P.E.C. Nº 363: Crónica de um Rali anunciado...


No passado dia 15 de junho a FPAK publicou no seu site, com posterior difusão na imprensa e nas redes sociais, o comunicado que se seguida passamos a reproduzir: 

"Qua, 15 de Junho de 2016
No início do ano a FPAK publicou o regulamento do Campeonato Nacional de Ralis 2016 com o calendário das provas que o integravam.
Este mencionava que quatro seriam disputadas em piso de asfalto e outras quatro em pisos de terra.
Durante alguns meses tanto a FPAK como os clubes organizadores de provas do CNR  tudo tentaram para que este equilíbrio se mantivesse, conforme desejo de todos.
Infelizmente, apesar dos enormes esforços desenvolvidos, tal não foi possível e assim perante um caso de força maior, entre “amputar” o campeonato de uma prova ou aceitá-la em asfalto, mesmo que esta pudesse desequilibrar o mesmo, decidiu esta Direcção inclui-la.
Assim o Rallye Casino Espinho, organizado pelo Targa Clube, a 14 e 15 de Outubro, será disputado em pisos de asfalto.
A FPAK é a primeira a lamentar esta situação e qualquer desagrado ou transtorno que possamos ter causado aos participantes, não podemos deixar de apresentar as nossas desculpas, mas também estamos cientes de que o desportivismo, profissionalismo e empenho dos pilotos participantes em nada afectará a enorme qualidade desta competição."

Da análise ao comunicado em apreço, redigido num tom condoído e pesaroso (talvez para ‘amaciar’ a gravidade da situação que lhe subjaz), algumas notas que nos parecem ser importantes salientar. 

Ponto prévio: nada nos move contra o Targa Clube

Pelo contrário: reconhecemos e respeitamos por completo todo o seu historial, já muito longo, de organização de Ralis em Portugal. 

Afirmamos mais: o clube nortenho tem um acervo de competências no plano organizativo de provas da modalidade dentro do nosso país, como poucos outros seus congéneres se podem orgulhar. 

Por isso, parece-nos haver considerável razoabilidade quando ao Targa Clube se tem vindo a renovar sucessivamente, ano após ano, a confiança para colocar na estrada um evento pontuável para o campeonato nacional de Ralis. 

Desde 2013 que a organização liderada por Fernando Batista tinha edificado uma parceria com a edilidade de Guimarães para nas imediações da cidade-berço por em marcha uma prova, em piso de asfalto, a contar para o CNR.

Durante três anos (2013 > 2015), o Rali Cidade de Guimarães foi alvo, aliás, de bastantes elogios provindos de quase todos os quadrantes. 

Parecia, portanto, um Rali que tinha todas as condições para se cristalizar no calendário da mais importante competição de Ralis no nosso país. 

Em novembro do ano passado, de forma algo abrupta e com explicações que então, como hoje, nos parecem demasiado lacónicas e por isso não totalmente convincentes, a Câmara Municipal de Guimarães decidiu suspendera aposta no ‘seu’ Rali

Como estávamos então já numa altura de planificação da época de 2016, e como todos os aspetos organizativos de uma prova com expressão nacional (e até internacional) como o caso do Rali Cidade de Guimarães requerem meses de trabalho e preparação prévia, pareceu-nos natural que já no início de 2016 e aquando da divulgação dos calendários desportivos para a temporada agora a decorrer, a FPAK tenha concedido uma espécie de moratória ao Targa para poder reorganizar-se e encontrar soluções alternativas para por de pé a sua prova. 

Entretanto, em janeiro de 2016, foi anunciado nos meios de comunicação social e depois plasmado em forma regulamentar que o Rali Casinos Algarve, após um curto ano (2015) disputado em terra, voltaria aos troços de asfalto que o têm caraterizado de há vinte anos a esta parte. 

