares), não deixando de aproveitar toda e qualquer migalha pontual que as Power Stage lhe possam ofertar.

Abrindo espaço à gestão de resultados como forma de atacar o título, na presente temporada Ogier tem, como vimos, ampliado em matéria pontual a cada prova o avanço para os rivais mais diretos.

Onde praticamente todos vão, aqui e ali, soçobrando com pequenos toques e/ou grandes acidentes perdendo necessariamente pontos (que num campeonato em que todos os resultados contam, se tornam à posteriori muito difíceis de recuperar), a chave do título está hoje, mais que em anos recentes, em concluir todas as provas.

Não significa isto que Ogier esteja a andar mais devagar.

Aliás, da impressão que vamos firmando em função daquilo que temos visto do gaulês em 2016, parece-nos que está a conduzir melhor e mais rápido que nunca (o próprio tem publicamente expressado, sobretudo nas entrevistas após a conclusão das classificativas, satisfação com as suas prestações ao volante), havendo tão ou mais mérito nalguns pódios conquistados este ano que em vitórias materializadas em épocas anteriores.

O aumento de dificuldades provavelmente dá-lhe um suplemento de motivação, na tentativa de provar que pode ganhar contra tudo e contra todos… os regulamentos.

E, nova ironia, é precisamente o facto de haver diversos pilotos a poder (e efetivamente a) ganhar por via da nomenclatura regulamentar para as provas disputadas em terra, canibalizando a conquista de pontos entre si (diferente seria se, não triunfando Ogier, fosse sempre apenas um outro a consegui-lo) o maior seguro de vida do atual líder do mundial rumo a conquista do anunciado tetra-campeonato individual de pilotos.


Longe vão os tempos em que a Hyundai percorria o caminho das pedras à procura da glória no campeonato do mundo de Ralis.

Hoje, a marca coreana assume às abertas a cartada forte que vai jogando na modalidade, não só através da sua equipa oficial no WRC, mas também com a intensificação dos testes ao modelo R5 com que conta fazer-se representar nos múltiplos campeonatos de Ralis disputados por esse mundo fora.

Os contrastes ou, se quisermos, as ironias na equipa comandada por Michel Nandan são interessantes de analisar.

Neuville, vice-campeão do mundo em 2013 ao serviço da Ford e, ao tempo, tido como o único piloto capaz de importunar Ogier no passeio que se já se adivinhava do francês rumo à hegemonia no WRC, foi contratado no início de 2014 para liderar o processo de evolução dos carros asiáticos no competitivo mundo dos Ralis na sua expressão máxima.

Não obstante a vitória do belga no Rali da Alemanha em 2014, além dos pódios obtidos na Polónia e no México, exigiu-se-lhe uma bitola de resultados que a inexperiência da equipa e os erros conceptuais da primeira versão do i20 não lhe podiam proporcionar.

Progressivamente foi sendo reduzido à condição de ‘proscrito’ no interior da Hyundai, sendo diversas as vezes na parte final de 2015 e já em 2016 (há duas provas atrás, em Portugal, por exemplo…) em que nem sequer foi nomeado para pontuar pela equipa, vendo-se relegado para uma espécie de terceiro piloto dentro da sua própria casa.

A agravar a sua posição, a ascensão fulgurante de Hayden Paddon, alicerçada em diversos Ralis muito conseguidos a partir da segunda metade de 2015 e no primeiro terço da temporada de 2016, coroada com a vitória cheia de autoridade na Argentina há três Ralis atrás.

Muitas vozes defenderam no rescaldo da etapa sul-americana do mundial de Ralis ser agora o neozelandês o novo e principal porta-estandarte dos pilotos na luta contra Ogier, reduzindo Neuville à condição de quase dispensável dentro da Hyundai, estigmatizado pela imagem de piloto pouco regular e muito atreito a acidentes.

De lá para cá, a ironia.

"Há portanto, ainda que de forma latente e com alguma ‘alternância no marcador’, um duelo Bélgica vs Nova Zelândia para ver quem se afirma dentro da Hyundai para liderar a equipa no cada vez mais apetecível campeonato do mundo de 2017. A ironia é que, pela calada, a Espanha também integra o grupo de 'candidatos'."

Em duas provas, outras tantas desistências do ‘Kiwi’ por acidente na decorrência de erros de condução (somou nestas duas provas mais abandonos que nos vinte e dois Ralis anteriores em que alinhou ao serviço da Hyundai), enquanto Thierry aguentou com notável estoicismo a fortíssima pressão de Latvala na Sardenha para vencer com classe a pretérita prova do WRC, reabilitando-se aos olhos de muitos observadores como piloto de topo no âmbito do mundial de Ralis.

portanto, ainda que de forma latente e com alguma ‘alternância no marcador’, um duelo Bélgica vs Nova Zelândia para ver quem se afirma dentro da marca coreana e a liderará no cada vez mais apetecível campeonato do mundo de 2017.

A ironia é que, pela calada, a Espanha também integra o grupo de 'candidatos'.

Dani Sordo, com pezinhos de lã, é o atual segundo classificado no mundial de pilotos, e o único, a par de Ogier, que concluiu os seis Ralis já disputados em 2016 dentro dos pontos, não sendo dissociável, sequer, a sua vasta experiência na modalidade da trajetória evolutiva de que a nova geração do i20 vai dando mostras.

Também o espanhol, dentro da atual estrutura regulamentar, compreendeu a importância da regularidade para alcançar uma boa classificação na tabela reservada ao campeonato de pilotos, facto que está, para já, a render-lhe dividendos comparativamente com os seus colegas de equipa.

Sabendo-se que três das oito provas para cumprir até final da presente temporada são em asfalto (China, Córsega e Alemanha), reconhecidamente o terreno de eleição para Sordo, e outra, alternando pisos de asfalto e terra, é precisamente o Rali disputado no seu país natal, onde, presume-se, os seus níveis de motivação estão em alta, caso mantenha o registo regular que vem demonstrando não será excessivo pensar-se que o espanhol pode, para surpresa geral, perfilar-se como um dos mais sólidos rivais para Ogier na luta pelo título, ou pelo menos um dos grandes candidatos ao vice-campeonato no final do ano.

Pela consistência de resultados e pela bateria de testes que vão intensificar-se nos próximos vezes visando aprumar os novos carros para o campeonato do próximo ano, missão que entre outros requisitos reivindica experiência ao nível do WRC, não será de estranhar que, com ironia, dentro de meses Dani Sordo possa não dar grande margem à Hyundai para prescindir dos seus serviços para 2017 (o seu contrato expira no final do corrente ano), mesmo quando é olhado em muitos quadrantes como um piloto já incapaz de um arrebatamento genial, ainda que momentâneo, que surpreenda pela positiva.

Logo ele que, acrescente-se, no contexto mediático e na preferência dos adeptos (nos resultados finais dos Ralis pelos vistos nem por isso…) está manifestamente em perda quando comparado com Neuville e Paddon.

No WRC a antiguidade ainda é um posto?                               

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