No próprio dia 15 de junho de 2016, aquando da publicação do comunicado que acima transcrevemos, era a própria Federação que no Regulamento do Campeonato Nacional de Ralis de 2016, publicado em janeiro e alterado em 20 de junho, previa expressamente que a temporada teria oito provas, quatro delas em asfalto (Castelo Branco, Madeira, Vidreiro e Algarve) e outras tantas em gravilha (Fafe, Açores, Mortágua e a prova que faltava definir sob a égide, pressupunha-se, do Targa Clube)

Esta é, em linhas gerais, a cronologia dos factos que nos conduz, então, até ao Rali Casino Espinho, a disputar no próximo mês de outubro, em piso de asfalto, colocado na estrada pelo Targa

Resultam deste intrincado folhetim uma série de situações que a nosso ver são especialmente graves. 

A forma como, aliás, todo este dossiê foi gerido pela entidade federativa, designadamente pelos seus mais altos dignatários com responsabilidades na área dos Ralis (a saber, para que não sobrevenham dúvidas: Manuel de Mello Breyner e Joaquim Capelo) é desastrosa. 

Pior: ao invés da aposta em clarificar por completo as questões que estão por esclarecer (o comunicado em análise não só não é informativo como inclusivamente adensa dúvidas, algumas delas mais abaixo elencadas), o Presidente da Federação e o Diretor da FPAK com a pasta da modalidade remeteram-se ao mais absoluto e inaceitável silêncio nesta matéria, à espera que o coro de críticas amaine com o passar do tempo. 

A mensagem e os sinais que a FPAK passou com este enredo são, portanto, a todos os títulos preocupantes. 

Dão conta de uma evidente degradação institucional na relação entre a entidade máxima do desporto automóvel português e os seus principais agentes (pilotos e clubes organizadores), que não pode augurar futuramente nada de bom. 

No epílogo de todo este processo conclui-se, portanto, que a visão e a política desportiva que a FPAK pretende implementar nos Ralis nacionais erradicam no seguinte:

a) 

Todo o edifício regulamentar da modalidade, bom ou mau, e que, em tese, deve ser universal, abstrato e aplicável transversalmente a todos os atores deste desporto, não interessa grande coisa sempre que haja necessidade de acautelar interesses individuais. 

Os regulamentos grosso modo não são, portanto, para cumprir.

A FPAK, que os aprova e os faz cumprir aos (alguns…) outros, dispensa-se ela própria de os respeitar escrupulosamente.  

b) 

Todos os clubes associados da FPAK são iguais perante a entidade federativa, mas há uns que são mais iguais que outros

Sendo mais iguais que outros, é-lhes concedido tratamento de exceção

Não nos parece que a importância ou o legado histórico que um clube organizador possa ter (e o Targa tem, com certeza que sim), lhe dê, sem mais, prorrogativas em especial para beneficiar da não aplicação ou, no caso, modificação casuística dos regulamentos.

c) 

Do comunicado agora objeto de análise, resulta também que na visão da FPAK só havia duas hipóteses na gestão desta questão. 

Ou a prova regulamentada para terra era 'transmutada' para asfalto. 

Ou então simplesmente amputava-se no calendário de 2016 um dos seus oito eventos. 

Resulta por isso bem claro que à FPAK não ocorreu (provavelmente por esquecimento…), caso o Targa não conseguisse, como não conseguiu, realizar o seu Rali em terra, pura e simplesmente confiá-lo a outro organizador que se encontrasse em condições de o fazer nesse tipo de piso. 

Os clubes associados da FPAK que não têm assento na organização de eventos do CNR (e que pelos vistos, dentro desta filosofia federativa, não irão ter nunca) talvez devessem extrair daqui as devidas ilações.

d) 

O respeito pelos calendários desportivos, pilar primeiro para dar um cunho de credibilidade a qualquer competição, não interessa para nada. 

Modificá-los a meio da temporada, podendo eventualmente subverter a verdade desportiva, é um efeito colateral de somenos importância.

e) 

Ainda sobre o comunicado em apreço, nem uma palavra sobre os pilotos (só no final, e apenas para lhes destacar o ‘desportivismo’, ‘profissionalismo’ e ‘empenho’, numa aparente cortina de fumo lançada para desviar as atenções do essencial), no limite os principais lesados no final de toda esta trama.

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De toda a súmula de acontecimentos em nossa opinião verdadeiramente inaceitáveis levados a cabo pela FPAK na gestão deste episódio, fica mais ou menos evidente que na Rua Fernando Namora, em Lisboa, foram feitas opções. 

Entendemos, como de resto já o frisámos em ocasiões anteriores, que a entidade máxima do desporto automóvel em Portugal deve ter, em primeiro lugar e acima de tudo, sempre que haja interesses conflituantes (no caso, entre quem organiza e quem compete), uma filosofia de trabalho virada para a construção de consensos e promoção do diálogo entre os diversos interlocutores da modalidade. 

Assim se fortalece as nossas corridas de automóveis. 

Assim se edifica um quadro de confiança e estabilidade regulamentar, indispensável para o crescimento dos nossos campeonatos. 

A atual direção da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting manifestamente não perfilha dessa visão. 

Opera numa lógica de trabalho assumidamente clientelar e corporativa

Na defesa apenas e tão só dos (alguns?) clubes organizadores. 

Podia eventualmente a FPAK tentar disfarçar, dando-se ao trabalho de, reportando-nos ao caso concreto e atento o melindre da questão, pelo menos ouvir os pilotos. 

Ainda que não institucionalmente, dado o completo esvaziamento de funções da APPA, conceder uns dias aos pilotos inscritos no CNR (não são assim tantos quanto isso, infelizmente) para se pronunciarem sobre o Rali Casino Espinho, versão 2016, sabe-se agora (ou melhor: sempre se soube…), ‘transmutado’ de terra para asfalto. 

nem vamos tão longe ao sugerir que seria o mínimo dos mínimos que é devido a quem investe milhões de euros na competição automóvel e é, no limite, o principal garante do espetáculo. 

Ficamo-nos apenas por dizer que seria um ato de respeito e de bom senso.

Algo que vai faltando aos principais dignatários do desporto automóvel neste país.

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No dia 22 de junho, o Targa Clube fez sair também um comunicado dando publicamente a sua visão sobre os acontecimentos relativos à mudança de piso do Rali por si organizado e integrado no calendário do campeonato nacional de Ralis de 2016. 

É um comunicado interessante. 

Pelo que diz

Mas, sobretudo, pelo que não diz

É que alegadamente, tendo por bom o texto do comunicado, na reunião havida em 12 de janeiro de 2016 entre o clube portuense e a FPAK, o primeiro transmitiu à segunda o nome da sua prova e os parceiros envolvidos. 

Mas em momento algum do comunicado transparece aquilo que é crucial: que o Targa tenha informado, em tal reunião de trabalho, o tipo de piso do seu Rali. 

Desde janeiro até junho (cerca de meio ano, portanto...), curiosamente por obras do inexplicável ninguém afeto ao clube nortenho terá reparado que o mapa do calendário do CNR ‘reservava’ à sua prova piso em terra para respeitar a divisão equitativa (‘o tão desejado equilíbrio’, como consta, aliás, do comunicado…) nessa matéria que os regulamentos estipulavam para 2016. 

Ripostando acusações de que entende ter sido destinatário, atira o Targa com a evocação de uma espécie de ‘Direitos Adquiridos’ face ao seu historial, para poder continuar a organizar em 2016 o seu Rali em asfalto, mas repudia, com todas as forças, ser beneficiário de um trato de exceção nesta matéria. 

Não está em causa que o Targa tenha, passamos a citar, o ‘direito’ de organizar um Rali pontuável para o CNR em asfalto. 

Esse é um ‘direito’ que em abstrato assiste a todo e qualquer um dos clubes associados da FPAK, embora depois no domínio do concreto se perceba que não é bem assim. 

O Targa tem todos os ‘direitos’ que pretender. 

O único ‘direito’ que não tem é que regulamentos que deveriam ter um caráter universal (aplicável a todos os organizadores por igual) e imperativo sejam modificados ao sabor dos seus interesses e conveniências.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://rally-mania.blogspot.pt/2012/01/targa-clube-celebra-45-anos-de.html

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